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terça-feira, 7 de junho de 2022

Os medidores e a cegueira estética urbana


Quem já leu sobre o mito da caverna de Platão compreendeu que nós julgamos o que nos cerca por meio de nossas percepções, ou seja, se desconhecemos o que há além das imagens refletidas pela luz do fogo, já que estamos amarrados com os olhos voltados para o fundo de uma caverna, nossa visão de mundo será formada por sombras.

Agora, em vez da caverna, imaginemos uma cidade a margem esquerda do Rio Negro, no meio da maior floresta tropical latifoliada do mundo e quase isolada do restante do país a qual pertence. Não somente isto, em mais um exercício mental, imaginemos no lugar de sombras, vários postes de concreto unidos por um emaranhado de fios bem diante dos olhos. Assim, aqueles indivíduos que habitam essa cidade, e que cresceram olhando para essas fiações horrendas, acreditam que as ruas ao redor do mundo também são ornadas por postes e fios.

Não é necessário sair do Brasil para conhecer alguns oásis que se livraram dessa boçalidade urbana que são postes de energia ladeando ruas e avenidas. A Zona Sul do Rio de Janeiro, a avenida Paulista em São Paulo, a avenida Afonso Pena em Belo Horizonte, o Plano Piloto de Brasília e outros tantos endereços, são exemplos de locais que a paisagem urbana não está poluída, nos quais podemos admirar a beleza arquitetônica das edificações e admirar as copas das árvores sem as amputações grosseiras que as mutilam para que sejam passados os fios.

Qualquer cidade que deseja voltar-se para o turismo tem o dever de erradicar de suas ruas, principalmente do centro histórico, essas chagas urbanas que enfeiam a paisagem. O destino desses fios deve ser o mesmo que Paris, Nova York, Roma, Veneza os deram, ou seja, enterrados sob os nossos pés. No entanto, em sentido completamente contrário, a concessionária Amazonas Energia resolve aviltar ainda mais os nossos olhos com o desejo de implantar em Manaus, pendurado nos postes defronte cada residência, uns caixotes grotescos, horrendos chamados de “medidores inteligentes”. Na rua Henrique da Silva, no bairro do Parque Dez, temos uma amostra da contribuição estética ignominiosa que a Amazonas Energia pretende para Manaus.

Nas ruas, que foram instalados esses medidores, há reclamações de moradores do aumento do consumo medido sem aparentemente qualquer relação com maior uso de energia elétrica, sendo a única causa provável o próprio medidor. Em entrevista a um jornal local, o líder comunitário Luiz Coderch do Núcleo 14 da Cidade Nova, denunciou que o aumento de consumo é resultado do novo medidor utilizar fio de alumínio em vez de fio de cobre, já que o primeiro aquece muito mais resultando uma conta maior a pagar no final. Na última segunda-feira (06 de junho), funcionários da Amazonas Energia foram expulsos do bairro do Alvorada pela população quando tentavam instalar esses novos medidores.

A polêmica e a desconfiança da população movimentou o parlamento amazonense e um projeto de Lei já tramita na Assembleia Legislativa visando proibir a instalação dessas aberrações, pois embora sejam esclarecidas e resolvidas as disparidades da medição de consumo, restará sobre nossas cabeças um trambolho que entristecerá ainda mais a paisagem urbana.

Infelizmente muitos manauaras não conhecem uma realidade urbana diferente de postes e fios, mas a Amazonas Energia, com esses novos medidores, talvez os obriguem a olhar para o alto e os façam perceber que nem tudo que possa parecer moderno vem para tornar nossa vivência nesta cidade mais harmoniosa e feliz.

João Lago

domingo, 3 de abril de 2022

Por que as imagens são cobertas durante a Quaresma?


Fiéis católicos acostumados desde criança a verem as imagens dos santos serem cobertas durante a quaresma talvez ainda não se tenham perguntado o significado litúrgico desse costume. Ao estudar a origem dessa prática vamos ao encontro da história de nossa fé que está alicerçada no ritual litúrgico celebrado nas igrejas. Assim, primeiramente vamos compreender que a Santa Missa rememora a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo e que as imagens que ornam as igrejas traz a lembrança daqueles que morreram pela fé no Salvador.

