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quinta-feira, 26 de março de 2015

O sofrer das horas

Autor: João Lago

As horas passam e não atrasam a ansiedade
Tantas dúvidas que se calam, será que é verdade?
É melhor que não seja ouvida, permaneça então muda
Vá para longe, não me apoquentes, me ajuda!

Não será o sofrer das horas que me derrama as lágrimas
São as tuas contundentes e implacáveis palavras áridas
Que ecoam profundamente no deserto de minha alma
Levando-me a paz, a serenidade e toda a minha calma

As horas passam, e tudo mais em minha volta é tolice
Como se o tempo, no mais implacável momento mentisse
Não é o dia de hoje, talvez nem seja o dia de amanhã
Perdida e enclausurada em uma estúpida palavra vã

A memória, algoz do perdão de tudo a ser esquecido
Levará a exaustão esse meu pobre coração sofrido

Tenha pena de mim.

 

sábado, 21 de março de 2015

Morte em Assalto ao Mercadinho Santos Dumont

No início da noite deste sábado, por volta das 19h, bandidos que chegaram em uma moto assaltaram o Mercadinho Santos Dumont, localizado na via principal do conjunto residencial que inspirou o nome do estabelecimento comercial. Durante o assalto, foram ouvidos pelo menos seis tiros que foram disparados em via pública.

Não é a primeira vez que bandidos assaltam o mercadinho do conjunto, mas é a primeira vez que tem como resultado troca de tiros e um óbito. Neste caso, a morte foi de um dos assaltantes que, segundo testemunhas de um bar localizado na Alameda Santos Dumont, saiu correndo no sentido da Av. Torquato Tapajós, quando em uma troca de tiros com um policial civil, que estava nas proximidades no momento do assalto, levou a pior e tombou no cruzamento da rua Eyner Encarnação e alameda Santos Dumont, bem próximo da sede da Associação dos Moradores, que até o mês de janeiro abrigava um posto da Polícia Militar, espaço esse cedido para o projeto Ronda nos Bairros.

Infelizmente a história recente do Conjunto Santos Dumont é cercada de muita violência, que já resultou na morte de pai e filho em um assalto ocorrido ao Restaurante Rei do Carneiro no final de setembro de 2013 que consternou todos os moradores do Conjunto Santos Dumont.

A reportagem do blog fez imagens do local após o tiroteio e as cenas são fortes. Portanto, se você for uma pessoa sensível aconselhamos que não veja o vídeo.


terça-feira, 17 de março de 2015

O BRASIL FOI ÀS RUAS CONTRA O CINISMO.



Conta-se, mas não se sabe se é verdade, que a imperatriz Maria Antonieta da França ao ser informada que o povo não tinha pão para comer aconselhou que comessem brioches. No final do Século XVIII a França era ass
olada pela mais grave crise política e econômica, na qual era grande o contingente daqueles que passavam fome e enorme a aristocracia que vivia dos privilégios de estarem próximos ao poder.

No último domingo (15.3), 1,8 milhão de brasileiros foram às ruas para protestar contra a corrupção e pedir a saída de Dilma Rousseff. Ainda que famélicos não caminhem em bandos pelas ruas das grandes metrópoles, em janeiro passado foi noticiado, pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), uma reviravolta nos indicadores de combate à pobreza no Brasil, nos quais 1 milhão tornaram-se miseráveis em apenas um ano. Os programas de combate à miséria, tão festejados na propaganda eleitoral de Dilma Rousseff, começavam a patinar e a retroceder. Não somente isto, nos lares mais modestos, a dona-de-casa sente a carestia de vida na ida ao supermercado, na conta de luz, nos serviços de transporte público e faz a necessária associação com os escândalos de corrupção na Petrobras, afinal durante os governos Lula e Dilma, foi apregoado um período de grande prosperidade, pois toda a propaganda de marketing do governo estava associada à descoberta de grandes jazidas de petróleo, que colocaria o Brasil como grande exportador dessa fonte de energia para o resto do mundo. Tudo parecia ir relativamente bem, pois o preço das commodities no mundo favorecia as exportações brasileiras e o governo resolveu que poderia gastar “por conta” sem se preocupar com o dia de amanhã. Anunciou um grande plano de investimentos (Programa de Aceleração do Crescimento - PAC), promoveu uma Copa do Mundo e realizará a Olimpíada ano que vem, transformando o Brasil em um enorme playground para as grandes empreiteiras. Aqui justamente se encontra o grande xis da questão: até que ponto as obras agendadas pelo PAC estavam em sintonia verdadeiramente com o crescimento do país? Quantas obras necessárias de infraestrutura foram deixadas para trás, ou tiveram sua entrega comprometida pelo aumento dos custos de execução? A lista pode parecer interminável, mas podemos citar algumas: a) transposição do Rio São Francisco; b) o projeto de esgotamento sanitário da bacia do Cocó, em Fortaleza; c) a ferrovia de integração Oeste-Leste, na Bahia; d) as linhas de transmissão que liga a hidrelétrica do Rio Madeira ao sistema interligado nacional. Qualquer pedreiro, com bom conhecimento prático, sabe que quanto mais se atrasa uma obra, maior o seu custo. Segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em maio do ano passado, somente o atraso na transposição do Velho Chico resultava em um prejuízo de R$ 16,7 bilhões.

