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domingo, 23 de setembro de 2012

Causa e efeito: Saúde pública, curral eleitoral e boi de piranha


Algumas vezes, por conta do dever de ofício, visito maternidades da cidade de Manaus, nas quais eventualmente comporto-me como espectador, ou seja, observo tudo ao meu redor sem interagir diretamente. A princípio poderia ser este um comportamento muito monótono, desde que tudo funcionasse como deveria funcionar, o que não é o caso. Infelizmente coleciono algumas angústias silenciosas de gente que se acostumou a resignar-se, porque tem suas vozes caladas, muitas vezes pela força de sua timidez, outras pela intimidação de uma citação do artigo 331 do Código Penal, que agora virou moda estar fixado em repartições públicas.

Certa vez, enquanto aguardava na triagem de um maternidade aqui em Manaus, vi uma mãe procurar o serviço social buscando auxílio para que o seu filho de vinte dias, que chorava muito toda vez que urinava. A mãe foi pedir ajuda ao hospital no qual pariu seu bebê, mas a assistente social, muito diligente, disse a mãe que procurasse um Caic, cuja sigla carrega a pretensão de ser Centro de Atenção Integral à Criança. A mãe disse que já tinha ido ao Caic, e que a informação dada é que um bebê até trinta dias de nascido deveria retornar a maternidade na qual nasceu em caso de problemas de saúde. A assistente social, confrontada (ou seria desacatada porque alguém ousou duvidar de sua informação?) mandou a mãe voltar ao Caic e buscar um encaminhamento médico, porque somente com o papel na mão que a mãe teria seu filho atendido. Aqui vale a pena ressaltar que existe um jogo de empurra, pois estávamos em uma maternidade do Estado e os Caics são do município. Nem governo nem prefeitura parecem desejar acolher aquela mãe desesperada com o seu filho no colo, porque nenhum deles parece desejar assumir o “ônus” de proporcionar um serviço digno a população. Eu poderia ter tomado as dores daquela mãe e intervir, mas poderia ser eu o acusado de desacatar um funcionário público ao opor-me a que uma mãe e um criança fossem tacitamente empurradas porta à fora, sujeitas a caminharem sob um sol à pino de meio-dia, talvez enfrentando um ônibus calorento e insalubre. Aquela Maria, com o seu “cristo” no colo, sem nenhum José ao lado, baixou a cabeça e disse que retornaria ao Caic. Na verdade eu não tinha comigo a informação de quem tinha razão, a mãe ou a funcionária pública. Assim impotente permaneci calado.

Na mesma semana, dava aula de teorias da administração para acadêmicos do curso de enfermagem, e resolvi ilustrar uma das disfunções da burocracia com este caso, precisamente o que Charles Perrow classificou como “excesso de regras”. Como alguns de meus alunos já trabalham na área da saúde, fiquei sabendo que não era necessário o encaminhamento médico, ou seja, descobri que a mãe tinha razão. Disse-lhes que e em outra oportunidade, em idêntica situação de trabalho, estava ao lado de uma mãe com o seu filho no colo que ciosamente segurava uma pasta com vários documentos do bebê, dentre eles uma cartilha que é distribuída as mães com várias informações (importantes digo), mas que não tratava dos seus direitos e os da criança no que se refere ao atendimento de saúde. Prontamente ouvi deles que essas informações poderiam ser repassadas durante o pré-natal, isto em um mundo utópico muito distante da realidade brasileira, pois há poucos dias recebemos uma mãe que lutava pelo direito a ser atendida por um médico em seu pré-natal, já que se aproximava o dia de dar a luz e somente fora atendida por enfermeiros. Isto sem mencionar que foi com muito custo conseguiu marcar o primeiro pré-natal, devido as agendas lotadas dos Caics. Só conseguiu um exame de ultrassom para atestar a saúde e a idade do feto porque obteve a ajuda da Associação Viva a Vida (www.avav.org.br) que pagou pelo procedimento.

Neste verdadeiro inferno da saúde, que nem Dante Alighieri teve imaginação suficiente para descrever, é que vejo alguns candidatos a prefeito prometerem que irão resolver (mas não dizem como). Porém, por mais paradoxal que possa parecer, é quase certo que o campeão de votos para vereador em Manaus seja um “cantador de toada de boi”, que é um ritmo local que tem repercussão nacional por meio do festival folclórico de Parintins. Esse artista local já é vereador pelo PDT-AM, cujo dono local do partido é o atual prefeito Amazonino Mendes, que quando governador entregou um hospital na periferia de Manaus que leva o nome da mãe dele. No entanto, já que estamos falando de saúde pública, Amazonino quando viu de perto a face da morte, foi-se tratar no Hospital Sírio Libanês em São Paulo, dando o exemplo de como sobreviver ao inferno criado por ele e seus sucessores. Mas, o que tem haver o cantador de toada de boi com essa história toda?
Todo bom boiadeiro conhece a estória do “boi de piranha”, cujo enredo descreve que para atravessar uma boiada por um rio infestado de piranhas, o peão sangra uma rés e a atira ao rio. Enquanto as piranhas se arvoram em comer o animal sacrificado, no outro extremo do rio uma manada inteira passa. Este é o método político de escolher candidatos "tiriricas", ou seja, personalidades conhecidas, mas com pouco conteúdo, ou plenamente manipuláveis por aqueles que o inventam como "político". Portanto, ao votar em massa no “artista legal”, oportunamente vai passar com ele uma boiada que sabemos é vinculada a um partido, ou a uma coligação, pois o sistema eleitoral é assim: Uma votação em massa no “boi de piranha”, faz passar uma boiada. Infelizmente muita gente desconhece como funciona a eleição por coeficiente eleitoral, no qual votos recebidos por um são transferidos para terceiros.

Retornando ao assunto inicial (falta qualidade na saúde), vejo que existe ausência de inteligência para fiscalizar e propor ações públicas que possam colocar o cidadão como guardião do sistema. Tudo isto se consegue com informação, como por exemplo: palestras e distribuição de uma cartilha com os direitos da parturiente e da criança, para que ambas não sejam chutadas das maternidades, usando o mesmo método que obriga todo estabelecimento comercial a ter o Código de Defesa do Consumidor. No entanto, a única informação que vejo proliferar para as mães nas maternidades é que levantar a voz é crime, e que é bom ficarem caladas para não serem enquadradas no artigo 331 do Código Penal.

Perdemos tempo votando no “artista legal” que se presta a ser boi de piranha, assim como qualquer outro que se sobressaia não com propostas, mas por meio da venda de sua própria imagem. Assim, não ficaria surpreso se aquela mãe da maternidade manifestasse que iria votar no artista, pois faltaria a ela a conexão de sua realidade com os meandros eleitorais que a fazem sofrer o seu calvário.

Esta é a nossa realidade!

João Lago
Administrador, professor e ativista social.

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