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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A descoberta de nosso medo interior



Certa vez um colega de trabalho nos anos 90, que depois se transformou em um grande amigo, apareceu com uma tipoia no braço direito e tudo fazia com a mão esquerda. Perguntei-lhe o que havia acontecido ao que me respondeu: “nada, apenas resolvi que devo ensaiar fazer tudo com a mão esquerda, pois não sei se um dia isso poderá ser útil para alguma coisa”.

Relembrado essa excentricidade recordei minha adolescência e o grande amor que tinha pelo meu falecido avô, que pela ausência física de meu pai, devido à separação precoce de minha mãe, tornou-se a referência paterna que tenho para mim. Homem íntegro, honesto e grande admirador das letras, apesar de seu pouco estudo, sempre se valia de estar próximo a gente mais inteligente do que ele. João Pinheiro, meu avô, tinha um bordão repetido à exaustão: “quem não estuda, fica para puxar carroça”. Lembro-me que vendo os cabelos grisalhos de meu avô e a saúde abalada pelos anos de tabagismo, aos poucos ia construindo a ideia que não o teria para sempre e isso me trazia uma profunda angústia que não compartilhava com ninguém. Guardava esse sentimento para mim, e a cada demora sua em voltar para casa, pois todos os dias ele saía para cumprir compromissos não declarados, pensamentos ruins povoavam a minha mente, sendo que dia após dia sentia que o matava inconscientemente, antevendo a sua ausência inexorável. Quando finalmente chegou o dia tão temido de sua morte, não consegui chorar. Lembro que via tudo com extrema passividade, como se estivesse em uma letárgica e mórbida nostalgia de sentimentos já vividos. Para quem gosta de galicismos: um déjà vu. Porém, passados três dias, quando senti a solidão de sua ausência não consegui segurar as lágrimas e chorei copiosamente.

O aforismo grego “conhece a ti mesmo”, cuja inscrição encontrava-se na entrada do templo de Delfos, construído em honra a Apolo, o deus grego do sol, da beleza e da harmonia, tem ramificações no pensamento socrático e nos ensinamento da Arte da Guerra de Sun Tzu, general estrategista e filósofo chinês. Sun Tzu escreveu: “Conheces o teu inimigo e conheces a ti mesmo, pois se tiveres que travar cem combates, cem vezes saíra vitorioso. Se ignoras o teu inimigo e conheces a ti mesmo, tuas chances de ganhar ou perder serão idênticas, mas se ignoras ao mesmo tempo teu inimigo e a ti mesmo, só acumularás derrotas”. Quando Sócrates nasceu (469 a.C.) Sun Tzu tinha setenta e sete anos e embora contemporâneos, é pouco provável (por motivos óbvios) que tenha havido troca de informações entre os dois filósofos. Todavia, enquanto Sócrates via o mundo como um campo fértil de conhecimentos que não se esgotam para construção de indivíduo melhor, Sun Tzu voltava seus ensinamentos filosóficos para finalidades bélicas. Porém, ambos mantêm o princípio da necessidade da compreensão do universo a partir do autoconhecimento, compreendendo nossas forças e fraquezas para enfrentar o mundo.

Por mais que ensejamos nos preparar para qualquer tipo de infortúnio, uma coisa é vivenciá-lo na teoria, outra é viver a sua prática. Poderia ser a perda ou paralisia de um membro, o fim de um relacionamento, ou a morte de alguém amado, mas jamais estaremos suficientemente preparados para enfrentar a dor de um sofrimento. Contudo, quando internamente buscamos construir anticorpos para enfrentar um mal que poderá nos assolar, seja por meio da racionalização de nossas atitudes para passar pela dor, ou pela busca de compensações que nos deixe menos tristes, ao invés de um processo agudo de melancolia, certamente viveremos uma febre passageira.

Nosso maior inimigo somos nós mesmos, que impregnado de vícios e fraquezas muitas vezes somos incapazes de agir de forma profilática e caímos em armadilhas nas quais é impossível evitar a dor por acreditar que sejamos imunes a tais acontecimentos. Quando isto acontece é porque ignoramos que a maior batalha é aquela que travamos internamente, contra o nosso próprio eu que não consegue situar-se face às mudanças que ocorrem ao nosso redor. Uma espécie de cegueira, ou negação de nossos próprios temores.

Não existe uma fórmula mágica para se evitar o sofrimento, mas conhecer a si próprio, numerar e pontuar o que pode abalar sua estrutura emocional para a vida e para o trabalho é um caminho que pode ser seguido.

João Lago.

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