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domingo, 29 de setembro de 2019

Homenagem à Etelma Maria Pinheiro do Lago


Quando somos crianças, e temos a felicidade de crescermos em uma família numerosa, nossos primeiros contatos sociais são com os nossos irmãos e irmãs. É por meio deles que aprendemos a repartir, negociar conflitos, muitas vezes transigir, algumas vezes (não assim tão raras) até as vias de fato. Éramos crianças e as nossas desavenças eram tão pesadas e duradouras quanto uma bolha de sabão e nada poderia ser tão sério que pudesse superar a necessidade de novamente estarmos juntos brincando e nos divertindo.


Crescemos e paulatinamente percebemos que a vida não é somente uma grande diversão. As cobranças vão ficando cada vez mais severas conforme vamos ganhando entendimento e, pouco a pouco, vamos retirando a capa de super-herói, as tiaras de princesa e, não sabemos bem quando, vestimos a máscara da responsabilidade. Daí, quando colocarmos os nossos pés para fora de casa, já não nos estapeamos mais, mas também já não brincamos tanto.

Quando nos tornamos adolescentes, o mundo floresce em tantas amizades que a nossa casa se transforma em lugar de acolhimento, festas de aniversários, confraternizações e do mesmo modo que recebemos, peregrinamos por outros lares e conhecemos outras famílias. A infância e a adolescência daqueles quatro irmãos da Rua Visconde de Porto Alegre 446 não fugiu a regra, mas com uma diferença. Havia uma menina que parecia não acreditar nessa obrigação de ser gente grande e, para nossa felicidade, tornou-se essa eterna criança de espírito alegre e amizades platônicas que tenho certeza que cada um de vocês, que teve a felicidade de conhecer Etelma, há de lembrar.

Etelma também foi mãe e como não poderia deixar de ser, tornou-se técnica, preparadora física, nutricionista, líder de torcida de seu único filho Diego Augusto que colecionava medalhas de natação. Mudaram-se para o Rio de Janeiro para que Diego pudesse competir em piscinas que tivessem competidores mais parelhos a sua competência. No Rio de Janeiro construiu novas amizades e encaminhou uma vida de responsabilidades e trabalho, igual como muitos daqueles que saem de sua terra natal. O irmão Júnior casou, o mano Kleber também, ambos foram morar em outras cidades e o Pinheiro Neto constituiu família aqui mesmo em Manaus. Em dado momento da vida cada um dos quatro irmãos da Visconde de Porto Alegre morava em uma cidade diferente.

A mãe Etelvina sempre foi para os quatro irmãos o ponto de convergência, como é bastante comum em outras famílias que tem a casa dos pais sempre como um lugar de destino. A vida une, as contingências separam, aprendemos a conviver com a distância, superar a saudade, porque de alguma forma nos acomodamos, pois sabemos que se realmente precisarmos estaremos sempre juntos e o sorriso de Etelma, a sua alegria e o seu carinho não pareciam tão distantes assim.

Deixemos para trás o pessimismo sombrio do “eterno retorno”, filosofia dos infelizes que não tiveram o discernimento de encontrar sentido nas coisas mais simples da vida, ou que não souberam construir um círculo de amor que nos faz escorregar suavemente, sem colidir com dobras ou arestas, e retornar ao ponto inicial de nossa existência: A casa da mãe, a família, o aconchego do lar, a presença festiva dos irmãos e dos amigos. Que alegria seria para qualquer um dos irmãos retornar a rua Visconde de Porto Alegre 446, abrir o portão e encontrar Etelma sempre disposta ao improviso, somente com o intuito de ser feliz e nos contagiar com a sua felicidade. Encontrar a porta da casa sempre cheia de gente varando a madrugada porque ela tinha o poder mágico de catalisar pessoas ao seu redor e quando morou no Rio de Janeiro, na praia de Botafogo, isso não foi diferente. Os três irmãos, os amigos e as amigas eram apenas personagens coadjuvantes de um teatro que a estrela principal era a menina gordinha, baixinha, geniosa, alegre e com uma força de vontade, uma beleza que não se encontra nos contos de fada. Etelma cresceu assim, amou assim, foi mãe assim, e tornou-se, para cada um de nós que percebemos sua essência, uma joia de valor incalculável.
A morte é um mistério que cada um de nós um dia haverá de descobrir, mas a nossa fé em Jesus Cristo aponta que aquilo que possa parecer incompreensível à razão humana é na verdade a verdadeira expressão do amor de Deus. Ele nos conhece, sabe de nossas falhas, nos perdoa, sara o nosso sofrimento e ao seu modo nos conduz à luz.