A operação Lava Jato confirmou a suspeita antiga que as empreiteiras no Brasil formam cartel com a conivência de políticos para inflar preços e financiar campanhas partidárias milionárias. Logicamente não gastam tudo, e as sobras servem para enriquecer os responsáveis diretos pelo esquema, assim como alavancam os lucros dos donos das empreiteiras. Somente para que se tenha um parâmetro, da lista da revista Forbes, com os cinquenta bilionários brasileiros, figuram representantes da Obedretch (2) e Camargo Correia (3) que juntos possuem fortuna de R$ 24 bilhões. Portanto, parece um escárnio e uma obra de cinismo o argumento de Dilma em janeiro que as grandes empreiteiras envolvidas na operação Lava Jato devam ser preservadas. Como assim? Os acionistas majoritários não lucraram durante anos com o esquema? Por que não deveriam responder com o seu patrimônio pessoal, afinal não são bilionários? Dilma acredita que isso possa afetar a economia brasileira na eventual quebra de algumas empreiteiras. Ora, então que quebrem e que se dê lugar às empresas que sejam idôneas.

O cinismo do governo do PT é que alimenta o povo para ir às ruas protestar. Assim, ao invés de admitir que o povo está cansado de desculpas e mentiras, o governo petista segue acoitando a impunidade e insiste em dizer que os insatisfeitos são membros de uma elite branca e que toda a grande imprensa é golpista. Em sua mensagem pela passagem do dia internacional da mulher, Dilma aproveitou para falar da situação econômica do país, pedindo “paciência e compreensão” porque a situação seria passageira. Concomitantemente, em várias cidades do país a população bateu panelas e distribuiu sonoras vaias que ecoaram das sacadas de aglomerados residenciais. O PT ironizou e disse que “madames bateram panelas do alto de suas varandas gourmet”, ao invés de perceber que este sentimento de intolerância com o PT é justamente fomentado por esse jogo de dizer que o Brasil vive uma luta entre classes e que eles são os mocinhos. O governo Dilma, em sua esquizofrenia ideológica, parece viver em um país muito diferente daqueles que, ao ritmo de apupos descompassados, sibilaram o metal. A facção do PT que governa o país insiste em não aceitar a verdade, ou a enxerga sob uma ótica particular que irrita o cidadão minimamente esclarecido. A diferença entre aquilo que Dilma diz e o que é a realidade dos fatos é tão gritante que a negação da verdade serve como combustível para os mais variados tipos de manifestações contrárias ao governo, inclusive as manifestações ocorridas em várias cidades no dia 15 de março.

A crise econômica que assola o Brasil é fruto de má gestão e não tem relação com uma “grande crise internacional” em curso. Muito pelo contrário, a crise iniciada em 2008 está contornada, pois há a expectativa que a Europa retome seu crescimento e que os EUA mantenha crescimento acima de 3% em 2015. Após tomar medidas econômicas que evitaram a recessão em 2014, os países da Zona do Euro apontam um crescimento 1,1% em 2015, enquanto que os EUA já demonstraram recuperação (crescimento nos segundo e terceiro trimestres de 2014 de 4,6% e 3,5%, respectivamente). A diferença de perspectiva de crescimento econômico entre EUA, Europa e Brasil reside que os dois primeiros se favorecem pela queda do preço das commodities no mundo (petróleo, minérios, grãos, carnes etc.) enquanto que o Brasil se prejudica com isto, por ser grande exportador dessas commodities. Assim, todas as medidas que estão sendo tomadas pelo ministro da economia Levy, embora bastante impopulares, são necessárias para o equilíbrio das contas públicas. O problema é que justamente quem afirmou que não as tomaria, está agindo ao contrário do que havia dito. Qualquer novo governo que assumisse a partir de 2015, se tomasse medidas tão impopulares, teria mais condescendência da população, pois haveria a expectativa do “choque”. Um exemplo: quando Collor confiscou a poupança no início de seu governo, apesar de bastante impopular, o brasileiro mesmo revoltado não saiu às ruas. A maturação dos problemas econômicos e as evidências de corrupção em dois anos fez com que a população fosse às ruas e pedisse a saída de Collor, o defenestrando da presidência. Dilma não poderia se valer da paciência e complacência do brasileiro, pois, repito, criou um discurso de campanha que era contrário ao “pacotaço” que entregou tão logo garantiu vitória nas urnas. Portanto, são justas as vozes que a acusam de ter mentido para seus eleitores e tentar reafirmá-las, como se ainda estivesse em campanha, soa como cinismo.

