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quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Empobrecimento, falência educacional, religião e o fascismo.


Quando os historiadores e sociólogos no futuro estudarem os motivos do subdesenvolvimento brasileiro, apesar das riquezas naturais e da ausência de catástrofes que possam assolar este país (terremotos, tufões etc.), irão se debruçar nesse momento histórico que separaram as forças democráticas do fascismo bolsonarista por uma quantidade ínfima de 2,13 milhões de votos, representando apenas 1,08% do total dos votos válidos. Porém, apesar das semelhanças do bolsonarismo com o fascismo, talvez seja precipitado chamá-lo assim, pois ao compará-los, o primeiro não criou um partido que abrigasse uma ideologia política, bem como sua completa ausência de intelectuais que o sustente. Nesta reflexão abordar-se-á como a nossa deficiência educacional, correlacionada com a uma alienação política, fez florescer uma extrema-direita que mistura truculência, mentiras transformadas em verdades, ignorância e fanatismo religioso. Iniciaremos por uma breve biografia de Jair Messias Bolsonaro, mas caso já a conheça pode pular para o terceiro parágrafo sem prejuízo da leitura.

Bolsonaro, ao longo de sua vida pública, trocou mais de legendas partidárias do que de mulheres, elegendo-se presidente em 2018 pelo Partido Social Liberal – PSL (17) e agora concorreu pelo Partido Liberal – PL (22), sendo esse o nono partido que esteve filiado. Tentou fundar o partido Aliança pelo Brasil, mas só conseguiu 40% das assinaturas necessárias para registrá-lo. Desistiu do projeto porque seria humilhante um segundo fracasso que demonstraria a realidade de um vazio político que o acompanha. Além disso, uma rápida pesquisa em sua biografia aponta que foi um mau soldado e praticamente expulso do exército após ter sido acusado de haver planejado explodir bombas como forma de reivindicação salarial. Condenado em primeira instância, conseguiu ser absolvido em 1988 e dois anos depois entrou para a política. Desde então, Bolsonaro não teve nenhuma outra ocupação, ou profissão, transformando sua violenta defesa salarial de militares em um capital político que o manteve em vários mandatos por trinta e dois anos. Não por acaso, essa ligação umbilical entre Bolsonaro e militares o fizeram próximo de milicianos do Rio de Janeiro. Enriqueceu na política, pesando sobre si suspeitas de peculato (rachadinha) que se estenderam para os seus filhos mais velhos. Porém, mais recentemente soube explorar a visão neopentecostal de defesa de pautas conservadoras, baseada na iminência de um comunismo que os obrigariam a aceitar o aborto, o casamento de homossexuais em igrejas, a pedofilia, dentre outras fantasias proferidas em templos por líderes ungidos no charlatanismo e no estelionato religioso.

Na Itália de 1925 houve um manifesto que reuniu 250 personalidades, entre filósofos, poetas, artistas que buscaram dar ao fascismo um verniz de movimento social intelectualizado. Neste sentido, o bolsonarismo é um total fracasso pelo aglutinamento do obscurantismo religioso com a aversão a ciência, materializada por movimentos antivacina, terraplanismo, criacionismo e ódio ao ensino universitário. O único “pensador” associado ao bolsonarismo, o falecido Olavo Carvalho é tão filósofo quanto o “religioso” Kelmon é padre. Já os artistas sertanejos, que apoiaram Bolsonaro em derradeira hora, adotam um fisiologismo facilmente comprovado com o resgate de fotos de um passado recente. Estiveram ao lado de Lula e Dilma em almoços, jantares, festas, comemorações e não surpreenderiam se viessem a fazê-lo novamente. Ainda se pode insistir em citar um ou outro ator e atriz que estiveram apoiando Bolsonaro, mas basicamente buscavam sair do ostracismo, ou tiveram a reputação dilacerada pelo apoio que prestaram, ou seja, não se pode atribuir ao bolsonarismo o exemplo de mecenas cultural.

Então, não sendo o bolsonarismo um movimento político-ideológico e nem cultural, o quê explicaria a quantidade de votos recebida nas urnas, mesmo após a condução desastrosa do combate a pandemia, o descaso com a preservação do meio ambiente, as agressões contra mulheres e negros, a aversão ao homossexualismo e a incompetência na condução econômica que levou ao empobrecimento do brasileiro? É óbvio que não se pode atribuir uma única causa para o crescimento do bolsonarismo com representante da extrema-direita brasileira, mas se pode atribuir uma hierarquia de fatores, observando o surgimento do nazifascismo no Século XX na Europa e o ressurgimento com força política ainda no Século XXI. Assim, visando tornar mais enxuta esta análise, aponta-se aqui três principais motivações: a) Empobrecimento da classe média; b) Baixo nível educacional e cultural da população; c) Pânico moral semeado por religiosos ligados a política e corroborado por mentiras (fake news) distribuídas pelas redes sociais.