Quando perdemos alguém que amamos dois sentimentos se agigantam: Saudade e Tristeza.
E é na despedida que esses dois sentimentos parecem não caber na solidão que invade e transforma em vazio tudo o que está ao nosso redor.

Porém, nesses momentos de profunda dor e solidão é que a solidariedade da família e dos amigos nos ajudam a perceber que não estamos sozinhos em nosso sofrimento.

Corremos os olhos ao redor e percebemos que o vazio aos poucos vai sendo preenchido com um abraço, um afago, uma palavra amiga ou com simples um olhar que já diz tudo.

A família Lago, mãe, filho, irmãos, irmãs, sobrinhos, sobrinhas, cunhados, cunhadas e todos os familiares de Etelma agradecemos a presença solidária de cada um de vocês.

O vosso carinho e solidariedade com o nosso sofrimento nos faz acreditar que em meio a um mundo materialista e ausente de sentimentos existem pessoas como você que se sente capaz de calçar as nossas sandálias, curar nossas feridas e trilhar juntos o caminho da esperança.

Muito obrigado!

Família Lago


quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Família Lago – Mensagem aos amigos!

Queridas(os) Amigas(o)s.

A morte é um mistério que cada um de nós um dia haverá de descobrir, mas a nossa fé em Jesus Cristo aponta que aquilo que possa parecer incompreensível à razão humana é na verdade a verdadeira expressão do amor de Deus. Ele nos conhece, sabe de nossas falhas, nos perdoa, sara o nosso sofrimento e ao seu modo nos conduz à luz.
Quando perdemos alguém que amamos dois sentimentos se agigantam: Saudade e Tristeza.
E é na despedida que esses dois sentimentos parecem não caber na solidão que invade e transforma em vazio tudo o que está ao nosso redor.
Porém, nesses momentos de profunda dor e solidão é que a solidariedade da família e dos amigos nos ajudam a perceber que não estamos sozinhos em nosso sofrimento.
Corremos os olhos ao redor e percebemos que o vazio aos poucos vai sendo preenchido com um abraço, um afago, uma palavra amiga ou com simplesmente um olhar que já diz tudo.
Assim, queremos agradecer com gratidão todas as mensagens de solidariedade recebidas pela passagem de Etelma Lago e agradecer de modo especial a todos os amigos e familiares que foram pessoalmente ao velório e ao enterro de nossa amada Etelma.
O vosso carinho e solidariedade com o nosso sofrimento nos faz acreditar que em meio a um mundo materialista e ausente de sentimentos existem pessoas como você que se sente capaz de calçar as nossas sandálias, curar nossas feridas e trilhar juntos o caminho da esperança.
Muito obrigado!
Família Lago

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Homenagem a Ivo Knob


Algumas pessoas deveriam viver para sempre porque se fazem importante em nossas vidas e o simples fato de nos imaginarmos sem elas já nos provoca uma profunda angústia. Essas pessoas são importantes pelo exemplo de vida que espelham e por uma certa necessidade mesquinha que temos de tê-las ao nosso lado para nos sentirmos melhor. São elas que nos aconselham, que se preocupam se estamos bem e que, mesmo que não peçamos, estão sempre dispostas a ajudar-nos. Isso pode até ser natural quando estamos nos referindo a uma pessoa próxima da família (mãe, pai, avô, avó etc.), mas quando essa pessoa vai além dos laços familiares e coloca-se a disposição de quem necessite, então é porque estamos falando de pessoas essenciais.