Verdadeiro ou não, o cinismo de Maria Antonieta a fez perder literalmente a cabeça na revolução francesa. Assim, com a recessão batendo à porta do brasileiro, o que Dilma poderia dizer a um pai de família profissionalmente qualificado que tenha perdido o seu emprego? Diria: “Se não tem emprego, que faça um PRONATEC”. Na campanha assim foi, um discurso alheio às demandas do cidadão que não está sob a égide das mesadas do governo. Os que foram as ruas, muito além da reivindicação justa contra a corrupção e impunidade dos corruptos e corruptores, desejam um Brasil para todos os brasileiros, sejam eles “coxinhas”, “empadinhas” ou quaisquer outros adjetivos que os partidários de Dilma insistem usar para desqualificar aqueles que clamam mudanças nas ruas. O povo já não aguenta mais tanto cinismo.

João Lago.
Administrador, professor e morador do Conjunto Santos Dumont

segunda-feira, 9 de março de 2015

Porque não gosto de livros de autoajuda.



Há sete anos escrevi sobre o tema, mas não o tinha publicado no Blog, mesmo porque naquela época ele não existia.



Manaus, 18 de fevereiro de 2008.

Aqueles que me conhecem há um pouco mais de tempo sabem que a literatura de autoajuda tem o mesmo efeito para mim que jornal como cobertura em uma forte chuva. Incluo neste rol os livros de pretensão heurística, assim como os de fundo esotérico, ou aqueles romanceados por místicos, gurus e, principalmente, magos, ou ex-magos de toda a sorte. Embora cético em relação aos efeitos da autoajuda sobre mim, reconheço a importância dessa literatura na vida de milhares de pessoas que buscam auxílio em seus problemas: espiritual, social e profissional.
Não se trata de puro preconceito, mesmo porque já admiti a utilidade da literatura de autoajuda, porém acredito ser necessário interpor um pensamento crítico ao consumo sem limites de uma infinidade de títulos, alguns de um mesmo autor, que ensina como ser feliz no casamento, na educação dos filhos e até como ter sucesso profissional.
O motivo que me levou a escrever sobre este tema tão contraditório, que provavelmente causará revolta em alguns (aceito sinceramente suas críticas) foi o início da leitura do livro: A arte de escrever, do filósofo Schopenhauer, que traz, dentre outras, uma reflexão sobre o empobrecimento da produção literária ocorrida na primeira metade do século XIX pelos novos autores, decorrente do abandono da leitura da literatura clássica a partir dos originais em grego e latim. Assim, critica o consumo somente dessa literatura nova, produzida por eruditos que ao seu turno não conseguem amealhar toda a riqueza do conhecimento produzido, tanto que Schopenhauer os descreve como reticentes a deixar que os seus conhecimentos sejam examinados, do mesmo modo que comerciantes em relação aos seus registros de vendas.
O que podemos extrair da literatura universal, cheia de personagens e dramas os mais variados possíveis que captam a atenção do leitor por encontrar-se a si mesmo naquelas linhas, ou, ainda, encontrar rastros de pessoas de seu convívio social em personagens com neuroses e psicoses tão semelhantes, servem como laboratório que para mim foram como o divã do analista. É como ter a impressão de um dia se sentir na pele de Charles Bovary em um primeiro dia de aula, cuja conclusão que tiro é que não existe crueldade maior que de uma criança para com outra e é nosso dever zelar pelos nossos filhos. Quantas Capitus já encontrei, com suas dissimulações e comportamentos contraditórios que me ensinaram a respeitar, temer e evitar essas mulheres. Quanta crueldade e falsidade nos atos de Iago, que tudo faz para conseguir seus objetivos, tal como aquele, ou aquela colega de trabalho que age nos bastidores para derrubar-te.
