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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Homenagem a Ivo Knob


Algumas pessoas deveriam viver para sempre porque se fazem importante em nossas vidas e o simples fato de nos imaginarmos sem elas já nos provoca uma profunda angústia. Essas pessoas são importantes pelo exemplo de vida que espelham e por uma certa necessidade mesquinha que temos de tê-las ao nosso lado para nos sentirmos melhor. São elas que nos aconselham, que se preocupam se estamos bem e que, mesmo que não peçamos, estão sempre dispostas a ajudar-nos. Isso pode até ser natural quando estamos nos referindo a uma pessoa próxima da família (mãe, pai, avô, avó etc.), mas quando essa pessoa vai além dos laços familiares e coloca-se a disposição de quem necessite, então é porque estamos falando de pessoas essenciais.

Pessoas essenciais não se forjam ao acaso, porque se as observarmos nos detalhes veremos que elas trazem dentro de si características que muitas vezes nos faltam como paciência, alegria, caridade, paz, equidade, fidelidade, modéstia..., mas, a essas características, que na verdade são valores, damos um nome especial. As chamamos de dons do Espírito Santo e as encontramos nas palavras do apóstolo Paulo quando ele pregou na província romana da Galácia (Gl 5, 22-23). São Paulo disse: “Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito” (Gl 5, 25). Então, quem carrega o Espírito Santo de Deus dentro de si também agirá de acordo com o Espírito e tudo fica mais claro para compreendermos porque algumas pessoas são assim.

Ivo Knob, para nós, Sr. Ivo, atuou como Ministro Extraordinário da Comunhão aqui na Igreja de São Marcos e levava consigo a Eucaristia a quem necessitava. É importante que se diga que na Igreja Católica o ministro da Eucaristia de fato é o sacerdote, pois o ministro por excelência é aquele que preside e consagra o pão transformando-o em alimento sagrado. Analisando simplesmente o significado da palavra “extraordinário” encontramos a seguinte definição: “que foge do usual ou do previsto, que não é ordinário, fora do comum”. Assim, é natural que pessoas em funções extraordinárias sejam aquelas que muitas vezes se colocam em distinção dos demais por posicionarem-se de modo especial. Engana-se quem age assim! Porque as pessoas extraordinárias não se forjam pela posição que ocupam, mas pelo que conhecem de Cristo como dádiva maior do amor de Deus para conosco, pois assim escreveu o Apóstolo João: “Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 Jo 4, 8).

Pessoas extraordinárias expressam-se pelo amor e foi pelo amor que seu Ivo se fez marcante entre nós. Pelo olhar terno, carinhoso e sempre atencioso para com todos e de modo todo especial para com sua Teresinha, com quem formou uma linda família. Também pelo amor, o cuidado com a natureza, semeando e colhendo os frutos que tão gentilmente compartilhava com os amigos que o visitavam. Um exemplo belo, de um homem sábio, que, carregado de simplicidade, jamais deixou que a sabedoria o afastasse das pessoas, ao contrário, verdadeiramente sábio, pela fé e disposição ao serviço da Eucaristia, era exemplo para todos nós. São pessoas como seu Ivo que quando partem deixam uma profunda saudade. Saudade que, para cada um de nós seus amigos, se ampara nos exemplos preciosos por ele deixado: de esposo, pai, irmão, avô, bisavô e amigo querido que não se apagará como uma vela que perde o brilho, pois a luz, uma vez emitida, caminha no espaço e no tempo e segue sendo percebida no universo por toda a eternidade.


Comunidade de São Marcos
Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório
Manaus - AM

Biografia 

Ivo Knob era gaúcho natural de Passo Fundo, nasceu dia 15 de outubro de 1934.  Formado em 1958 como técnico em contabilidade pelo Colégio Marista Conceição de Passo Fundo. Em 16 de maio de 1959 casou-se com Terezinha aos 24 anos. No ano seguinte, iniciou seus estudos de direito na Faculdade de Passo Fundo, mas não chegou a concluir o curso. Radicado em Manaus, trabalhou na empresa  Madeireira Rio Solimões Ltda. de 1974 a 1984 e no Colégio La Salle de 1981 a 1985 no qual foi primeiro funcionário registrado. Aposentado, Ivo Knob reservou parte de seu tempo ao serviço da igreja como Ministro Extraordinário da Eucaristia juntamente com sua esposa Terezinha. Ivo e Terezinha foram casados por 60 anos e tiveram três filhos: Fábio, José e Rita.

