
Quando
os historiadores e sociólogos no futuro estudarem os motivos do
subdesenvolvimento brasileiro, apesar das riquezas naturais e da
ausência de catástrofes que possam assolar este país (terremotos,
tufões etc.), irão se debruçar nesse momento histórico que
separaram as forças democráticas do fascismo bolsonarista por uma
quantidade ínfima de 2,13 milhões de votos, representando apenas
1,08% do total dos votos válidos. Porém, apesar das semelhanças do
bolsonarismo com o fascismo, talvez seja precipitado chamá-lo assim,
pois ao compará-los, o primeiro não criou um partido que abrigasse
uma ideologia política, bem como sua completa ausência de
intelectuais que o sustente. Nesta reflexão abordar-se-á como a
nossa deficiência educacional, correlacionada com a uma alienação
política, fez florescer uma extrema-direita que mistura truculência,
mentiras transformadas em verdades, ignorância e fanatismo
religioso. Iniciaremos por uma breve biografia de Jair Messias
Bolsonaro, mas caso já a conheça pode pular para o terceiro
parágrafo sem prejuízo da leitura.
Bolsonaro,
ao longo de sua vida pública, trocou mais de legendas partidárias
do que de mulheres, elegendo-se presidente em 2018 pelo Partido
Social Liberal – PSL (17) e agora concorreu pelo Partido Liberal –
PL (22), sendo esse o nono partido que esteve filiado. Tentou fundar
o partido Aliança pelo Brasil, mas só conseguiu 40% das assinaturas
necessárias para registrá-lo. Desistiu do projeto porque seria
humilhante um segundo fracasso que demonstraria a realidade de um
vazio político que o acompanha. Além disso, uma rápida pesquisa em
sua biografia aponta que foi um mau soldado e praticamente expulso do
exército após ter sido acusado de haver planejado explodir bombas
como forma de reivindicação salarial. Condenado em primeira
instância, conseguiu ser absolvido em 1988 e dois anos depois entrou
para a política. Desde então, Bolsonaro não teve nenhuma outra
ocupação, ou profissão, transformando sua violenta defesa salarial
de militares em um capital político que o manteve em vários
mandatos por trinta e dois anos. Não por acaso, essa ligação
umbilical entre Bolsonaro e militares o fizeram próximo de
milicianos do Rio de Janeiro. Enriqueceu na política, pesando sobre
si suspeitas de peculato (rachadinha) que se estenderam para os seus
filhos mais velhos. Porém, mais recentemente soube explorar a visão
neopentecostal de defesa de pautas conservadoras, baseada na
iminência de um comunismo que os obrigariam a aceitar o aborto, o
casamento de homossexuais em igrejas, a pedofilia, dentre outras
fantasias proferidas em templos por líderes ungidos no charlatanismo
e no estelionato religioso.
Na
Itália de 1925 houve um manifesto que reuniu 250 personalidades,
entre filósofos, poetas, artistas que buscaram dar ao fascismo um
verniz de movimento social intelectualizado. Neste sentido, o
bolsonarismo é um total fracasso pelo aglutinamento do obscurantismo
religioso com a aversão a ciência, materializada por movimentos
antivacina, terraplanismo, criacionismo e ódio ao ensino
universitário. O único “pensador” associado ao bolsonarismo, o
falecido Olavo Carvalho é tão filósofo quanto o “religioso”
Kelmon é padre. Já os artistas sertanejos, que apoiaram Bolsonaro
em derradeira hora, adotam um fisiologismo facilmente comprovado com
o resgate de fotos de um passado recente. Estiveram ao lado de Lula e
Dilma em almoços, jantares, festas, comemorações e não
surpreenderiam se viessem a fazê-lo novamente. Ainda se pode
insistir em citar um ou outro ator e atriz que estiveram apoiando
Bolsonaro, mas basicamente buscavam sair do ostracismo, ou tiveram a
reputação dilacerada pelo apoio que prestaram, ou seja, não se
pode atribuir ao bolsonarismo o exemplo de mecenas cultural.
Então,
não sendo o bolsonarismo um movimento político-ideológico e nem
cultural, o quê explicaria a quantidade de votos recebida nas urnas,
mesmo após a condução desastrosa do combate a pandemia, o descaso
com a preservação do meio ambiente, as agressões contra mulheres e
negros, a aversão ao homossexualismo e a incompetência na condução
econômica que levou ao empobrecimento do brasileiro? É óbvio que
não se pode atribuir uma única causa para o crescimento do
bolsonarismo com representante da extrema-direita brasileira, mas se
pode atribuir uma hierarquia de fatores, observando o surgimento do
nazifascismo no Século XX na Europa e o ressurgimento com força
política ainda no Século XXI. Assim, visando tornar mais enxuta
esta análise, aponta-se aqui três principais motivações: a)
Empobrecimento da classe média; b) Baixo nível educacional e
cultural da população; c) Pânico moral semeado por religiosos
ligados a política e corroborado por mentiras (fake news)
distribuídas pelas redes sociais.
