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terça-feira, 17 de março de 2015

O BRASIL FOI ÀS RUAS CONTRA O CINISMO.



Conta-se, mas não se sabe se é verdade, que a imperatriz Maria Antonieta da França ao ser informada que o povo não tinha pão para comer aconselhou que comessem brioches. No final do Século XVIII a França era ass
olada pela mais grave crise política e econômica, na qual era grande o contingente daqueles que passavam fome e enorme a aristocracia que vivia dos privilégios de estarem próximos ao poder.

No último domingo (15.3), 1,8 milhão de brasileiros foram às ruas para protestar contra a corrupção e pedir a saída de Dilma Rousseff. Ainda que famélicos não caminhem em bandos pelas ruas das grandes metrópoles, em janeiro passado foi noticiado, pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), uma reviravolta nos indicadores de combate à pobreza no Brasil, nos quais 1 milhão tornaram-se miseráveis em apenas um ano. Os programas de combate à miséria, tão festejados na propaganda eleitoral de Dilma Rousseff, começavam a patinar e a retroceder. Não somente isto, nos lares mais modestos, a dona-de-casa sente a carestia de vida na ida ao supermercado, na conta de luz, nos serviços de transporte público e faz a necessária associação com os escândalos de corrupção na Petrobras, afinal durante os governos Lula e Dilma, foi apregoado um período de grande prosperidade, pois toda a propaganda de marketing do governo estava associada à descoberta de grandes jazidas de petróleo, que colocaria o Brasil como grande exportador dessa fonte de energia para o resto do mundo. Tudo parecia ir relativamente bem, pois o preço das commodities no mundo favorecia as exportações brasileiras e o governo resolveu que poderia gastar “por conta” sem se preocupar com o dia de amanhã. Anunciou um grande plano de investimentos (Programa de Aceleração do Crescimento - PAC), promoveu uma Copa do Mundo e realizará a Olimpíada ano que vem, transformando o Brasil em um enorme playground para as grandes empreiteiras. Aqui justamente se encontra o grande xis da questão: até que ponto as obras agendadas pelo PAC estavam em sintonia verdadeiramente com o crescimento do país? Quantas obras necessárias de infraestrutura foram deixadas para trás, ou tiveram sua entrega comprometida pelo aumento dos custos de execução? A lista pode parecer interminável, mas podemos citar algumas: a) transposição do Rio São Francisco; b) o projeto de esgotamento sanitário da bacia do Cocó, em Fortaleza; c) a ferrovia de integração Oeste-Leste, na Bahia; d) as linhas de transmissão que liga a hidrelétrica do Rio Madeira ao sistema interligado nacional. Qualquer pedreiro, com bom conhecimento prático, sabe que quanto mais se atrasa uma obra, maior o seu custo. Segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em maio do ano passado, somente o atraso na transposição do Velho Chico resultava em um prejuízo de R$ 16,7 bilhões.

A operação Lava Jato confirmou a suspeita antiga que as empreiteiras no Brasil formam cartel com a conivência de políticos para inflar preços e financiar campanhas partidárias milionárias. Logicamente não gastam tudo, e as sobras servem para enriquecer os responsáveis diretos pelo esquema, assim como alavancam os lucros dos donos das empreiteiras. Somente para que se tenha um parâmetro, da lista da revista Forbes, com os cinquenta bilionários brasileiros, figuram representantes da Obedretch (2) e Camargo Correia (3) que juntos possuem fortuna de R$ 24 bilhões. Portanto, parece um escárnio e uma obra de cinismo o argumento de Dilma em janeiro que as grandes empreiteiras envolvidas na operação Lava Jato devam ser preservadas. Como assim? Os acionistas majoritários não lucraram durante anos com o esquema? Por que não deveriam responder com o seu patrimônio pessoal, afinal não são bilionários? Dilma acredita que isso possa afetar a economia brasileira na eventual quebra de algumas empreiteiras. Ora, então que quebrem e que se dê lugar às empresas que sejam idôneas.