Pessoas essenciais não se forjam ao acaso, porque se as observarmos nos detalhes veremos que elas trazem dentro de si características que muitas vezes nos faltam como paciência, alegria, caridade, paz, equidade, fidelidade, modéstia..., mas, a essas características, que na verdade são valores, damos um nome especial. As chamamos de dons do Espírito Santo e as encontramos nas palavras do apóstolo Paulo quando ele pregou na província romana da Galácia (Gl 5, 22-23). São Paulo disse: “Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito” (Gl 5, 25). Então, quem carrega o Espírito Santo de Deus dentro de si também agirá de acordo com o Espírito e tudo fica mais claro para compreendermos porque algumas pessoas são assim.

Ivo Knob, para nós, Sr. Ivo, atuou como Ministro Extraordinário da Comunhão aqui na Igreja de São Marcos e levava consigo a Eucaristia a quem necessitava. É importante que se diga que na Igreja Católica o ministro da Eucaristia de fato é o sacerdote, pois o ministro por excelência é aquele que preside e consagra o pão transformando-o em alimento sagrado. Analisando simplesmente o significado da palavra “extraordinário” encontramos a seguinte definição: “que foge do usual ou do previsto, que não é ordinário, fora do comum”. Assim, é natural que pessoas em funções extraordinárias sejam aquelas que muitas vezes se colocam em distinção dos demais por posicionarem-se de modo especial. Engana-se quem age assim! Porque as pessoas extraordinárias não se forjam pela posição que ocupam, mas pelo que conhecem de Cristo como dádiva maior do amor de Deus para conosco, pois assim escreveu o Apóstolo João: “Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 Jo 4, 8).

Pessoas extraordinárias expressam-se pelo amor e foi pelo amor que seu Ivo se fez marcante entre nós. Pelo olhar terno, carinhoso e sempre atencioso para com todos e de modo todo especial para com sua Teresinha, com quem formou uma linda família. Também pelo amor, o cuidado com a natureza, semeando e colhendo os frutos que tão gentilmente compartilhava com os amigos que o visitavam. Um exemplo belo, de um homem sábio, que, carregado de simplicidade, jamais deixou que a sabedoria o afastasse das pessoas, ao contrário, verdadeiramente sábio, pela fé e disposição ao serviço da Eucaristia, era exemplo para todos nós. São pessoas como seu Ivo que quando partem deixam uma profunda saudade. Saudade que, para cada um de nós seus amigos, se ampara nos exemplos preciosos por ele deixado: de esposo, pai, irmão, avô, bisavô e amigo querido que não se apagará como uma vela que perde o brilho, pois a luz, uma vez emitida, caminha no espaço e no tempo e segue sendo percebida no universo por toda a eternidade.


Comunidade de São Marcos
Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório
Manaus - AM

Biografia 

Ivo Knob era gaúcho natural de Passo Fundo, nasceu dia 15 de outubro de 1934.  Formado em 1958 como técnico em contabilidade pelo Colégio Marista Conceição de Passo Fundo. Em 16 de maio de 1959 casou-se com Terezinha aos 24 anos. No ano seguinte, iniciou seus estudos de direito na Faculdade de Passo Fundo, mas não chegou a concluir o curso. Radicado em Manaus, trabalhou na empresa  Madeireira Rio Solimões Ltda. de 1974 a 1984 e no Colégio La Salle de 1981 a 1985 no qual foi primeiro funcionário registrado. Aposentado, Ivo Knob reservou parte de seu tempo ao serviço da igreja como Ministro Extraordinário da Eucaristia juntamente com sua esposa Terezinha. Ivo e Terezinha foram casados por 60 anos e tiveram três filhos: Fábio, José e Rita.

Ivo Knob faleceu dia 14 de agosto de 2019 no Hospital da Unimed em Manaus, deixando saudades de sua esposa, filhos, sete netos e quatro bisnetos.