O católico cioso de sua fé compreende que a imagem de um santo é uma representação da pessoa venerada, ou seja, não adoramos a imagem de pedra, barro, gesso etc., mas vemos por meio dela a pessoa a quem ela representa e dedicamos uma veneração respeitosa a pessoa, não a imagem. Porém, se está difícil de compreender, imagine a fotografia de alguém muito querido (pai, mãe, filhos, avós etc.) e movido por saudade, ou admiração sejas tentado a beijá-la. Em verdade não estarás beijando o pedaço de papel, pois na sua mente a pessoa beijada é aquela que a imagem representa, sendo a fotografia apenas a materialização disso. Porém, se apesar dessa explicação ainda restem dúvidas do porquê da importância da veneração dos santos na igreja católica, convidamos a continuar a leitura.

Nos Evangelhos de Mateus, Lucas e Marcos (Mt 17:3, Lc 9:30 e Mc 9:4) Elias e Moisés vieram na transfiguração de Jesus, sendo que o primeiro havia sido arrebatado aos céus (2Rs 2:11) e o segundo morreu e foi sepultado (Dt 34:5 e Js 1:1). No entanto, o Evangelho de São João diz “E ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu: o Filho do Homem. E da mesma forma que Moisés levantou a serpente no deserto, assim também é preciso que o Filho do Homem seja levantado, para todo aquele que Nele acreditar tenha a vida eterna” (Jo 3:13-16). Desta forma, se antes de Jesus ninguém subiu aos céus, onde estariam Elias e Moisés antes da transfiguração de Cristo? Na doutrina católica subsistem três igrejas: A igreja militante, onde se encontram todos nós que estamos nesta terra na busca da santidade; a igreja padecente constituída pelos mortos que estão no purgatório a quem rezamos pela expiação dos pecados (Mc 12:38-45) e; a igreja triunfante que por meio de Cristo já estão no paraíso (Lc 23:43). Pode-se dizer que ainda é um mistério o local no qual Moisés e Elias encontravam-se antes de Jesus Cristo, mas é certo por nossa fé que desde a paixão de Cristo estejam no paraíso.

Até aqui explicamos que existe um local reservado a todos aqueles glorificados em Cristo e que estando face a face com Deus podem interceder por nós junto a Ele. O fato dos apóstolos terem feitos milagres pela cura de doentes (Mt 10:1 e At 5:12-16) como intercessores de Cristo em vida, quando mortos e reunidos na igreja triunfante teriam cessados sua ação intermediadora? A fé católica na comunhão dos santos permite ao cristão católico pedir intercessão de cura e graças pela devoção a um deles. Neste sentido, a Lumen Gentium, capítulo VII, diz: “Com efeito, a vida daqueles que fielmente seguiram a Cristo, é um novo motivo que nos entusiasma a buscar a cidade futura (cfr. Hebr. 14,14; 11,10) e, ao mesmo tempo, nos ensina um caminho seguro, pelo qual, por entre as efémeras realidades deste mundo e segundo o estado e condição próprios de cada um, podemos chegar à união perfeita com Cristo, na qual consiste a santidade (156). É sobretudo na vida daqueles que, participando conosco da natureza humana, se transformam, porém, mais perfeitamente à imagem de Cristo, (cfr. 2 Cor. 3,18) que Deus revela aos homens, de maneira mais viva, a Sua presença e a Sua face. Neles nos fala, e nos dá um sinal do Seu reino (157), para o qual, rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas (cfr. Hebr. 12,1) e tendo uma tal afirmação da verdade do Evangelho, somos fortemente atraídos”. Resumindo, os santos são exemplos de vida que nos inspiram a santidade.

Justificada a devoção católica aos santos e a crença do poder de sua intercessão, voltamos ao início do texto para explicar porque eles são cobertos durante a quaresma. A rubrica inserida no Missal Romano pelo Papa Paulo VI em 3 de abril de 1969, 2ª edição típica, no sábado da IV semana da Quaresma (pág. 211, em português) e também a contida na Paschalis Sollemnitatis: A Preparação e Celebração das Festas Pascais, nº 26, nos ensina que: “o uso (costume) de cobrir as cruzes e as imagens na igreja, desde o V Domingo da Quaresma, pode ser conservado segundo a disposição da Conferência Episcopal. As cruzes permanecem cobertas até ao término da celebração da Paixão do Senhor na Sexta-feira Santa; as imagens até ao início da Vigília Pascal”. Ou seja, cobrir é facultativo, mas no Brasil por tradição não se deixou de fazê-lo mesmo depois de desobrigado.

