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quinta-feira, 27 de junho de 2019

A deep web das consciências e a verdade


Em minha carreira profissional como professor muitas vezes recebi elogios quanto a minha facilidade de produzir textos e que alguns creditaram a isso a uma capacidade nata. Infelizmente não foi, apesar que acredite que possam existir pessoas com maior facilidade para serem músicos, matemáticos etc., por esses acidentes genéticos que produzem maravilhosas sinapses cerebrais na mente de gênios. Em meu caso, muito antes da necessidade escrever, adquiri um prazer compulsivo pela leitura que se estendia desde os dizeres de uma caixa de sabão em pó, indo a uma bula de remédio, notícias de um jornal até obras da literatura nacional e internacional. Assim, em um dado momento de minha vida eu identificava-me com um ávido leitor dos mais ecléticos possíveis.

Um fenômeno da era da internet é a migração de escritores para os videoblogues. Nomes prestigiados como Marco Antonio Villa, Luiz Felipe Pondé, Mario Sergio Cortella, Leandro Karnal, dentre outros, que antes de inaugurarem canais de vídeo para divulgação de suas ideias o faziam por meio de seus livros. Por outro lado, muita gente que acumula milhares de visualizações (views) de seus vídeos na internet jamais escreveram um livro, ou uma resenha sequer, mas por força de uma certa preguiça que o brasileiro tem pela leitura faz de alguns canais líderes de audiência. Em minha análise, a mesma preguiça que há por uma leitura mais densa e elaborada faz também de microblogues, nos quais há limitação duzentos e oitenta caracteres, um sucesso absoluto de público com milhares de seguidores. Neste ponto, junta-se a fome com a vontade de comer, ou seja, gente com pouca capacidade de escrever com uma horda com desejo limitado de leitura. O mais irônico é que mesmo na pouca limitação que há na quantidade escrita não anula o assassinato da gramática.

Outro hábito que se popularizou é o compartilhamento de notícias, sejam as mesmas falsas ou verdadeiras nas redes sociais. No que se refere às notícias falsas o mal está na origem dos motivos de quem se utiliza de um suposto anonimato para espalhar maledicências. Porém, mesmo as que possam ser verdadeiras, quando analisadas, podem ser somente uma parte recortada da realidade dos fatos, como por exemplo: palavras pinçadas de um contexto, parte editada de um vídeo que servem para reforçar ideias contrárias ao fato quando se vista a informação em sua integralidade. Aqui podemos encontrar dois fatores que se complementam. O primeiro é se a mensagem vai ao encontro da ideologia do receptor e o segundo é a falta de curiosidade (ou preguiça intelectual) para saber se tal notícia é verdadeira ou não. Logicamente, todo fenômeno social não acontece limitado por dois ou três fatores, mas alguns podem ter maior ou menor participação a partir do tecido social no qual se entranham. Dito isto, a baixa cultura do receptor, a doutrinação ideológica a partir da fragilidade na qual sua consciência possa ser capturada é uma explicação porque tantas almas, sejam elas mais à esquerda ou à direita, teimam em negar a evidência dos fatos.

Infelizmente, as mensagens espúrias vazadas da comunicação entre o ex-juiz Sérgio Moro e os procuradores da Força-tarefa da Lava Jato demonstram que, embora nossas convicções possam vir de leitura ávida de documentos públicos e do acompanhamento inconteste dos fatos exibidos nas mais diversas mídias, o que existe no subterrâneo, na “deep web” das consciências, muitas vezes não vem a luz da opinião pública. O que podemos aprender com esses últimos acontecimentos é que a verdade nas democracias somente sobrevive face a dois princípios fundamentais: Liberdade de Expressão e Livre Imprensa.