sábado, 17 de agosto de 2019

A busca do poder da abstração


A capacidade de abstração é uma das mais elevadas formas de exercitar a mente na busca conhecimento, porque ela não limita o raciocínio aos fatores relacionados a realidade do indivíduo. Para que possamos melhor compreender este conceito, o exemplo mais clássico é aquele que se atribui a Isaac Newton quando viu uma maça despencar do galho que a prendia. Ao presenciar tal cena lúdica o físico e matemático inglês percebeu que a mesma força da natureza que leva a maça cair ao chão é a aquela que faz os planetas girarem ao redor do sol. Logicamente uma abstração dessa magnitude não sairia de uma mente vazia, pois para que fosse possível alcançar tal estágio de sofisticação intelectual, ele próprio já deveria ter alcançado todo o conhecimento matemático de sua época e ido muito mais além. Atribui-se a Isaac Newton e Gottfried Leibniz a invenção do cálculo diferencial e integral, os quais foram essenciais para o desenvolvimento da engenharia, economia, física, estatística e demais ramos do conhecimento que precisam estudar e analisar taxas de variação de grandezas e a acumulação de quantidades para melhor entender fenômenos observados. Isaac Newton ao ver uma maça cair ao chão não teria formulado a lei da gravitação universal se sua mente não fosse capaz de resolver os problemas mais elementares daquilo que já era observável pela percepção humana.

A política é considerada um fenômeno social e até existe um ramo do conhecimento que a estuda, o qual se denomina Ciência Política. Embora considerando que a Ciência Política tenha uma análise mais reativa das ações de governos, visando relacioná-las dentro de uma visão sistêmica, ou seja, estabelece padrões empíricos baseados em conhecimentos históricos e traça paralelos que visa explicá-las, mas pouco contribuindo para apontar inovações. O raciocínio que desejo lançar sobre a Ciência Política é que tudo que a sociedade construiu até aqui como modelo advém de conhecimento empírico e que nos falta essa tal capacidade de abstração para trilharmos o caminho do novo. Porém, para que se possa abstrair sobre determinado tema é necessário alcançar um grau de excelência nos princípios fundamentais do conhecimento, basta olharmos para a biografia da maioria dos homens que estão no Congresso Nacional, do atual presidente e dos seus ministros para percebermos que dessa mato não sairá coelho, cobra, sapo ou qualquer outro animal que pule ou rasteje. Quando analiso boa parte do discurso presidencial, de ministros e dos recém-eleitos para o Congresso Nacional vejo que esses ainda estão com a mente no final dos anos 50 do século passado e em plena guerra fria. Ainda estão atados a dicotomia do comunismo versus capitalismo, sendo aqueles de esquerda desejando uma sociedade planificada que reduz os cidadãos ao determinismo das abelhas e os outros de direita com a convicção fisiocrata que a mão invisível do mercado traz justiça social. Se os discípulos do Leninismo ainda vivem a luta de classes, os adeptos contemporâneos da fisiocracia, por sua vez, ainda estão perdidos no final do século XVIII e não passaram pelas agruras sociais advindas com a revolução industrial ocorrida no século XIX e que proporcionaram que as ideias de Karl Marx fossem “ideologizadas”. O estudo empírico da Ciência Política por ela mesma seria suficiente para deduzir que pouco temos a ganhar com essa discussão interminável que se assemelha ao sexo dos anjos.

A capacidade de abstração não deveria estar tão somente restrita as ciências naturais, mas deveria ser capaz de modernamente inspirarem os cientistas sociais a elucubrarem novos caminhos que levem a uma sociedade economicamente sustentável, socialmente justa e respeitando a individualidade de seus membros ao limite do que é aceitável para uma convivência coletiva. Porém, aqui não se deseja afirmar que a dominação de uma maioria sectária seja justificável pelo simples fato de ser maioria. Para exemplificar, levando o exemplo ao extremo, imaginemos hipoteticamente que no Brasil exista um grupo que esteja muito preocupado com o comportamento afetivo de casais homossexuais em público e que não suporte vê-los andando de mãos dadas e beijando-se. A reflexão a qual se deve ater é se todos os membros dessa sociedade estariam dispostos a abdicar de namorar em público para que exista paz social, deixando seus comportamentos lascivos para o âmbito privado. Não se pode construir privilégios individuais, tão poucos coletivos, quando esses atentam contra a liberdade e a isonomia de seus membros. A ofensa que um indivíduo possa fazer ao outro tem que ir além da subjetividade, pois no âmbito privado qualquer um pode acumular lixo em sua casa e viver na imundice, desde que isso não traga risco a saúde de seus vizinhos. Quando vive em sociedade, o dever que o indivíduo tem como compromisso de respeito ao semelhante é agir e respeitar as campanhas de combate as endemias (dengue, sarampo etc.) vacinando-se e limpando o seu quintal, buscando o conhecimento e fugindo do obscurantismo. Assim, se cada um agir com responsabilidade e estiver disposto a ter as mesmas obrigações e direitos de seu semelhante, estaremos no caminho do equilíbrio social que todos desejam.