Cobrir as imagens dos santos a partir do 5o. domingo da quaresma sinaliza ao católico que não é tempo para os fiéis dedicarem atenção aos Santos de sua devoção, mas a necessidade de voltarem sua atenção ao altar, onde se rememora o mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo.

Este texto poderia ter sido resumido apenas a esse penúltimo parágrafo, mas optamos por detalhar a origem de todos os princípios que baseiam a nossa doutrina cristã para uma melhor edificação de nossa fé católica.

João Lago

domingo, 23 de janeiro de 2022

O Brasil profundo e nossa cultura de massa

Há vários tipos de Reality Show e a própria definição deste tipo de entretenimento importado da língua inglesa pode ser confusa aqui no Brasil. Na busca de elucidar o termo, o dicionário Cambridge define Reality Show como “um programa televisivo abordando pessoas comuns que são filmadas em situações reais”. No entanto, existe uma variedade desses tipos de programas que utilizam “famosos” e/ou pessoas comuns entre os participantes invalidando a definição da língua inglesa. Porém, é verdade que as aspas em famosos é uma provocação, porque alguns assim chamados são conhecidos em um nicho específico com pouca ou quase nenhuma penetração na Cultura de Massa.

O termo Cultura de Massa por ser compreendido como a mercantilização da cultura, na qual a produção de bens e serviços alicerçam-se em ícones culturais que alcancem uma grande parcela da população buscando o lucro. Existem melhores e mais bem elaboradas definições de Cultura de Massa a partir das ideias de Theodor Adorno e Max Horkheimer, mas esta minha síntese vai ao encontro de nossa compreensão como as redes sociais na internet hoje também produzem milionários que falam para um universo específico, não mais para uma grande população.

Existem ao redor do mundo várias versões do The Voice, programa considerado reality show com inspiração nos antigos programas de calouros, reunindo personalidades da música para serem escolhidos como mentores por cantores amadores. No The Voice Portugal, um país de população de pouco mais de dez milhões de habitantes, tem como mentores Antônio Zambujo, Marisa Liz, Diogo Piçarra e Áurea Sousa que juntos tem 1,35 milhão de seguidores na rede social Instagram. No entanto, comparando com o similar brasileiro de Iza, Lulu Santos, Carlinhos Brown e Cláudia Leite que juntos tem 41,8 milhões de seguidores, ou seja, quatro vezes a população de Portugal, tal feito os transformariam em fenômenos culturais na língua portuguesa. Porém, se analisarmos pela população do Brasil os mentores brasileiros possuem apenas 19% de nossa totalidade demográfica.

Antônio Zambujo, em uma entrevista dada ao Diário de Notícias em agosto de 2017, quando perguntado se existia alguma influência da música portuguesa no Brasil respondeu: “Não, é residual. Tocamos lá muito, todos os anos vou lá três ou quatro vezes fazer uns concertos e digressões, tenho tido público mas também a perfeita noção de que quem me escuta no Brasil é um nicho. A vantagem é que um nicho no Brasil é provavelmente o número de habitantes de Portugal. No Brasil há 200 milhões a falar a língua portuguesa e isso devia ser aproveitado, mas não há forma porque é um país exportador de música e não um importador”. Usando as palavras de Zambujo fico feliz em participar desse nicho no qual se incluem as estrelas Carminho, Luísa e Salvador Sobral que aconselho conhecerem.

No mais famoso reality show que iniciou neste ano foram indicados como “famosos” Jade Picon, Pedro Scooby, Lin da Quebrada dentre outros. Dessa lista retirando o neto do Silvio Santos e a cantora sertaneja que ganhou os holofotes no funeral da Marília Mendonça, arrisco dizer que a maioria dessas “personalidades” habita nesse nicho brasileiro a qual se referiu Antônio Zambujo. Porém, não devemos menosprezar que conseguem enriquecer atuando junto ao público que conquistaram e participarem de um programa televiso, com penetração em todas as redes sociais, pode ser o que faltava para estourarem a bolha na qual se encontram e enriquecerem ainda mais.

Infelizmente personalidades como Carminho, Antônio Zambujo, Salvador Sobral e outros citados, vão continuar atuando e encantando esse nicho que se encontra aqui do outro lado do Atlântico, não por insuficiência artística, mas porque a principal bolha que não conseguem romper é a de nosso gosto pela futilidade e apego a ignorância. Assim, sejam bem vindos Jade Picon, Pedro Scooby, Lin da Quebrada, Douglas Silva, Arthur Aguiar, Maria, Bruna Gonçalves, Paulo André Camilo, Tiago Abravanel e Naiara Azevedo. O Brasil profundo vos merece.