João Lago.

domingo, 16 de junho de 2019

A supremacia conveniente da ignorância


Albert Einstein era judeu e independentemente de ser um grande cientista o fato de ser judeu era superveniente a sua condição intelectual. O nazismo agiu dessa maneira, sua régua olhava o indivíduo como sendo pertencente, ou não, de uma elite gênica que estava ali ungida para herdar e governar a terra. Assim, não somente mandou para campos de concentração os judeus, mas também os ciganos, homossexuais, comunistas e demais antagonistas de sua supremacia racial e ideológica. Já com a pequena comunidade negra existente na Alemanha o nazismo foi mais complacente, a partir das leis raciais de Nuremberg de 1935 foram proibidas os “casamentos raciais”, os casais mistos obrigados a separarem-se e o que não tinha “sangue alemão” convidado a ser esterilizado.

Wernher von Braun também foi um grande cientista alemão, filiado ao nazismo e o seu conhecimento foi colocado em prática na fabricação dos mísseis V-2 que caíram sobre Londres no final da segunda guerra mundial. Quando a guerra terminou, apesar de sua participação relevante no poderio bélico nazista, foi levado para os EUA onde todo o seu conhecimento em fabricação de foguetes foi utilizado no programa espacial estadunidense nas décadas de 60 e 70. Não somente von Braun foi importante para a chegada do homem à Lua, mas se hoje temos comunicações via satélite foi por sua contribuição no aperfeiçoamento de veículos lançadores de satélites. Nesse ponto é que Einstein e von Braun unem-se em suas descobertas, pois se foi por meio das equações de Einstein que foi possível a construção da bomba atômica, também foi por intermédio dos foguetes de von Braun que as ogivas nucleares foram apontadas para o “inimigo” e durante quarenta e quatro anos vivemos em guerra fria (EUA capitalista versus URSS comunista). As guerras são um flagelo no qual governos e ideologias digladiam-se em meio a uma população civil que eventualmente os apoiam, ou não. Porém, a história nos ensina que líderes com o interesse voltado para a coletividade são paridos em ambiente democrático. Porém, também é fato que a democracia pode fornecer uma porta de acesso aos déspotas que uma vez instalados como governo tratam de destruir as instituições que permitiram levá-los ao poder. Desta forma, a sustentação do Estado Democrático de Direito depende do grau de maturidade da democracia e o quanto a Constituição que a sustenta é respeitada e seguida. Assim, não há justificativa dentro da democracia que possa permitir uma ruptura institucional por menor que seja, pois todos estão abaixo das mesmas leis e são iguais perante elas.

O Nazismo subiu ao poder na Alemanha não por um golpe de Estado, mas porque se aproveitou da frágil democracia de um país arrasado economicamente para construir um governo autoritário que perseguia e assassinava pessoas. Einstein não teria tido a chance de formular a teoria da relatividade, pois antes disto teria sido enviado para um campo de concentração. Ao mesmo tempo, Wernher von Braun poderia ter sido julgado e condenado à morte pelo tribunal de Nuremberg por crimes contra a humanidade, mas ao ser capturado pelos EUA conseguiu convencer que era tão somente um cidadão alemão que não tinha escolhas, ou seja, deveria contribuir para o nazismo ou seria morto. Chegou a alegar que para não ser chamado de comunista teve que participar como membro nazista e durante toda sua vida nos EUA foi confrontado quanto a sinceridade dessa afirmação. Se o nazismo fosse democrático essa afirmação não faria o menor sentido.

A “caça as bruxas” acontece quando as instituições democráticas deixam de garantir os direitos fundamentais para qualquer cidadão e o indivíduo é perseguido não por atos criminosos, mas por seu posicionamento ideológico, ou por conjuntos como fatores étnicos, opção sexual etc. Os amantes do autoritarismo começam comendo pelas bordas tratando de suprimir o contrário dentro de suas esferas de poder. Mandam exonerar funcionários públicos que no passado serviram, ou contrariaram o interesse pessoal do tirano. Perseguem ícones do pensamento humanístico chamando-os de “comunistas” e patrulham eventuais seguidores como uma raça a ser subtraída do mundo. Na verdade, são terraplanistas da ignorância que nem a toda equação elegante de Einstein, nem qualquer foguete de von Braun que os leve a estratosfera os farão crer que o mundo é redondo.

João Lago