Estamos vivendo um período muito difícil, no qual os princípios básicos que nos definem como civilizados estão sendo postos à prova. Parcelas significativas da sociedade trava uma luta contra a ciência e mostra-se desfavorável às liberdades individuais que colocam em risco qualquer possibilidade de encontrarmos um caminho de conciliação. A continuarmos travados no discurso mais raso de todas as possibilidades que nos definem como nação, muito provável seremos incapazes de proporcionar as próximas gerações o mínimo necessário para grandes abstrações.

João Lago

sábado, 10 de agosto de 2019

A repetição do modelo de ser pai


A experiência de ser pai tem um brilho muito especial durante a infância de nossos filhos. Existe uma responsabilidade no cuidado de nossas ações para que elas não possam comprometer o indivíduo adulto que entregamos ao mundo, pois a psicanálise aponta que a maioria das frustrações e neuroses podem ter início na infância. Portanto, como quase tudo na vida, os excessos ou a omissão podem prejudicar o desenvolvimento emocional de uma criança, sejam aqueles motivados pelo amor ou pela necessidade da repreensão. Essa dicotomia pode paralisar e levar o pai, como era comum anterior aos anos cinquenta, a deixar ao encargo da mãe a tarefa de educar os filhos. No entanto, a sociedade mudou e não se espera mais da mulher o papel de dona de casa, muito pelo contrário, a mulher está no mercado de trabalho em luta de igualdade por salários e direitos. Assim, a mulher que não está mais dentro de casa, em face da omissão do pai, muitas vezes também tende a terceirizar a educação da criança para a babá, empregada, parente etc., ou deixa para a escola a função de ensinar valores para os seus filhos. Eu tornei-me pai nesse mundo em transformação e com uma dose de complexidade, pois a infância dos meus filhos foram vividas bem longe de todos os parentes (maternos e paternos).

Não existe um curso de formação de pais e, talvez por causa disto, Antônio Carlos Belchior teria dito em sua canção: “que apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”. Somos uma repetição inconsciente da educação recebida dos pais e, no meu caso, como eu não tive um pai presente que fosse um arremedo de modelo, minha visão de atitudes paternas vieram de meu avô João Pinheiro. Ele era um homem de temperamento forte e com convicções firmes na necessidade que os netos estudassem para que fossem algo na vida. Ele sempre dizia: “quem não estuda puxa carroça”. Na infância de meu avô, os vendedores ambulantes na ausência de animais puxavam eles mesmos suas carroças carregadas de mercadorias, talvez sendo esse o exemplo do insucesso daqueles que não se dedicaram aos estudos. E como toda a criança que ama, lembro que esforçava-me para parecer inteligente e em retribuição era chamado por ele de “meu cientista”.

O meu pai João Lago, de quem herdei o nome, antes de ir morar no Sul do país deixou na casa de minha mãe uma coleção de livros. Eram obras completas de José de Alencar, Machado de Assis, Augusto dos Anjos, poesias de Bocage, além de clássicos com O Vermelho e o Negro de Stendhal dentre outros. Sabia que aqueles livros pertenciam-lhe porque todos levam um carimbo com o seu nome na contracapa e imaginava que ao ler aqueles livros poderia conhecer um pouco do pai que não tive oportunidade de conviver na infância. Já adulto, aos vinte e um anos, tive a felicidade de reencontrá-lo e ficar hospedado em sua casa em Porto Alegre com sua nova família. Com muita oportunidade para conversarmos, indaguei sobre todos aqueles livros para que pudéssemos compartilhar experiências comuns pelo fato de grande parte daquela biblioteca ter passado em minhas mãos. Infelizmente meu pai disse-me que os colecionava e que não os teria lido e, naquele momento, morria em mim a esperança da vivência em comum que pensei que tivéssemos o que me deixou decepcionado. Porém, mais tarde pude perceber que de maneira torta o bem que ele pode proporcionar-me, pois a partir daqueles livros pude adquirir um imenso prazer pela leitura o que me facilitou o gosto por estudar.