João Lago.


quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Fechamento da Campanha Amigos Solidários 2021 - Prestação de contas aos doadores

Apresentamos a nossa prestação de contas da campanha NATAL AMIGOS SOLIDÁRIOS 2021.

Neste ano de 2021 ao invés de comprar a cesta pronta optamos por fazer cotação dos itens que a compõe e fazer pesquisa de preços em vários supermercados/atacadistas na cidade de Manaus. O resultado dessa pesquisa está na tabela abaixo:


O valor de uma cesta básica pronta mais em conta foi cotada em R$ 59,99


Dessa cesta retiramos o refrigerante e acrescentamos 2 latas de sardinha e 1 molho de tomate, portanto uma cesta com mais itens e em média R$ 4,74 mais barata.

Abaixo a lista de doadores e o valor arrecadado.



O valor recebido em dinheiro, pelo valor médio cotado da cesta básica, daria somente para comprar 50 cestas. Portanto, o recebimento de doações de produtos in natura foi muito importante para compor mais 15 cestas adicionais. Os produtos doados serviram para diminuir a necessidade de compra de itens da cesta que direcionou os valores doados para comprar somente as quantidades de produtos faltantes.

A lista de doadores de produtos in natura está abaixo. Os produtos doados para efeito contábil foram atribuídos valores correspondente aos itens cotados.



A soma do valor doado em dinheiro e dos valores doados em produto é igual a R$ 3.445,08 que dividios pelo valor médio das cestas de R$55,25 totaliza 62 (sessenta e duas cestas). Como recebemos a doação de 03 (três) cestas fechadas de um amigo que pediu para permanecer anônimo, fechamos a quantidade de 65 (sessenta e cinco) cestas prontas para doação.

Abaixo as notas fiscais de compras:
























Assim, fechamos nossa campanha agradecendo a todos os doadores e a aqueles que doaram seu tempo, seus recursos para o transporte das cestas até a comunidade, em especial a Gabriel Nicolau pelo empréstimo da Fiorino e por ter conduzido pessoalmente o veículos até o local da entrega. Agradecemos também o Alfredo Aguiar, Nazaré Lago, Lívia Lago e João Alfredo Lago que ajudaram no carregamento e entrega das cestas no local. Agradecemos ainda a Sra. Jane da Comunidade de Itaporanga que nos ajudou a escolher as famílias em suas necessidades.

Agradecemos ainda a Denis Taumaturgo que fez nossa ponte com a Fundação Amazônia Sustentável para doação de produtos.

Finalizamos agradecendo a Deus e aos amigos que Ele nos envia todos os anos para que possamos espalhar o seu amor aos mais necessitados.

Um feliz Natal e um próspero ano novo de 2022.

AMIGOS SOLIDÁRIOS

terça-feira, 12 de outubro de 2021

A destruição do Templo da Decência


Muitos dos complexos e das síndromes são inspirados na mitologia grega como o complexo de Édipo e a síndrome de Cassandra. Porém, existe um distúrbio em especial que não vem de uma alegoria, mas de um fato histórico. É justamente sobre o complexo de Heróstrato, ainda não tão conhecido, que esta resenha abordará.

Na Grécia antiga, uma das setes maravilhas do mundo antigo era o Templo de Ártemis, deusa grega da caça e da vida selvagem. Foi o poeta e escritor grego Antípatro que no século 2 a. C. fez a famosa lista que também incluía as pirâmides do Egito, as muralhas da China e outras cinco que já não existem mais. Antípatro descreveu o templo de Ártemis como uma edificação maravilhosa, possuindo cento e vinte e sete colunas em mármore com vinte metros de altura cada uma. Em seu interior uma estátua grandiosa em ébano da deusa Ártemis, com teto de madeira e inúmeras esculturas ornando o local. Assim, de tão belo o templo a deusa grega da caça era uma atração turística que encantava viajantes na antiguidade, até que um delinquente narcisista, chamado Heróstrato, resolveu colocar fogo na edificação com o objetivo de tornar-se famoso e ser lembrado pelos séculos como o homem que destruiu uma maravilha arquitetônica. Aliás, o narcisismo é um outro distúrbio psicológico também inspirado na mitologia grega que retrata alguém que ama tanto a si próprio que frequentemente cultua um exibicionismo excessivo.