Ivo Knob faleceu dia 14 de agosto de 2019 no Hospital da Unimed em Manaus, deixando saudades de sua esposa, filhos, sete netos e quatro bisnetos.

sábado, 17 de agosto de 2019

A busca do poder da abstração


A capacidade de abstração é uma das mais elevadas formas de exercitar a mente na busca conhecimento, porque ela não limita o raciocínio aos fatores relacionados a realidade do indivíduo. Para que possamos melhor compreender este conceito, o exemplo mais clássico é aquele que se atribui a Isaac Newton quando viu uma maça despencar do galho que a prendia. Ao presenciar tal cena lúdica o físico e matemático inglês percebeu que a mesma força da natureza que leva a maça cair ao chão é a aquela que faz os planetas girarem ao redor do sol. Logicamente uma abstração dessa magnitude não sairia de uma mente vazia, pois para que fosse possível alcançar tal estágio de sofisticação intelectual, ele próprio já deveria ter alcançado todo o conhecimento matemático de sua época e ido muito mais além. Atribui-se a Isaac Newton e Gottfried Leibniz a invenção do cálculo diferencial e integral, os quais foram essenciais para o desenvolvimento da engenharia, economia, física, estatística e demais ramos do conhecimento que precisam estudar e analisar taxas de variação de grandezas e a acumulação de quantidades para melhor entender fenômenos observados. Isaac Newton ao ver uma maça cair ao chão não teria formulado a lei da gravitação universal se sua mente não fosse capaz de resolver os problemas mais elementares daquilo que já era observável pela percepção humana.

A política é considerada um fenômeno social e até existe um ramo do conhecimento que a estuda, o qual se denomina Ciência Política. Embora considerando que a Ciência Política tenha uma análise mais reativa das ações de governos, visando relacioná-las dentro de uma visão sistêmica, ou seja, estabelece padrões empíricos baseados em conhecimentos históricos e traça paralelos que visa explicá-las, mas pouco contribuindo para apontar inovações. O raciocínio que desejo lançar sobre a Ciência Política é que tudo que a sociedade construiu até aqui como modelo advém de conhecimento empírico e que nos falta essa tal capacidade de abstração para trilharmos o caminho do novo. Porém, para que se possa abstrair sobre determinado tema é necessário alcançar um grau de excelência nos princípios fundamentais do conhecimento, basta olharmos para a biografia da maioria dos homens que estão no Congresso Nacional, do atual presidente e dos seus ministros para percebermos que dessa mato não sairá coelho, cobra, sapo ou qualquer outro animal que pule ou rasteje. Quando analiso boa parte do discurso presidencial, de ministros e dos recém-eleitos para o Congresso Nacional vejo que esses ainda estão com a mente no final dos anos 50 do século passado e em plena guerra fria. Ainda estão atados a dicotomia do comunismo versus capitalismo, sendo aqueles de esquerda desejando uma sociedade planificada que reduz os cidadãos ao determinismo das abelhas e os outros de direita com a convicção fisiocrata que a mão invisível do mercado traz justiça social. Se os discípulos do Leninismo ainda vivem a luta de classes, os adeptos contemporâneos da fisiocracia, por sua vez, ainda estão perdidos no final do século XVIII e não passaram pelas agruras sociais advindas com a revolução industrial ocorrida no século XIX e que proporcionaram que as ideias de Karl Marx fossem “ideologizadas”. O estudo empírico da Ciência Política por ela mesma seria suficiente para deduzir que pouco temos a ganhar com essa discussão interminável que se assemelha ao sexo dos anjos.

A capacidade de abstração não deveria estar tão somente restrita as ciências naturais, mas deveria ser capaz de modernamente inspirarem os cientistas sociais a elucubrarem novos caminhos que levem a uma sociedade economicamente sustentável, socialmente justa e respeitando a individualidade de seus membros ao limite do que é aceitável para uma convivência coletiva. Porém, aqui não se deseja afirmar que a dominação de uma maioria sectária seja justificável pelo simples fato de ser maioria. Para exemplificar, levando o exemplo ao extremo, imaginemos hipoteticamente que no Brasil exista um grupo que esteja muito preocupado com o comportamento afetivo de casais homossexuais em público e que não suporte vê-los andando de mãos dadas e beijando-se. A reflexão a qual se deve ater é se todos os membros dessa sociedade estariam dispostos a abdicar de namorar em público para que exista paz social, deixando seus comportamentos lascivos para o âmbito privado. Não se pode construir privilégios individuais, tão poucos coletivos, quando esses atentam contra a liberdade e a isonomia de seus membros. A ofensa que um indivíduo possa fazer ao outro tem que ir além da subjetividade, pois no âmbito privado qualquer um pode acumular lixo em sua casa e viver na imundice, desde que isso não traga risco a saúde de seus vizinhos. Quando vive em sociedade, o dever que o indivíduo tem como compromisso de respeito ao semelhante é agir e respeitar as campanhas de combate as endemias (dengue, sarampo etc.) vacinando-se e limpando o seu quintal, buscando o conhecimento e fugindo do obscurantismo. Assim, se cada um agir com responsabilidade e estiver disposto a ter as mesmas obrigações e direitos de seu semelhante, estaremos no caminho do equilíbrio social que todos desejam.