O que somos para os nossos filhos será uma ideia do que herdamos de nossos pais. Porém, se em algum momento em nossa infância nos faltou exemplos de vida que nos inspirem a sermos pais melhores, no instante em que somos chamados a paternidade, as pessoas boas que nos cercam hão de servir como modelo para as responsabilidades de pai. Assim, não vejo motivo para omissão de um homem negar-se a ser pai, ainda que o filho seja fruto de uma união desfeita ou não desejada.

Ser pai é muito mais que um nome no registro de nascimento, ou na carteira de identidade. Ser pai é um compromisso para que os filhos possam ser pessoas dignas e que um dia, a repetir esse círculo de virtudes, possam ser também exemplos dignos para os seus filhos.

João Lago

domingo, 28 de julho de 2019

OS CRIPTO FARAÓS


Nessas idas e vindas de Rio Preto da Eva para Manaus, cidade distante 77 km da capital do Amazonas, face ao atraso da chegada do ônibus fui seduzido a encurtar a espera e seguir em um dos vários táxis lotação que servem de transporte alternativo. O veículo era um desses utilitários que cabem sete pessoas e em uma viagem de uma hora e meia, mesmo com a disposição de ficar calado, muitas vezes somos quase que obrigados a entrar na conversa. Ao meu lado vinham dois sujeitos que faziam quase que uma conversa de roteiro combinado, na qual uma fazia as perguntas carregadas de interesse para que o outro as respondessem. É dessagrável entrar na conversa alheia, mas, convenhamos, o confinamento forçado é a centelha para que esqueçamos nossa polidez e afloremos a ausência de educação.

O sujeito mais falante fez uma breve descrição de seu currículo profissional. Havia sido motorista de aplicativo e agora dedicava-se a manter uma carteira de criptomoedas e alardeava ganhos de 400% sobre o capital investido. Para quem não a conhece, criptomoeda é uma moeda virtual que não existe fisicamente e que não é emitida por nenhum banco central, portanto não tem a garantia de nenhum governo, mas que foi sendo popularizada a partir do interesse de várias pessoas ao redor do mundo em “minerá-las”, ou comprá-las para possuí-las em uma carteira virtual. A partir do momento em que foi possível comprá-las e vendê-las em um mercado de câmbio virtual foi que essas moedas adquiriram o status de meio de troca no mundo real, mas ainda são poucas as empresas que se arriscam a vender produtos aceitando criptomoeda como pagamento. A Comissão de Valores Mobiliários – CVM, que regulamenta os produtos de investimento financeiro no país, não reconhece criptomoeda como ativo financeiro e proíbe que fundos de investimento comprem a moeda virtual (artigo 2º, V, da Instrução CVM nº 555/14). Não se trata de preconceito da CVM sobre a moeda virtual, mas uma preocupação legítima em proteger o interesse de investidores que, muitas vezes, por não serem conhecedores dos riscos associados a cada ativo financeiro possam ter prejuízos irreparáveis.

Retornando ao confinamento do táxi lotação, a conversa entre os dois sujeitos girava em torno dos ganhos extraordinários e a possibilidade de viver sem trabalhar. Permanecia impassível até o momento em que alguns passageiros, inclusive o motorista, começaram a perguntar como entrar nessa onda milionária. A conversa ficou mais perigosa porque o investimento sugerido era em uma pirâmide financeira baseada em criptomoedas, ou seja, com elevado risco de perda de todo o valor “investido”. Realmente aquele papo inicial entre os dois tinha a intenção de aguçar a ambição de ganhos fáceis e o sinal de alerta veio da citação de uma empresa virtual chamada Unick. Uma ex-aluna já havia questionado a respeito dessa empresa e perguntava-me se eu aprovava colocar algum dinheiro nisto. A minha resposta foi direta e sem rodeios: Fuja disto! É uma pirâmide financeira.