Heróstrato não somente foi condenado à morte, mas também sentenciado ao esquecimento com a proibição da menção de seu nome. Os juízes que o condenaram temiam que outros surgissem com igual objetivo, mas Heróstrato não pode deixar de ser citado pelo historiador Teopompo e tanto entrou nos anais da história como um demente narcisista, quanto inspirou a psicanálise a nomear uma síndrome que leva o seu nome e que descreve indivíduos que cometem atrocidades com o objetivo de ser lembrados na posteridade. Entretanto, Heróstrato não está só nessa imensa lista de seres abjetos que cometem barbaridades e em um breve exercício de lembrança surgem nomes como Nero, Calígula, Vlad III (o empalador), Hitler, Jim Jones, Charles Manson, Osama Bin Laden entre tantos outros que ainda habitam este chão e que estão nas cadeias mundo afora. É certo que nem todos tinham a mesma motivação de Heróstrato quando cometeram seus crimes, apesar que cada um será lembrado por suas atrocidades.

O Brasil já algum tempo vem sofrendo carência de bons exemplos, ou seja, hoje não existem unanimidades na política, artes, ciências, esportes e negócios que possam ser citados como sinônimos de honestidade, inteligência, bondade, humildade, responsabilidade, coragem ou qualquer outra virtude que os identifiquem. Infelizmente, aparentemente a maioria dos ícones que abarcam duas ou mais virtudes citadas já estejam mortos e não sei se a taxa de reposição de pessoas boas é tão baixa que os indivíduos torpes vem ocupando todos os espaços possíveis. A pergunta que deve ser feita é onde foram parar os homens de bem? Talvez devêssemos resgatar a lanterna de Diógenes e buscar entre nós indivíduos que fossem indiferentes ao luxo, conforto e de todas as exterioridades que corrompem a integridade humana. No entanto, vivemos em uma sociedade que cultua o hedonismo, em uma urgente necessidade de satisfação dos prazeres, ainda que isto signifique cometer ilícitos, ou mesmo passar por cima de direitos de terceiros. Neste sentido, as redes sociais servem com vitrine para toda a espécie de ignomínia, desde bandidos exibindo vidas luxuosas a partir dos ganhos de seus crimes, ou mesmo indivíduos (conhecidos ou anônimos) usando a internet para expor homofobia, racismo, xenofobia, misoginia e toda sorte de desvio ético e moral.

A conclusão que podemos chegar é que o cansaço com o “politicamente correto” produziu na população uma tolerância em relação aqueles que se opõem a qualquer princípio civilizatório básico, inclusive permitindo que uma minoria torpe saísse das sombras e passasse a orgulhar-se de suas infâmias. Lamentavelmente, muitos desses indivíduos estão ocupando postos chaves na administração pública e boa parte da pauta nacional está deslocada para combater suas iniquidades enquanto que a vida dos brasileiros estão sendo afetadas com inflação, desemprego e fome.

Herotrástos estão no meio de nós e por não terem nada de bom a oferecer desejam simplesmente destruir tudo o que encontram pela frente. Deixam em ruínas um país e colocam o seu nome no panteão do abjeto sob o olhar passivo dos brasileiros de bem que absurdamente parecem ter abdicado do protagonismo. Talvez, contrário ao que se possa pensar, os bons sejam minoria e insistimos em acreditar que possam ser muitos, mas ainda existe a esperança que apenas estejam adormecidos a espera da chama de Diógenes. Não nos custa nada tentar acendê-la.

João Lago

domingo, 19 de setembro de 2021

Virando a página

Seria uma felicidade humana se todos os caminhos iniciados na vida fossem imutáveis, perpétuos e repletos de prazer. No entanto, sabemos que não é assim, porque empreendedores vão falência, o empregado é demitido, cursos na metade são abandonados e os relacionamentos amorosos são desfeitos, todos trazendo muito sofrimento a depender da expectativa inicial em relação ao tamanho da frustração em ser forçado a abandonar o que iniciou como uma conquista ou projeto de vida.

Vivemos em uma sociedade na qual o sucesso é condição essencial para ser feliz e hoje as redes sociais servem como vitrine para essa felicidade. Essa exposição do privado traz angústia quando as coisas não caminham para uma publicação feliz nos “stories”, pois se antes a preocupação era a vergonha de admitir o infortúnio em família, do tipo “o que eu vou dizer lá em casa”, com as redes sociais é expor o fracasso para um universo de pessoas não tão íntimas. Eu sou de uma geração que viveu mais de trinta anos de sua vida sem as redes sociais e quando as coisas não iam lá muito bem a comunicação não era instantânea e poucas eram as pessoas que recebiam as más notícias. Era comum toparmos nas ruas com algum conhecido e haver esse tipo de conversa:

- Você tem visto a fulana?