Estamos vivendo um período muito difícil, no qual os princípios básicos que nos definem como civilizados estão sendo postos à prova. Parcelas significativas da sociedade trava uma luta contra a ciência e mostra-se desfavorável às liberdades individuais que colocam em risco qualquer possibilidade de encontrarmos um caminho de conciliação. A continuarmos travados no discurso mais raso de todas as possibilidades que nos definem como nação, muito provável seremos incapazes de proporcionar as próximas gerações o mínimo necessário para grandes abstrações.

João Lago

sábado, 10 de agosto de 2019

A repetição do modelo de ser pai


A experiência de ser pai tem um brilho muito especial durante a infância de nossos filhos. Existe uma responsabilidade no cuidado de nossas ações para que elas não possam comprometer o indivíduo adulto que entregamos ao mundo, pois a psicanálise aponta que a maioria das frustrações e neuroses podem ter início na infância. Portanto, como quase tudo na vida, os excessos ou a omissão podem prejudicar o desenvolvimento emocional de uma criança, sejam aqueles motivados pelo amor ou pela necessidade da repreensão. Essa dicotomia pode paralisar e levar o pai, como era comum anterior aos anos cinquenta, a deixar ao encargo da mãe a tarefa de educar os filhos. No entanto, a sociedade mudou e não se espera mais da mulher o papel de dona de casa, muito pelo contrário, a mulher está no mercado de trabalho em luta de igualdade por salários e direitos. Assim, a mulher que não está mais dentro de casa, em face da omissão do pai, muitas vezes também tende a terceirizar a educação da criança para a babá, empregada, parente etc., ou deixa para a escola a função de ensinar valores para os seus filhos. Eu tornei-me pai nesse mundo em transformação e com uma dose de complexidade, pois a infância dos meus filhos foram vividas bem longe de todos os parentes (maternos e paternos).

Não existe um curso de formação de pais e, talvez por causa disto, Antônio Carlos Belchior teria dito em sua canção: “que apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”. Somos uma repetição inconsciente da educação recebida dos pais e, no meu caso, como eu não tive um pai presente que fosse um arremedo de modelo, minha visão de atitudes paternas vieram de meu avô João Pinheiro. Ele era um homem de temperamento forte e com convicções firmes na necessidade que os netos estudassem para que fossem algo na vida. Ele sempre dizia: “quem não estuda puxa carroça”. Na infância de meu avô, os vendedores ambulantes na ausência de animais puxavam eles mesmos suas carroças carregadas de mercadorias, talvez sendo esse o exemplo do insucesso daqueles que não se dedicaram aos estudos. E como toda a criança que ama, lembro que esforçava-me para parecer inteligente e em retribuição era chamado por ele de “meu cientista”.

O meu pai João Lago, de quem herdei o nome, antes de ir morar no Sul do país deixou na casa de minha mãe uma coleção de livros. Eram obras completas de José de Alencar, Machado de Assis, Augusto dos Anjos, poesias de Bocage, além de clássicos com O Vermelho e o Negro de Stendhal dentre outros. Sabia que aqueles livros pertenciam-lhe porque todos levam um carimbo com o seu nome na contracapa e imaginava que ao ler aqueles livros poderia conhecer um pouco do pai que não tive oportunidade de conviver na infância. Já adulto, aos vinte e um anos, tive a felicidade de reencontrá-lo e ficar hospedado em sua casa em Porto Alegre com sua nova família. Com muita oportunidade para conversarmos, indaguei sobre todos aqueles livros para que pudéssemos compartilhar experiências comuns pelo fato de grande parte daquela biblioteca ter passado em minhas mãos. Infelizmente meu pai disse-me que os colecionava e que não os teria lido e, naquele momento, morria em mim a esperança da vivência em comum que pensei que tivéssemos o que me deixou decepcionado. Porém, mais tarde pude perceber que de maneira torta o bem que ele pode proporcionar-me, pois a partir daqueles livros pude adquirir um imenso prazer pela leitura o que me facilitou o gosto por estudar.

O que somos para os nossos filhos será uma ideia do que herdamos de nossos pais. Porém, se em algum momento em nossa infância nos faltou exemplos de vida que nos inspirem a sermos pais melhores, no instante em que somos chamados a paternidade, as pessoas boas que nos cercam hão de servir como modelo para as responsabilidades de pai. Assim, não vejo motivo para omissão de um homem negar-se a ser pai, ainda que o filho seja fruto de uma união desfeita ou não desejada.

Ser pai é muito mais que um nome no registro de nascimento, ou na carteira de identidade. Ser pai é um compromisso para que os filhos possam ser pessoas dignas e que um dia, a repetir esse círculo de virtudes, possam ser também exemplos dignos para os seus filhos.

João Lago