Quando estive na Colômbia em 2008 acabava de estourar o escândalo da pirâmide DMG, iniciais do nome de David Múrcia Gusmán, um ex-vendedor ambulante, que conseguiu colocar um país em “estado de emergência social” pela quantidade de incautos que colocaram todas suas economias para alimentar a pirâmide DMG na esperança de deixarem de trabalhar para sempre. A pergunta que se faz é: Como algumas pessoas, mesmo com certa razoabilidade intelectual caem nesse golpe? Para responder é necessário dizer como funciona o esquema de pirâmide. Vamos supor que você tenha uma laranja e deseje ter retorno de três laranjas em pouco tempo. Então, cria uma carteira e consegue convencer três pessoas a investirem nela prometendo retorno de três laranjas, desde que consigam cada um mais três novos investidores. O sujeito que inicia a carteira toma para si todas as laranjas dos investidores, porque que sabe que se cada um trouxer mais três “investidores” e os demais mais três o resultado parcial da carteira será de 27 laranjas. Parece um bom negócio enquanto os novos entrantes na base da pirâmide busquem mais e mais clientes para a carteira até que cada vez menos sejam captados provocando, enfim, a falência do modelo. Quando a pirâmide deixa de crescer e aqueles que investirem busquem retirar as laranjas que depositaram vão perceber que elas não mais existem, pois foram todas chupadas e nem o bagaço restou. Na verdade alguns poucos ganham muito, mais precisamente aqueles que controlam a carteira. As vezes uma pirâmide demora a desmoronar porque aqueles que colocam o seu dinheiro acompanham um crescimento de valor investido ilusório e acreditando que podem ganhar ainda mais não sacam a totalidade do investido, mas apenas uma parte. A lógica é quanto mais antiga seja a criação e o tempo do dinheiro retido em pirâmides maiores serão os riscos de perder tudo.

Esses golpes com pirâmides são alimentados pela ganância e são cíclicos, pois veem de tempo em tempos, fazem estragos e retornam com uma nova roupagem. Agora usando a ideia de criptomoeda e associada ao termo de “multinível” que vem de um outro tipo de pirâmide que foi apelidada de “marketing multinível”. A ideia é a mesma, talvez os estelionatários sejam os mesmos, somente os incautos que não o são.

João Lago

domingo, 21 de julho de 2019

Brancos, mulatos, pardos e negros: Brasileiros somos 100% “paraíba”.


A democracia não é e nunca será a eliminação completa das divergências políticas, pois se assim fosse não seria democracia, mas sim ditadura. Isto posto, quando um governo é eleito, na esteira dos cinquenta por cento mais um, haverá de existir os demais quarenta e nove por cento que desejavam um caminho diferente. Um bom estadista é aquele que não se acredita ungido por uma unanimidade e que depois de eleito trabalhará ainda mais por aqueles que votaram contra, pois sabe que não se trata mais de competir pela vitória de um partido, mas sim por ser responsável pela unidade e o bem-estar de todos. A história ensina que as divisões territoriais que aconteceram mundo afora foram motivadas justamente pela ausência de unidade nacional, seja pela língua, cultura ou pelo abandono. Um território jamais manterá sua unidade se não houver a integração do seu povo em um sentimento de pátria (para todos). Aquele que é eleito por uma maioria deverá sempre falar para todos e dedicar-se ainda mais em conquistar a confiança dos que pensam contrário e buscar provar que pode, mesmo na divergência política e ideológica, governar para todos. Isto é o óbvio, mas cada vez mais neste país é necessário gritar o óbvio.

