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terça-feira, 1 de abril de 2014

No meio da civilização, somos uns selvagens

Voltava para casa, encerrando meu expediente em sala de aula da sexta-feira (28/3), quando ouço pelo rádio a notícia do acidente com o micro-ônibus 825, que faz a linha bairro da Paz e Redenção. Nesse momento um frio percorre meu corpo, pois o coletivo serve o bairro onde moro e faço uma prece por meus amigos que costumeiramente sei que usam o transporte público. Não obstante, sempre que vejo um rosto amigo no ponto de ônibus, ofereço carona para compartilhar o meio de transporte mais egoísta que existe: o carro particular. Não somente isto, nessas ocasiões aproveito para colocar a conversa em dia, coisa que normalmente, pela vida agitada e tempo exíguo, deixamos de fazer como os nossos vizinhos e amigos. Como o trânsito flui lentamente, então é possível travar longas conversas até os nossos destinos.

O exato local do acidente, uma das principais vias de acesso à zona centro-oeste de Manaus, faz parte de meu itinerário, mas ao ouvir a notícia do acidente pelo rádio resolvo seguir pela via paralela, chamada Constantino Nery, principal corredor de ônibus da cidade de Manaus, na qual foi instalada uma faixa exclusiva para ônibus articulados (sistema BRS). Porém, mesmo desviando o caminho, ainda assim encontro um pesado congestionamento, incomum para aquele horário, ou seja, reflexo do trágico acidente.

Com o trânsito parado, vejo motoristas ocupando a faixa exclusiva dos ônibus, pois eles acreditam que em trânsito parado a única lei vigente é a do “vale-tudo” e que otário é aquele que permanece pacientemente no espaço que lhe é permitido. Esses beócios importam-se consigo mesmos e fingem desconhecer que a faixa exclusiva também é para ser utilizada pelos bombeiros, ambulância, forças policiais e de trânsito para rapidamente chegarem a quem precisa de ajuda. Esses mesmos pulhas são os que também fecham cruzamentos, pois se não podem passar, então ninguém passa. Esses mesmos néscios são os que estacionam em vagas de deficientes, idosos e gestantes com a maior desfaçatez.  Para todos esses, não existem campanhas de conscientização que resolva porque desacreditam na capacidade do estado em punir, por isso seus atos são justificados pela certeza da impunidade.

Com a faixa de ônibus ocupada no lado da avenida que segue em direção ao bairro, escuto sirenes e vejo passar pelo outro lado da rua, na contramão e pela faixa de ônibus contrária, veículos da polícia em alta velocidade, provavelmente indo prestar auxílio ao acidente. Continuo escutar pelo rádio ao vivo os acontecimentos no local, que dão conta de uma grávida sendo atendida no asfalto com parada cardiorrespiratória. Nesses casos, ter por perto alguém que possa prestar primeiros socorros de forma eficiente é crucial para haver sobrevida. Qualquer minuto perdido pode significar a morte. Ainda no trânsito, poucos momentos depois, o noticiário diz que mãe e filho faleceram e pergunto-me se a dificuldade de acesso pelas ambulâncias por esses motoristas não os fazem cúmplices desta tragédia. Pode ser duro pensar desta maneira, mas os corações dessas pessoas são feitos de pedra, mesmo que na vida cotidiana possam parecer pessoais normais, no trânsito se travestem de selvagens.

Não podemos ficar somente na retórica e devemos apontar o que acreditamos que possa contribuir para trazer paz no trânsito e menos vidas ceifadas no asfalto. Assim, seria bom refletirmos na eficácia das seguintes medidas:

- Maior monitoramento eletrônico nas principais vias, com câmeras inteligentes, remotamente controladas, para que condutores mal educados e irresponsáveis possam ser autuados em suas infrações. A prefeitura de São Paulo já faz isto!

- Maior investimento no conforto do transporte coletivo, não permitindo a superlotação dos veículos e cronograma de climatização de todos os ônibus, por meio de lei municipal como acontece hoje na cidade do Rio de Janeiro.

- Diminuição do poder do Sinetram (sindicato patronal das empresas de ônibus), no que se refere ao planejamento da frota, adotando rastreamento por GPS de todos os coletivos em uma central de inteligência controlada na Superintendência Municipal de Transportes Urbanos – SMTU. Não se trata de ficção científica, hoje a tecnologia de rastreamento e controle de frota é uma realidade que está sendo utilizada por grandes empresas de logística no Brasil.

- Campanhas educativas sistemáticas nas escolas, principalmente de ensino fundamental (envolvendo noções de cidadania), que conscientizem as crianças em tenra idade.

- Campanhas incentivando a gentileza no trânsito no rádio, na TV, nas escolas e universidades.

Nossas ruas e avenidas não são uma selva, na qual vale a lei do mais forte. Dar passagem absolutamente não é sinônimo de fraqueza, mas de educação e altruísmo. O motorista do transporte egoísta deve ser conscientizado (ou obrigado a aceitar por meio de pesadas multas), que a preferência no trânsito deve ser do transporte coletivo. Por outro lado, o transporte público não deve ser oferecido como alternativa de locomoção para cidadãos de terceira categoria, mas deve ser facultado como alternativa de alto padrão, na qual o usuário não se ressinta com o valor da passagem em relação ao serviço que é oferecido.

Com todas essas mortes acontecendo no trânsito, nós temos que definir o que poderá nos conferir o título de civilizados, ou nos conformarmos de sermos confundidos e chamados todos de selvagens, e com toda a razão.

Que Deus, em sua infinita misericórdia, possa confortar as famílias unidas nesta dor.

João Lago
Administrador, professor e morador do Conjunto Santos Dumont

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