Enfim, poderia enumerar outros tantos personagens de Flaubert, Machado de Assis, Shakespeare, bem como outros tão importantes produzidos por Camus, no sentido da passividade absoluta de Meursault em O Estrangeiro, e o fatalismo coletivo existencialista em A Peste. Como é importante conhecer o realismo fantástico de Garcia Marques em Cem Anos de Solidão, ao mesmo tempo em que trata da violência real em Notícias de Um Seqüestro. E são tantos importantes para mim que devem ser lidos: José de Alencar, Drummond, Prevért, Luiz Borges, Fernando Pessoa, Sartre, Maquiavel, Platão, Kant, Homero. Não vou enumerá-los todos para não ser enfadonho, mesmo porque desejo concluir o porquê que não me sirvo da literatura de autoajuda.
Fica claro que se me posso acompanhar de grandes autores em sua plenitude, porque haveria eu de contentar-me com fragmentos mal cortados deles todos? É como um dejá-vu. Por que ao invés de fartar-me da culinária brasileira (incluindo a amazonense) e internacional, haveria de contentar-me em um McDonald, Bob´s ou Habyb´s? A resposta é fácil: Autoajuda é o fast-food da literatura, no qual o leitor encontra tudo mastigado, onde pouco há reflexão e não se tem o prazer da descoberta, ou seja, a autoajuda é uma leitura preguiçosa. Quantos àqueles que a escrevem, são pessoas inteligentes e muitos deles bons oradores, mas que não chegam aos pés dos eruditos do tempo de Schopenhauer.
Entretanto, não só a leitura sistemática é capaz de libertar o indivíduo, pois é preciso sempre exercitar a capacidade de refletir e inventar, ou reinventar sobre determinado assunto, assim como estou fazendo neste momento em que escrevo. Não basta somente o acúmulo de pensamentos alheios, por mais cheios de erudição que os sejam, é necessário que sejam renovados, interpretados pela ótica particular, como relacionar minha aversão pela literatura autoajuda ao pensamento revolucionário de Schopenhauer.

João Lago
Professor, administrador e morador do Conjunto Santos Dumont.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Desigualdade e Crescimento Econômico.

O economista francês Thomas Piketty, ao meu ver, tem potencial para ser agraciado com o Nobel de economia, por sua obra O Capital no Século XXI. Muitas das conclusões de Piketty, sem falsa modéstia, já haviam transitado em minha cabeça insana, mas pela falta de subsídios teóricos e ausência de pesquisa, jamais saíram do meu “achismo”. Assim, o mérito de Piketty é apontar, com uma racionalidade factual, que hoje o mundo vive um período de aumento das desigualdades econômicas e da concentração de 90% da renda mundial nas mãos de apenas 10% de indivíduos.

Não vou tecer uma crônica sobre a obra de Picketty, pois muitas já foram feitas e por gente com muito mais gabarito para falar sobre economia, mas brevemente pretendo abordar as ideias de Piketty dentro da realidade socioeconômica japonesa, da política tributária estadunidense e da cena brasileira, a partir do momento atual em que vivemos, de baixo crescimento econômico, alta de inflação, juros altos, estagnação e de desinvestimento na educação e as consequências disto tudo para o aumento da desigualdade vis-à-vis o empobrecimento da classe média brasileira e a concentração da renda entre os mais ricos. Falando em português claro, quem tem muito dinheiro, ficará cada vez mais rico e aqueles que dependem exclusivamente da força de seu trabalho, cada dia mais empobrecidos.