O cinismo do governo do PT é que alimenta o povo para ir às ruas protestar. Assim, ao invés de admitir que o povo está cansado de desculpas e mentiras, o governo petista segue acoitando a impunidade e insiste em dizer que os insatisfeitos são membros de uma elite branca e que toda a grande imprensa é golpista. Em sua mensagem pela passagem do dia internacional da mulher, Dilma aproveitou para falar da situação econômica do país, pedindo “paciência e compreensão” porque a situação seria passageira. Concomitantemente, em várias cidades do país a população bateu panelas e distribuiu sonoras vaias que ecoaram das sacadas de aglomerados residenciais. O PT ironizou e disse que “madames bateram panelas do alto de suas varandas gourmet”, ao invés de perceber que este sentimento de intolerância com o PT é justamente fomentado por esse jogo de dizer que o Brasil vive uma luta entre classes e que eles são os mocinhos. O governo Dilma, em sua esquizofrenia ideológica, parece viver em um país muito diferente daqueles que, ao ritmo de apupos descompassados, sibilaram o metal. A facção do PT que governa o país insiste em não aceitar a verdade, ou a enxerga sob uma ótica particular que irrita o cidadão minimamente esclarecido. A diferença entre aquilo que Dilma diz e o que é a realidade dos fatos é tão gritante que a negação da verdade serve como combustível para os mais variados tipos de manifestações contrárias ao governo, inclusive as manifestações ocorridas em várias cidades no dia 15 de março.

A crise econômica que assola o Brasil é fruto de má gestão e não tem relação com uma “grande crise internacional” em curso. Muito pelo contrário, a crise iniciada em 2008 está contornada, pois há a expectativa que a Europa retome seu crescimento e que os EUA mantenha crescimento acima de 3% em 2015. Após tomar medidas econômicas que evitaram a recessão em 2014, os países da Zona do Euro apontam um crescimento 1,1% em 2015, enquanto que os EUA já demonstraram recuperação (crescimento nos segundo e terceiro trimestres de 2014 de 4,6% e 3,5%, respectivamente). A diferença de perspectiva de crescimento econômico entre EUA, Europa e Brasil reside que os dois primeiros se favorecem pela queda do preço das commodities no mundo (petróleo, minérios, grãos, carnes etc.) enquanto que o Brasil se prejudica com isto, por ser grande exportador dessas commodities. Assim, todas as medidas que estão sendo tomadas pelo ministro da economia Levy, embora bastante impopulares, são necessárias para o equilíbrio das contas públicas. O problema é que justamente quem afirmou que não as tomaria, está agindo ao contrário do que havia dito. Qualquer novo governo que assumisse a partir de 2015, se tomasse medidas tão impopulares, teria mais condescendência da população, pois haveria a expectativa do “choque”. Um exemplo: quando Collor confiscou a poupança no início de seu governo, apesar de bastante impopular, o brasileiro mesmo revoltado não saiu às ruas. A maturação dos problemas econômicos e as evidências de corrupção em dois anos fez com que a população fosse às ruas e pedisse a saída de Collor, o defenestrando da presidência. Dilma não poderia se valer da paciência e complacência do brasileiro, pois, repito, criou um discurso de campanha que era contrário ao “pacotaço” que entregou tão logo garantiu vitória nas urnas. Portanto, são justas as vozes que a acusam de ter mentido para seus eleitores e tentar reafirmá-las, como se ainda estivesse em campanha, soa como cinismo.

Verdadeiro ou não, o cinismo de Maria Antonieta a fez perder literalmente a cabeça na revolução francesa. Assim, com a recessão batendo à porta do brasileiro, o que Dilma poderia dizer a um pai de família profissionalmente qualificado que tenha perdido o seu emprego? Diria: “Se não tem emprego, que faça um PRONATEC”. Na campanha assim foi, um discurso alheio às demandas do cidadão que não está sob a égide das mesadas do governo. Os que foram as ruas, muito além da reivindicação justa contra a corrupção e impunidade dos corruptos e corruptores, desejam um Brasil para todos os brasileiros, sejam eles “coxinhas”, “empadinhas” ou quaisquer outros adjetivos que os partidários de Dilma insistem usar para desqualificar aqueles que clamam mudanças nas ruas. O povo já não aguenta mais tanto cinismo.

João Lago.
Administrador, professor e morador do Conjunto Santos Dumont

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