- Tu não sabes menina? Ela separou do marido! Ele amigou com a empregada da família vinte anos mais nova que ela. Um escândalo!

As redes sociais como Facebook, Instagram, Linkedin etc., são os fofoqueiros de plantão que são alimentados pelo próprio indivíduo que ´publica o fim do relacionamento, a perda do emprego, o fracasso nos negócios. No entanto, ainda que não se publique esses fatos, existem detetives virtuais que atuam como verdadeiros Sherlock Holmes atentos para uma eventual ausência de publicações ou analisam detalhadamente as declarações ou fotos publicadas buscando ver o quê foi apagado, ou quem foi “deletado” e “cancelado”. A depender das condições traumáticas que envolvem os eventos infelizes, talvez o que se menos deseje é dar publicidade aos mesmos. Porém, não me considero radicalmente contra as redes sociais, mas acredito que antes de fazê-las o diário de sua vida deva-se sopesar os riscos emocionais de uma vida exposta.

Virar a página não é uma tarefa fácil quando além do dissabor vem junto a negação, vergonha, melancolia e o medo do futuro, quando a vida parece perder o sentido e fica-se tão preso ao presente e nada, absolutamente nada, parece ser capaz de trazer de volta a autoestima. A psicóloga suíça naturalizada americana Elisabeth Kübler-Ross desenvolveu um trabalho brilhante sobre as etapas do lutos, descrevendo-as como negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Conceitualmente a descrição de cada um sentimento que envolve uma perda até a última fase aceitação parece bastante factível, mas discordo que a psique humana possa respeitar sistemas estanques tão bem definidos. Duas décadas antes de Kübler-Ross, o psicólogo americano Abraham Maslow também buscou hierarquizar as necessidades humanas em básicas, psicológicas e de realização pessoal, mas ambas as abordagens ignoram que os sentimentos são matizes que podem reunir duas ou mais etapas de qualquer hierarquização. Significa que no luto podem vir juntas a negação, raiva e depressão, assim como alguém que não tenha suas necessidades básicas supridas, ainda assim em algum aspecto de sua vida sinta-se realizado. No entanto, o tempo é a peça chave para transpor as fases do luto e pode ser considerado doença da alma caso o sofrimento se prolongue por muito tempo, ou em outras palavras, até que se possa virar a página.

O luto pela perda do emprego, do fracasso nos negócios ou pelo fim de um relacionamento são equivalentes a depender do desequilíbrio que trazem para nossas vidas. Há pessoas que reagem bem passando pelo luto e logo estão novamente a planejar uma nova trajetória de vida, reinventando-se face as oportunidades que surgem ou são criadas. Por outro lado, há pessoas que não conseguem reagir e vão precisar de ajuda para novamente sentirem-se bem consigo mesmas e não há uma fórmula mágica para isso. Portanto, não tem este texto a pretensão de ser um manual para solução desses problemas.

Virar a página passa pela aceitação que não somos capazes de controlar os acontecimentos que não dependem de nossos próprios esforços. Assim, por mais que sejamos otimistas, faz parte de um exercício de autoconhecimento nos colocarmos mentalmente enfrentando o que mais nos pode angustiar, mesmo que a nossa avaliação coloque como remota a possibilidade desse evento ruim acontecer. Nesses casos, deve-se buscar a constante capacitação profissional enquanto empregado ou empreendendo, ou engajar-se em atividades que aumentem a autoestima mesmo durante um relacionamento amoroso feliz. Muitos deixam para buscar essas coisas após o fracasso e outros sequer conseguem movimentar-se para tal e caem em depressão. Virar a página não se traduz em ações que são tomadas após o evento infeliz, mas o quanto nos preparamos para enfrentar essas decepções. Pegar em uma enxada para quem nunca trabalhou no campo traz calos dolorosos, mas se deixamos antecipadamente as mãos bem calejadas o trabalho braçal até poderá ser extenuante, mas não será de tão grande sofrimento.

Como dito anteriormente não há uma fórmula mágica para evitar sofrimentos que levem a depressão, mas o exercício de valorizar o que mais é importante em nossa vida e nos imaginarmos sem pode atuar tal como uma vacina na criação de anticorpos, neste caso, de imunidades emocionais.

João Lago