Absolutamente não pretendo entrar no academicismo econômico, mas é preciso que se diga que o baixo crescimento econômico sistemático nas nações desenvolvidas não é tão deletério para a população como o são para as nações não desenvolvidas e para explicar isto vamos ao extremo. O PIB - Produto Interno Bruto Japonês entre 1995 e 2010 não cresceu acima de US$ 5,5 trilhões de dólares, aliás, teve queda substancial ao ponto de 2002 bater US$ 3,98 trilhões dólares. Nesse mesmo período a inflação japonesa esteve sempre próxima à zero (com períodos de deflação) e nos poucos períodos de alta inflacionária não ultrapassou 2% ao ano. Outro ponto importante, na construção deste cenário japonês, é o comportamento da taxa de juros no país que esteve também próxima à zero, embora a dívida pública japonesa tenha crescido muito em igual período, tendo chegado em 2012 a registrar US$12,3 trilhões de dólares, representando mais de 200% sobre o PIB. No entanto, apesar do aumento da dívida pública japonesa, o saldo da balança comercial do Japão sempre foi positivo, que significa que sempre exportou mais produtos que importou do resto do mundo. Embora o tsumani que atingiu o Japão em 2011 tenha prejudicado o resultado da balança comercial, e desde então aumentado ainda mais a dívida pública desse país, em 2012 havia reservas monetárias na ordem de U$ 6,3 trilhões de dólares. Isto significa, metaforicamente, que se o Japão decidisse sair de férias por um ano, poderia manter sua economia somente com as reservas acumuladas durante anos de poupança interna. Outro ponto importante, para compor os dados socioeconômicos japonês, é o baixo índice de natalidade e o fato que o Japão é um país que para construir-se uma ponte, tem-se que demolir uma antes que já está naquele lugar. Ou seja, pouco se há de fazer em um país que já possui estradas, portos, escolas da melhor qualidade, diferentemente de um Brasil em que muita coisa precisa ser construída.

Em um estudo realizado por Correia (2007), que analisou o saldo em transações correntes japonês durante trinta e cinco anos, ao final apresenta como sugestão para pesquisas futuras a seguinte problemática: “Caso um país tenha incentivos a manter sistematicamente superávits externos, esse país seria literalmente ‘o dono do mundo’. Será que a dinâmica de acumulação desses ativos resultaria nesses resultados de acumulação infinita de estoque de capital do resto do mundo?”

A obra de Piketty esclarece a dúvida de Correia, pois alerta que quando a taxa de remuneração do capital é maior que a taxa de crescimento econômico, há a tendência da renda concentrar-se-á ainda mais nas mãos daqueles mais ricos independentemente da nacionalidade desses indivíduos. Para exemplificar isto, analisemos o caso do homem considerado o mais rico do Brasil, o empresário Jorge Paulo Lemann, que possui controle acionário da Inbev, Lojas Americanas, Burger King, Heinz e especula-se que esteja prestes a comprar a Pepsi. Nota-se que a maioria dessas empresas atuam no mercado mundial e Lemann, apesar de carioca, tem cidadania suíça (por ser filho de imigrantes suíços) e possui residência fixa em Zurique, sendo um exemplo que os donos de fortunas acumulam riquezas em vários cantos do mundo e não necessariamente a repatriam para o seu local de nascimento. Aliás, os malfeitores envolvidos na operação lava-jato demonstraram que suas fortunas não estavam no Brasil, mas seguras em bancos na Suíça e em outros paraísos fiscais. Ou seja, os superávits externos via saldo em transações correntes (ex.: pagamento de juros e remessas de lucros ao exterior, entre outros itens) favorecem os países que convergem uma maior quantidade de indivíduos donos de capital investidos em outros países. Não por acaso, o capital especulativo que é atraído pelo pagamento de juros elevados de países como o Brasil, em momentos de crise são rapidamente repatriados aos bancos centrais de origem. Não somente isto, o Brasil carece de multinacionais brasileiras que possam garantir remessa de lucros de ganhos em outros países, como ocorre com as nações desenvolvidas. Os superávits sistemáticos em transações correntes do Japão servem como mantenedores de um padrão econômico social elevado, apesar do baixo crescimento econômico e do aumento da dívida pública japonesa.

No discurso do Estado da União proferido em 20 de janeiro último, que tradicionalmente o presidente estadunidense faz relatando fatos de seu governo e quais as prioridades que necessitam do congresso dos EUA, Barack Obama abordou a necessidade de aumentar os impostos para os mais ricos dizendo: “como americanos, nós não nos importamos em pagar nossa parte justa de impostos desde que todos façam a mesma coisa. Mas por muito tempo os lobistas tem manipulado o código tributário encontrando brechas para que empresas paguem nada, enquanto outras pagam tudo. Os super-ricos são presenteados daquilo que não precisam, negando-se o mesmo para as famílias de classe média”. E sobre a tributação de impostos para a classe média Barack Obama ainda diz: “a economia que classe média deseja significa ajudar as famílias trabalhadoras a sentirem-se mais seguras em um mundo de mudanças constante. Isto significa ajudar pessoas a pagarem creche, faculdade, serviços de saúde, moradia, reformas e o orçamento (dos EUA) irá contemplar a redução dos impostos das famílias trabalhadoras, devolvendo milhares de dólares para os seus bolsos a cada ano”. A mensagem do presidente estadunidense é clara: dar garantia para que os trabalhadores possam pagar pelos serviços que necessitam, via transferência de renda pela desoneração dos impostos. Assim, com menos impostos para a classe média e com o aumento da tributação para os mais ricos, Obama pretende alavancar a arrecadação em US$ 320 bilhões de dólares nos próximos dez anos.