O Brasil é um país continental, um gigante com tecido social tão diverso quanto geográfico, mas falamos a mesma língua e não há na consciência popular um sentimento separatista. Nosso país é verdadeiramente rico pelo tamanho de seu território e pela vocação que cada região tem para contribuir para a grandeza e prosperidade desta nação. O Brasil é um dos poucos países que se todas as fronteiras que nos cercam fossem fechadas conseguiríamos subsistir, pois somos capazes de produzir nossos alimentos, temos jazidas de minério, petróleo, indústrias e provamos que podemos construir um bem com alta tecnologia e competitividade, como foi com a Embraer, que lamentavelmente foi entregue ao capital estrangeiro pelo atual governo. O Brasil era um dos raros países no mundo que tinha na matriz industrial de capital nacional a fabricação de aviões capaz de competir com sucesso no mercado internacional. Foi-se para o estrangeiro, justamente porque um mesmo governo que chama de “paraíba” os nordestinos jamais conseguirá entender que as grandes potências mundiais competem entre si por hegemonia tecnológica, coisa que o Brasil não tem e as poucas que possui entrega ao estrangeiro. Isto soa muito estranho quando esse mesmo governo, durante a campanha eleitoral, erguia uma bandeira nacionalista, mas, uma vez eleito, adota uma política entreguista e de subserviência ao capital internacional. Não há na diplomacia ocidental exemplo de um país que tenha abdicado da reciprocidade de tratamento para com os seus cidadãos face a um governo estrangeiro. A partir de decisão do atual governo, hoje um cidadão dos EUA vem ao Brasil sem exigência de visto e entra no país com o seu passaporte. Porém, um cidadão brasileiro se desejar visitar os EUA deve primeiramente pagar uma taxa de USD 160 (equivalente a R$ 599,00), agendar entrevista e dirigir-se a Recife, Brasília, São Paulo ou Rio de Janeiro. Logicamente que pagar a taxa e ter as despesas para viajar e realizar a entrevista não são garantia da emissão do visto, que simplesmente pode ser negado sem que seja dado qualquer explicação ao viajante. Um cidadão europeu não precisa de visto para os EUA, bem com a comunidade europeia não exige do brasileiro visto para entrar naquele continente. Um governo que abdica dessa reciprocidade é aceitar que os seus cidadãos são de segunda classe se comparados com o estrangeiro.

Demonstrar desprezo pelos brasileiros nascidos no Nordeste chamando-os pelo adjetivo pejorativo de “paraíba”, primeiramente ofende a dignidade dos paraibanos cuja cepa gerou Augusto dos Anjos, Ariano Suassuna, Assis Chateaubriand, Epitácio Pessoa etc. Em segundo, porque o Nordeste representa 15% do Produto Interno Bruto Brasileiro – PIB, ou seja, o Brasil seria mais pobre em R$ 928 bilhões se aquela região não fizesse parte de nosso território. Está no Nordeste a base de Alcântara que é cobiçada pelo governo dos EUA porque geograficamente é um ponto privilegiado do planeta para colocar satélites em órbita e que o governo Bolsonaro está em vias de entregá-la sem reservas aos EUA. Para coroar tamanha obscenidade diplomática, Bolsonaro tentar enfiar goela abaixo do Senado Federal a indicação de seu filho Eduardo Bolsonaro que se vangloriou de ter sido chapeiro nos EUA e possuir uma pós-graduação em economia. Porém, até o fato de ter fritado hambúrguer nos EUA foi contestado pela imprensa, pois a lanchonete chamada Popeyes, na qual Eduardo Bolsonaro se vangloriou de seus dotes como chapeiro, simplesmente serve frango frito, ou seja, não tem hambúrguer no cardápio. A imprensa também foi pesquisar a pós-graduação em economia pelo Mises Institute Brasil e descobriu que o filho de Bolsonaro não concluiu o curso porque não conseguiu apresentar o trabalho de conclusão. Esses fatos, aliados as demais inverdades que são pronunciadas pelo Bolsonaro pai, indicam que a mitomania parece ser um atributo herdado na família. Sinceramente esperamos que o Senado Federal corrija o erro grosseiro da indicação de alguém tão despreparado para uma missão diplomática tão estratégica para o Brasil e não homologue a indicação nepotista de Jair Bolsonaro.

A ofensa proferida aos nordestinos, a subserviência aos interesses políticos e econômicos dos EUA, o desprezo pela verdade e o nepotismo descarado pela indicação do filho como diplomata são apenas a ponta do iceberg de toda a irracionalidade que está submersa e que em doses homeopáticas são administradas a um país agonizante chamado Brasil. Estamos cansados dos discursos ideológicos, da insistência da polarização com o petismo e esperávamos um governo propositivo para todos os brasileiros. Infelizmente ainda estamos no terceiro turno da eleição do ano passado e, agora com o peso de uma escolha catastrófica, seguimos confiantes que o Congresso Nacional possa ir corrigindo tanta irresponsabilidade.

João Lago.