No
Brasil para ser considerado rico, segundo estudos do IBGE, é
necessária uma renda mensal igual ou maior 23,6 salários-mínimos
(R$ 28.603,20), mas somente 1% da população ocupa esta renda.
Considerando que em torno de 40% dos brasileiros recebem
aproximadamente um salário-mínimo (R$ 1.212,00), a classe média
fica espremida em uma faixa ao redor de 10% da população, sendo os
50% restantes com rendimentos abaixo de mil reais. O Brasil é um
país com uma péssima distribuição de renda, combinando inflação,
juros altos e endividamento da população. Portanto, uma massa maior
de brasileiros contida nessa classe média é mais sensível ao
descontrole da economia e a sua crítica política está muito
associada com a percepção de destruição de seu padrão de vida.
Aumentos recentes de energia elétrica, combustíveis e alimentos
refletem em muito no sentimento de queda do poder aquisitivo. Por
outro lado, quando se observa a nível educacional do brasileiro, o
IBGE-PNAD aponta que mais da metade das pessoas de 25 anos ou mais
não completaram o ensino médio. Essa mesma pesquisa indica que:
“Das 50 milhões de pessoas de 14 a 29 anos do país, 20,2% (ou
10,1 milhões) não completaram alguma das etapas da educação
básica, seja por terem abandonado a escola, seja por nunca a terem
frequentado. Desse total, 71,7% eram pretos ou pardos”. Porém, se
os dados quantitativos de nossa educação assustam, quando passamos
a olhar os nossos dados qualitativos não temos nada a comemorar. No
Pisa, que é uma avaliação educacional internacional para
compreensão de ciências, leitura e matemática entre estudantes de
15 anos de idade, o jovem brasileiro ficou na 57o posição
do ranking, atrás do Chile, Uruguai, Costa Rica e México, somente
citando os latino-americanos. Os impactos da pandemia do covid-19
ainda estão sendo tabulados no Censo Demográfico 2022, mas
projeções de aumento de evasão escolar e queda no nível dos
conteúdos apreendidos já são esperados.
O
último tópico desta nossa análise carece de um parágrafo
exclusivo, pois as notícias falsas gerando desinformação e medo
foram bastantes comentadas e combatidas pela Justiça Eleitoral nessa
última eleição. Por óbvio, indivíduos com deficiência
intelectual, que prejudica o senso crítico, são mais propensos a
acreditar em teorias conspiratórias e pseudociências,
principalmente quando estão em grupos, seja quando propagadas em
púlpitos de igrejas, ou virtualmente pelas redes sociais, nas quais
ambas têm uma audiência cativa. Na igreja, por meio de professos
que usam de sua respeitabilidade para o proselitismo político,
mesclado com “dogmas de fé”, cria-se o pânico moral e
religiosos doutrinam suas “ovelhas” de acordo com os seus
interesses não declarados. Nas redes sociais, por meio de
algorítimo, que cercam as pessoas sempre do mais do mesmo,
alimentando-as somente de assuntos de sua predileção e não
oferecendo uma visão ampla sobre determinado tema. Não por acaso,
todas as atrocidades cometidas pela extrema-direita brasileira na
pandemia foram relativizadas pelas pseudociências propagadas entre
fiéis e nas redes sociais. No entanto, não é possível afirmar que
a adesão do obscurantismo e de doutrinas anticristãs, mesma quando
vindas de crentes, possa ser atribuída à religião. Pois, naquelas
denominações religiosas nas quais o rito está mais presente na
celebração e mais concentrado no Evangelho, não se vê tanta
adesão ao canto da sereia do extremismo nazifascista. As correntes
carismáticas, tanto na igreja católica quanto nas neopentecostais,
deixam-se mais facilmente seduzir pelo lema “deus, pátria e
família” sem perceber, ou desconhecer, que sua origem vem do
fascismo.
Patinamos
no subdesenvolvimento e assim permaneceremos se não entregarmos uma
educação de qualidade a nossa juventude. O aumento do senso
crítico, advindo do crescimento intelectual, não vêm para afastar
o indivíduo de Deus, mas para afastá-lo dos estelionatários da fé
alheia. O combate as mentiras difundidas nas redes sociais não é um
atentado a liberdade de expressão, ou tem qualquer semelhança com
censura, pois qualquer conteúdo que seja usado para enganar rouba do
cidadão o seu senso crítico. O problema da classe média não deve
ser resolvido por espoliar ainda mais os 50% mais empobrecidos, pois
esses não tem mais de onde tirar e já estão na fila do osso e da
carcaça de frango. A classe média deve olhar para o 1% dos mais
ricos e perguntar-se como chegamos a ser um país tão desigual e
qual esforços serão necessários para reduzir esta desigualdade.
Parece
tão simples a compreensão daquilo que nos falta, ao mesmo tempo
tudo nos faz tão distante de compreendermos aquilo que nos cerca.
Esta análise não se esgota nas premissas aqui expostas, nem está
concluso no silogismo que a representa, porém pode ser um ponto de
partida para a compreensão de como poderemos sepultar no Brasil as
tentativas de recriar um fascismo mortal, racista, homofóbico,
misógino, anacrônico e mofado.
João
Lago