Thomas Piketty alertou que um mundo que cresce pouco os ricos tendem a concentrar toda a renda e o pensamento do governo dos EUA, sobre a desoneração dos impostos para a classe média e o aumento dos impostos para os mais ricos, converge para resolver este problema. Países desenvolvidos como o Japão, com elevada poupança interna e de sucessivos superávits primários na economia, podem ser dar ao luxo de não crescer o PIB e nem por isso gerar convulsão social interna. Países com o Brasil, China e demais membros do BRICS, não consegue distribuir renda (e manter benefícios sociais) sem crescimento econômico. No entanto, o Brasil iniciou 2015 sinalizando o oposto que a racionalidade econômica mais avançada está demonstrando, pois quem está sendo mais penalizado com as medidas do governo é a classe média trabalhadora. Porém, para piorar ainda mais nossa situação, se nossa economia estivesse à pleno emprego, a crise hídrica que afeta diretamente a geração de energia elétrica seria um entrave para o crescimento industrial brasileiro.

O ano de 2015 não será bom para o Brasil e a recessão infelizmente será um mal necessário. A nação poderia dar-se as mãos e buscar alternativas para aliviar o peso desse fardo para a população que trabalha. Porém, antes de nomearmos o que é prioritário para o Brasil, duas medidas deveriam ser tomadas de imediato: 1º. O combate sistemático à corrupção e; 2º. Combater a impunidade institucionalizada nos tribunais. Infelizmente, o Congresso Nacional e o Governo Federal não dão demonstrações que desejam isso, mesmo com todo o esforço que parte do judiciário faz para colocar marginais de colarinho branco na cadeia, ainda que a outra parcela os mande soltar.

A esperança continua, mesmo porque o ano ainda não começou. Esperamos que passe os festejos de Momo para que possamos retornar a nossa dura realidade.

João Lago.
Administrador, professor e morador do Conjunto Santos Dumont.

Referências/Notas:

BRICS – Acrônimo que designa Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul
CORREIA, Leonardo Batista. Estudo sobre o salda das transações correntes baseado no modelo de suavização do consumo – uma aplicação para a economia japonesa no período de 1970 – 2005. Dissertação de mestrado. USP de Ribeirão Preto, 2007.
Ministério das Relações Exteriores - MRE. Japão Comércio Exterior, Dezembro 2014.
PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

E o tempo passa...

Esta carta eu escrevi faz oito anos enquanto dividia-me geograficamente entre Brasília e Belo Horizonte. Hoje a relendo tenho a certeza que a escreveria novamente, mas agora muito mais feliz, pois fiquei ainda mais rico de muitas amizades.


Brasília, 29 de janeiro de 2007

Caro(a) Amigo(a).

Nesse último sábado completei quarenta anos e talvez porque eu esteja emocionalmente fragilizado neste momento pela distância que me separa de todos aqueles que amo e quero muito, deparei-me fazendo um balanço dos últimos trinta e seis anos de consciência plena de minha existência, de minhas lembranças de menino, de adolescente e de homem.

Esse balanço, que nada mais é do que reflexões sobre meus relacionamentos e minhas realizações, chegou a constatação lógica que as lembranças de minha história que temos em comum não foi marcada pelo tempo de nossa convivência, mas pela intensidade dessa relação pessoal e como particularmente ficou marcada em minha recordações. Simplificando, se escrevesse um livro de minhas memórias provavelmente não haveria uma correlação entre o tempo de convivência e laudas escritas. A percepção óbvia é que são as intensidades das relações humanas que marcam a nossa memória e não a sua quantidade. Dessa forma, a quantidade exata de páginas que escreveria particularmente sobre ti, seria na proporção do impacto que o fato de ter-te conhecido modificou o homem que sou hoje.