No Brasil para ser considerado rico, segundo estudos do IBGE, é necessária uma renda mensal igual ou maior 23,6 salários-mínimos (R$ 28.603,20), mas somente 1% da população ocupa esta renda. Considerando que em torno de 40% dos brasileiros recebem aproximadamente um salário-mínimo (R$ 1.212,00), a classe média fica espremida em uma faixa ao redor de 10% da população, sendo os 50% restantes com rendimentos abaixo de mil reais. O Brasil é um país com uma péssima distribuição de renda, combinando inflação, juros altos e endividamento da população. Portanto, uma massa maior de brasileiros contida nessa classe média é mais sensível ao descontrole da economia e a sua crítica política está muito associada com a percepção de destruição de seu padrão de vida. Aumentos recentes de energia elétrica, combustíveis e alimentos refletem em muito no sentimento de queda do poder aquisitivo. Por outro lado, quando se observa a nível educacional do brasileiro, o IBGE-PNAD aponta que mais da metade das pessoas de 25 anos ou mais não completaram o ensino médio. Essa mesma pesquisa indica que: “Das 50 milhões de pessoas de 14 a 29 anos do país, 20,2% (ou 10,1 milhões) não completaram alguma das etapas da educação básica, seja por terem abandonado a escola, seja por nunca a terem frequentado. Desse total, 71,7% eram pretos ou pardos”. Porém, se os dados quantitativos de nossa educação assustam, quando passamos a olhar os nossos dados qualitativos não temos nada a comemorar. No Pisa, que é uma avaliação educacional internacional para compreensão de ciências, leitura e matemática entre estudantes de 15 anos de idade, o jovem brasileiro ficou na 57o posição do ranking, atrás do Chile, Uruguai, Costa Rica e México, somente citando os latino-americanos. Os impactos da pandemia do covid-19 ainda estão sendo tabulados no Censo Demográfico 2022, mas projeções de aumento de evasão escolar e queda no nível dos conteúdos apreendidos já são esperados.

O último tópico desta nossa análise carece de um parágrafo exclusivo, pois as notícias falsas gerando desinformação e medo foram bastantes comentadas e combatidas pela Justiça Eleitoral nessa última eleição. Por óbvio, indivíduos com deficiência intelectual, que prejudica o senso crítico, são mais propensos a acreditar em teorias conspiratórias e pseudociências, principalmente quando estão em grupos, seja quando propagadas em púlpitos de igrejas, ou virtualmente pelas redes sociais, nas quais ambas têm uma audiência cativa. Na igreja, por meio de professos que usam de sua respeitabilidade para o proselitismo político, mesclado com “dogmas de fé”, cria-se o pânico moral e religiosos doutrinam suas “ovelhas” de acordo com os seus interesses não declarados. Nas redes sociais, por meio de algorítimo, que cercam as pessoas sempre do mais do mesmo, alimentando-as somente de assuntos de sua predileção e não oferecendo uma visão ampla sobre determinado tema. Não por acaso, todas as atrocidades cometidas pela extrema-direita brasileira na pandemia foram relativizadas pelas pseudociências propagadas entre fiéis e nas redes sociais. No entanto, não é possível afirmar que a adesão do obscurantismo e de doutrinas anticristãs, mesma quando vindas de crentes, possa ser atribuída à religião. Pois, naquelas denominações religiosas nas quais o rito está mais presente na celebração e mais concentrado no Evangelho, não se vê tanta adesão ao canto da sereia do extremismo nazifascista. As correntes carismáticas, tanto na igreja católica quanto nas neopentecostais, deixam-se mais facilmente seduzir pelo lema “deus, pátria e família” sem perceber, ou desconhecer, que sua origem vem do fascismo.

Patinamos no subdesenvolvimento e assim permaneceremos se não entregarmos uma educação de qualidade a nossa juventude. O aumento do senso crítico, advindo do crescimento intelectual, não vêm para afastar o indivíduo de Deus, mas para afastá-lo dos estelionatários da fé alheia. O combate as mentiras difundidas nas redes sociais não é um atentado a liberdade de expressão, ou tem qualquer semelhança com censura, pois qualquer conteúdo que seja usado para enganar rouba do cidadão o seu senso crítico. O problema da classe média não deve ser resolvido por espoliar ainda mais os 50% mais empobrecidos, pois esses não tem mais de onde tirar e já estão na fila do osso e da carcaça de frango. A classe média deve olhar para o 1% dos mais ricos e perguntar-se como chegamos a ser um país tão desigual e qual esforços serão necessários para reduzir esta desigualdade.

Parece tão simples a compreensão daquilo que nos falta, ao mesmo tempo tudo nos faz tão distante de compreendermos aquilo que nos cerca. Esta análise não se esgota nas premissas aqui expostas, nem está concluso no silogismo que a representa, porém pode ser um ponto de partida para a compreensão de como poderemos sepultar no Brasil as tentativas de recriar um fascismo mortal, racista, homofóbico, misógino, anacrônico e mofado.

João Lago