terça-feira, 13 de novembro de 2012

Conflitos e intolerância religiosa


A primeira página do sábado, assim como a edição eletrônica deste domingo do Jornal A Crítica de Manaus, ambas abordam problemas que seguidores de denominações religiosas tiveram, no que se refere ao respeito à liberdade individual de crença religiosa, quando esta conflita com o interesse de uma maioria.

O primeiro problema diz respeito a recusa de alunos evangélicos da rede pública em fazerem um trabalho sobre a cultura afro-brasileira sobre a “Preservação da Identidade Étnico-Cultural Brasileira”, por interpretarem que isto seria fazer apologia ao “satanismo e ao homossexualismo”, prática contraria as crenças deles. A outra desavença ficou por conta da prova de vestibular da Universidade do Estado do Amazonas – UEA que acontece no sábado e, portanto, choca-se com dogmas de igrejas que têm esse dia como sagrado, cuja orientação é abster-se de qualquer ato que possa ser considerado “trabalho” do anoitecer de sexta-feira até o pôr-do-sol do sábado. Fazer prova, ou assistir aula na faculdade sábado, ou sexta-feira à noite seria uma grande ofensa a Deus, segundo os dogmas dessas igrejas sabatistas. Por causa disto, para não se criar uma prova de vestibular exclusiva para essa minoria, a solução foi fazê-los entrar na sala de exame no mesmo horário dos outros candidatos e fazê-los esperar, sem qualquer contato com o mundo exterior, até o anoitecer do sábado para enfim entregar-lhes a prova.

Alguns dos vestibulandos sabatistas reclamaram que ficaram confinados por horas sem direito a beber água ou comer, sendo o motivo de algumas desistências. Na visão dessas pessoas, acreditaram que foram discriminadas, mesmo sendo de conhecimento prévio que assim seria o vestibular para eles, haja vista que a regra está prevista no edital e não se precaveram levando consigo alimentos ou água de beber.

No caso do alunos que se recusaram a fazer o trabalho de história, também não aceitaram ler, orientados por seus pastores, obras como O Guarany, Macunaíma, Casa Grande Senzala, sob alegação que os livros versam sobre a pederastia, ubanda e candoblé, causando reação imediata de grupos de defesa de direitos gays e da cultura afrodescendente.

Ambos os casos são exemplos de intolerância recíproca entre grupos, que não se respeitam e querem impor seus conceitos, ou fazer crer que o brasileiro deva ser patrulhado ideologicamente sob o pretexto de alcançar a paz social. Isto me faz lembrar sobre a polêmica da retirada de repartições públicas todos os crucifixos, com a justificativa de que o Estado é laico e, portanto, não deve exibir símbolos religiosos. Ora, apesar de laico, um Estado constrói sua identidade como nação por meio de uma cultura própria, que pode sofrer influências de outras culturas, como: europeia, africana e indígena, até que uma cultura hegemônica venha compor a maioria, como é o caso de uma cultura cristã europeia, que acabou transformando-se no modelo de sincretismo religioso brasileiro, que é um belo exemplo de convivência pacífica entre as matizes religiosas africanas e europeia. As obras literárias citadas acima, que agora estão proscritas pelo obscurantismo de alguns religiosos, abordam justamente a diversidade étnica e cultural do Brasil.

Os alunos do ensino médio perderam a oportunidade de aprofundar o conhecimento por meio da construção de uma visão crítica dos fatos, na qual não necessariamente devem concordar com tudo aquilo que é exposto, perdendo a oportunidade de expressar sua liberdade de expressão. Um professor consciente e isento de tentar impor ideologia não consideraria uma crítica como fuga do tema.
Quanto aos sabatistas, não é adequado transferir para os outros o ônus de sua opção religiosa, porque não seria coerente, mesmo porque não seguem todas as regras de comportamento e de higiene descritas no velho testamento. Se querem seguir a risca a lei de Moisés, sugiro que leiam Levítico 15 que é um verdadeiro compêndio do que pode e o que não pode. Em uma sociedade arcaica, sem a medicina moderna, seguir essas regras fazia sentido, porque era uma orientação de como preservar a saúde e sobreviver em um mundo sem antibióticos, vacinas etc.

Quando usamos nossa fé para realmente agradar a Deus no que Cristo deixou como orientação, considerando as críticas que fez aos doutores da lei que o acusavam de heresia, veremos que ao cristão simplesmente se pede que ame ao próximo como a si mesmo. Isto só basta para que não se mate e furte, que se honre pai e mãe, não se diga mentiras sobre quem quer que seja, não se explore o trabalho sem dias de descanso, que não se traia quem nos ama e, principalmente, que não use o nome de Deus em vão para justificar intolerâncias que contradizem o amor de Cristo.

João Lago
Administrador, professor e morador do Conjunto Santos Dumont