Não falarei muito das conclusões que tive acerca de meus relacionamentos, haja vista que sou feliz com todos os que tenho, pois são muitas histórias para contar e que não vivi esses quarenta anos em uma cidadezinha qualquer e de forma tão besta  (lembrando Drummond). Entretanto, falarei um pouco mais de minhas realizações, cuja conclusão é que foram pífias, mas do ponto de vista estritamente material, que isso seja bem esclarecido.

Não acumulei patrimônios que poderiam fazer-me respeitado por aquilo que possuo. Posso exemplificar isso a partir de um comentário que um amigo me fez no início da semana passada, quando ao passarmos por um sedan lustroso e equipado, parafraseou: “esse é o carro que separa os homens dos meninos”. A dita frase poderia ser estendida para uma casa, uma gorda conta bancária ou qualquer outro bem físico que pudesse representar a posse de um excelente patrimônio.

Não fui uma criança materialmente rica e hoje aos quarenta anos não sou um homem rico. Fui de certa forma incompetente em transformar minha capacidade intelectual em cifras, gordas cifras, revelando em mim certa frustração momentânea. Assim, se fiquei profundamente satisfeito com a primeira parte de meu balanço pessoal (meus relacionamentos), fiquei decepcionado com o segundo (minhas posses). Entretanto, antes que pudesse lamentar-me mais, percebi que se eu gastasse todas as minhas energias para acumular dinheiro seria percebido como homem por itens meramente materiais, e não pela impressão de quem realmente sou. É como se for homem fosse possuir um carro bonito e que isto abrisse as portas para conhecer o amor de uma mulher. Nesse ponto digo que durante toda a minha vida dediquei-me a amar como um menino e não me arrependo um dia sequer disto.

Talvez se tivesse muito dinheiro e, mesmo assim, uma vida besta, enveredaria para a filantropia como forma de redenção, pois esse é o caminho verdadeiramente positivo que qualquer um pode chegar, ficando em paz com a sua consciência, ao invés de somente reclamar que os impostos que se paga não retorna revertido na melhoria da sociedade e ponto. Felizmente a filantropia não se resume somente em fazer doações, já que existe a carência de voluntários nos mais variados projetos sociais, ou seja, o importante é continuar indignando-se e agindo. Assim, de uma forma ou de outra, indignar-se continuará sendo a centelha básica de toda a ação social.

Termino esta mensagem dizendo que me sinto muito feliz e em paz comigo mesmo, na consciência de um homem, na simplicidade de um menino que busca nas pessoas a inspiração necessária para o exercício do amor e da compreensão humana. Portanto, neste momento, tenho um capítulo especial gravado em minha história graças a ti.

Quero muito agradecer-te por ser meu(minha) amigo(a).


João Lago

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Je ne suis pas Charlie (eu não sou Charlie).

Gostaria de iniciar esta resenha com a seguinte reflexão: Em uma escola qualquer, certo jovenzinho arranca risos colocando apelidos (pintor de rodapé, rolha de poço, vesgo etc.) em certos colegas e ridiculariza comportamentos que não sejam compatíveis com aqueles que norteiam sua conveniência. Nas portas do banheiro da escola, solitário difama professores e funcionários por meio de sua arte irreverente que também faz rir somente aqueles que não são os alvos de seus ataques. Se esse jovenzinho for descoberto e encaminhado para o serviço psicopedagógico da escola, muito provavelmente o psicólogo poderia classificar a atitude do moleque como um exacerbado desejo de chamar atenção e convocaria os pais para discutir o comportamento do menino. Por outro lado, partindo de um ponto de vista puramente pedagógico, um educador frente a um quadro deste que atitude tomaria? Trataria o caso como falta de educação e transgressão de princípios éticos e de moral e puniria, ou o apoiaria por acreditar que o aluno, mesmo precocemente, apenas expressa sua liberdade de expressão? Qual o limite que define a liberdade e o abuso deste direito?

O mundo ocidental mostra-se novamente boquiaberto com o terrorismo islâmico em solo democrático, no qual a liberdade de expressão e a imprensa livre são conquistas da sociedade, normalmente expressa na carta magna da nação. A França, no preâmbulo de sua constituição federal de 1958, estabelece o direito à liberdade de expressão ao reconhecer a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, época da revolução francesa, que no seu artigo 11 diz: “A livre expressão de pensamentos e das opiniões é um dos direitos mais preciosos de um homem: todo o cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, salvaguardo a responder dos abusos desta liberdade nos casos previstos em lei” (em minha livre tradução).

