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segunda-feira, 9 de março de 2015

Porque não gosto de livros de autoajuda.



Há sete anos escrevi sobre o tema, mas não o tinha publicado no Blog, mesmo porque naquela época ele não existia.



Manaus, 18 de fevereiro de 2008.

Aqueles que me conhecem há um pouco mais de tempo sabem que a literatura de autoajuda tem o mesmo efeito para mim que jornal como cobertura em uma forte chuva. Incluo neste rol os livros de pretensão heurística, assim como os de fundo esotérico, ou aqueles romanceados por místicos, gurus e, principalmente, magos, ou ex-magos de toda a sorte. Embora cético em relação aos efeitos da autoajuda sobre mim, reconheço a importância dessa literatura na vida de milhares de pessoas que buscam auxílio em seus problemas: espiritual, social e profissional.
Não se trata de puro preconceito, mesmo porque já admiti a utilidade da literatura de autoajuda, porém acredito ser necessário interpor um pensamento crítico ao consumo sem limites de uma infinidade de títulos, alguns de um mesmo autor, que ensina como ser feliz no casamento, na educação dos filhos e até como ter sucesso profissional.
O motivo que me levou a escrever sobre este tema tão contraditório, que provavelmente causará revolta em alguns (aceito sinceramente suas críticas) foi o início da leitura do livro: A arte de escrever, do filósofo Schopenhauer, que traz, dentre outras, uma reflexão sobre o empobrecimento da produção literária ocorrida na primeira metade do século XIX pelos novos autores, decorrente do abandono da leitura da literatura clássica a partir dos originais em grego e latim. Assim, critica o consumo somente dessa literatura nova, produzida por eruditos que ao seu turno não conseguem amealhar toda a riqueza do conhecimento produzido, tanto que Schopenhauer os descreve como reticentes a deixar que os seus conhecimentos sejam examinados, do mesmo modo que comerciantes em relação aos seus registros de vendas.
O que podemos extrair da literatura universal, cheia de personagens e dramas os mais variados possíveis que captam a atenção do leitor por encontrar-se a si mesmo naquelas linhas, ou, ainda, encontrar rastros de pessoas de seu convívio social em personagens com neuroses e psicoses tão semelhantes, servem como laboratório que para mim foram como o divã do analista. É como ter a impressão de um dia se sentir na pele de Charles Bovary em um primeiro dia de aula, cuja conclusão que tiro é que não existe crueldade maior que de uma criança para com outra e é nosso dever zelar pelos nossos filhos. Quantas Capitus já encontrei, com suas dissimulações e comportamentos contraditórios que me ensinaram a respeitar, temer e evitar essas mulheres. Quanta crueldade e falsidade nos atos de Iago, que tudo faz para conseguir seus objetivos, tal como aquele, ou aquela colega de trabalho que age nos bastidores para derrubar-te.
Enfim, poderia enumerar outros tantos personagens de Flaubert, Machado de Assis, Shakespeare, bem como outros tão importantes produzidos por Camus, no sentido da passividade absoluta de Meursault em O Estrangeiro, e o fatalismo coletivo existencialista em A Peste. Como é importante conhecer o realismo fantástico de Garcia Marques em Cem Anos de Solidão, ao mesmo tempo em que trata da violência real em Notícias de Um Seqüestro. E são tantos importantes para mim que devem ser lidos: José de Alencar, Drummond, Prevért, Luiz Borges, Fernando Pessoa, Sartre, Maquiavel, Platão, Kant, Homero. Não vou enumerá-los todos para não ser enfadonho, mesmo porque desejo concluir o porquê que não me sirvo da literatura de autoajuda.
Fica claro que se me posso acompanhar de grandes autores em sua plenitude, porque haveria eu de contentar-me com fragmentos mal cortados deles todos? É como um dejá-vu. Por que ao invés de fartar-me da culinária brasileira (incluindo a amazonense) e internacional, haveria de contentar-me em um McDonald, Bob´s ou Habyb´s? A resposta é fácil: Autoajuda é o fast-food da literatura, no qual o leitor encontra tudo mastigado, onde pouco há reflexão e não se tem o prazer da descoberta, ou seja, a autoajuda é uma leitura preguiçosa. Quantos àqueles que a escrevem, são pessoas inteligentes e muitos deles bons oradores, mas que não chegam aos pés dos eruditos do tempo de Schopenhauer.
Entretanto, não só a leitura sistemática é capaz de libertar o indivíduo, pois é preciso sempre exercitar a capacidade de refletir e inventar, ou reinventar sobre determinado assunto, assim como estou fazendo neste momento em que escrevo. Não basta somente o acúmulo de pensamentos alheios, por mais cheios de erudição que os sejam, é necessário que sejam renovados, interpretados pela ótica particular, como relacionar minha aversão pela literatura autoajuda ao pensamento revolucionário de Schopenhauer.

João Lago
Professor, administrador e morador do Conjunto Santos Dumont.

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