Cumpre dizer que a Declaração dos Direitos do Homem, peça do iluminismo francês, inspirou diversas constituições de países no direito a liberdade de expressão, inclusive a brasileira, mas leis ordinárias e complementares (ou infraconstitucionais) acabam por disciplinar o abuso que possam derivar no exercício deste direito. Por exemplo, a injúria, a calúnia e difamação no Brasil estão tipificadas no código penal (artigos 139 a 140) e tem como princípio salvaguardar a honra das pessoas. E o respeito à honra é muito anterior ao iluminismo francês, tanto que o dramaturgo William Shakespeare no Século XVI escreveu a seguinte pérola: “quem da minha bolsa rouba tira ninharia, mas quem do nome honrado espolia-me, priva-me de algo que não o enriquece, mas que me deixa paupérrimo”. Otelo, o mouro de Veneza, enganado por Iago lava sua honra com sangue ao matar sua mulher Desdêmona. Destarte, até 1984 o código penal brasileiro dava motivos para absolver Otelo com a tese da “legítima defensa da honra” que tinha guarida em seu artigo 27, pois no caso de indivíduos “se acharem em estado de completa privação de sentidos e de inteligência no ato de cometer o crime” poderiam ser inocentados. As modificações havidas no código penal atualmente não exclui a imputabilidade penal motivada pela emoção e paixão (artigo 28).

Em 2009, por decisão do Supremo Tribunal Federal – STF, no Brasil foi proscrita a chamada Lei de Imprensa que sobreviveu ao fim da ditadura militar e era bastante utilizada até então para processar e punir empresas de comunicação e jornalistas. Assim, na falta de uma legislação específica, os juízes para decidir sobre ações criminais e de indenização contra jornalistas tem somente a Constituição Federal e os códigos Penal e Civil. No entanto, tanto a liberdade de expressão, quanto a imprensa livre, em muito incomoda governos déspotas e corruptos, pois são esses os mecanismos democráticos de reação de uma sociedade livre. Quando a imprensa e a opinião de cidadão ordinário incomodam, vê-se emergir tentativas açodadas de cerceamento de liberdade por meio de regulamentação da imprensa e, mais modernamente, das mídias sociais na internet. O ministro das Comunicações Ricardo Berzoini, nomeado por Dilma para iniciar seu segundo mandato, é reconhecidamente identificado como defensor da censura aos meios de comunicação, logicamente quando são escancaradas as críticas e as denúncias aos membros de seu partido, o PT, e aliados, mas não vamos perder tempo com este assunto (por enquanto).

Periódicos como New York Times (EUA), Le Figaro (França), La Repubblica (Itália), El País (Espanha) não publicam charges na primeira página, mas existem jornais que usam o recurso para chamar atenção, como o francês Le Monde e o brasileiro O Globo dentre outros. No caso do Charlie Hebdo a charge é a própria primeira página, que exposta nas bancas para que qualquer transeunte a veja está a cumprir o papel de chocar e criar polêmica. Seria como o jovenzinho rebelde citado logo no início que age assim para chamar atenção para si. Assim, sua crítica ácida é construída para ofender crenças e valores preciosos para muitos e não permite que o não leitor, que caminha na rua, tenha opção de ignorar a sua existência. Agora, com esse bárbaro atentado, todo o escárnio do Charlie Hebdo pelas crenças e valores foi exposto em âmbito global e o seu bullying moral elevado à categoria máxima de “liberdade de expressão”. No entanto, eu tenho a mais profunda convicção que os cartunistas mortos do Charlie Hebdo deveriam continuar como estavam, ou seja, vivos e cumprindo o seu papel de ofender para criar polêmica e vender jornal, mas fundamentalistas estúpidos resolveram lavar sua irracionalidade com sangue, cumprindo o seu papel de gerar mais ódio e mais intolerância.

A revolução francesa trouxe para o mundo o lema “liberdade, igualdade e fraternidade”. Em um mundo racional e de direitos igualitários não se admite que a paixão seja motivo para matar. Em nações democráticas é necessário permitir que qualquer um tenha liberdade de expressar sua opinião. Em uma sociedade que busca a paz é necessária a tolerância e o respeito, que são duas condições essenciais para que se viva a fraternidade.

Je ne suis pas Charlie, mais je regrette toute le forme de violence. Ce qui manque dans le monde c'est la fraternité et surtout le respect et la tolérance entre les hommes.


João Lago.
Administrador, professor e morador do Conjunto Santos Dumont.