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domingo, 23 de janeiro de 2022

O Brasil profundo e nossa cultura de massa

Há vários tipos de Reality Show e a própria definição deste tipo de entretenimento importado da língua inglesa pode ser confusa aqui no Brasil. Na busca de elucidar o termo, o dicionário Cambridge define Reality Show como “um programa televisivo abordando pessoas comuns que são filmadas em situações reais”. No entanto, existe uma variedade desses tipos de programas que utilizam “famosos” e/ou pessoas comuns entre os participantes invalidando a definição da língua inglesa. Porém, é verdade que as aspas em famosos é uma provocação, porque alguns assim chamados são conhecidos em um nicho específico com pouca ou quase nenhuma penetração na Cultura de Massa.

O termo Cultura de Massa por ser compreendido como a mercantilização da cultura, na qual a produção de bens e serviços alicerçam-se em ícones culturais que alcancem uma grande parcela da população buscando o lucro. Existem melhores e mais bem elaboradas definições de Cultura de Massa a partir das ideias de Theodor Adorno e Max Horkheimer, mas esta minha síntese vai ao encontro de nossa compreensão como as redes sociais na internet hoje também produzem milionários que falam para um universo específico, não mais para uma grande população.

Existem ao redor do mundo várias versões do The Voice, programa considerado reality show com inspiração nos antigos programas de calouros, reunindo personalidades da música para serem escolhidos como mentores por cantores amadores. No The Voice Portugal, um país de população de pouco mais de dez milhões de habitantes, tem como mentores Antônio Zambujo, Marisa Liz, Diogo Piçarra e Áurea Sousa que juntos tem 1,35 milhão de seguidores na rede social Instagram. No entanto, comparando com o similar brasileiro de Iza, Lulu Santos, Carlinhos Brown e Cláudia Leite que juntos tem 41,8 milhões de seguidores, ou seja, quatro vezes a população de Portugal, tal feito os transformariam em fenômenos culturais na língua portuguesa. Porém, se analisarmos pela população do Brasil os mentores brasileiros possuem apenas 19% de nossa totalidade demográfica.

Antônio Zambujo, em uma entrevista dada ao Diário de Notícias em agosto de 2017, quando perguntado se existia alguma influência da música portuguesa no Brasil respondeu: “Não, é residual. Tocamos lá muito, todos os anos vou lá três ou quatro vezes fazer uns concertos e digressões, tenho tido público mas também a perfeita noção de que quem me escuta no Brasil é um nicho. A vantagem é que um nicho no Brasil é provavelmente o número de habitantes de Portugal. No Brasil há 200 milhões a falar a língua portuguesa e isso devia ser aproveitado, mas não há forma porque é um país exportador de música e não um importador”. Usando as palavras de Zambujo fico feliz em participar desse nicho no qual se incluem as estrelas Carminho, Luísa e Salvador Sobral que aconselho conhecerem.

No mais famoso reality show que iniciou neste ano foram indicados como “famosos” Jade Picon, Pedro Scooby, Lin da Quebrada dentre outros. Dessa lista retirando o neto do Silvio Santos e a cantora sertaneja que ganhou os holofotes no funeral da Marília Mendonça, arrisco dizer que a maioria dessas “personalidades” habita nesse nicho brasileiro a qual se referiu Antônio Zambujo. Porém, não devemos menosprezar que conseguem enriquecer atuando junto ao público que conquistaram e participarem de um programa televiso, com penetração em todas as redes sociais, pode ser o que faltava para estourarem a bolha na qual se encontram e enriquecerem ainda mais.

Infelizmente personalidades como Carminho, Antônio Zambujo, Salvador Sobral e outros citados, vão continuar atuando e encantando esse nicho que se encontra aqui do outro lado do Atlântico, não por insuficiência artística, mas porque a principal bolha que não conseguem romper é a de nosso gosto pela futilidade e apego a ignorância. Assim, sejam bem vindos Jade Picon, Pedro Scooby, Lin da Quebrada, Douglas Silva, Arthur Aguiar, Maria, Bruna Gonçalves, Paulo André Camilo, Tiago Abravanel e Naiara Azevedo. O Brasil profundo vos merece.

João Lago.


quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Fechamento da Campanha Amigos Solidários 2021 - Prestação de contas aos doadores

Apresentamos a nossa prestação de contas da campanha NATAL AMIGOS SOLIDÁRIOS 2021.

Neste ano de 2021 ao invés de comprar a cesta pronta optamos por fazer cotação dos itens que a compõe e fazer pesquisa de preços em vários supermercados/atacadistas na cidade de Manaus. O resultado dessa pesquisa está na tabela abaixo:


O valor de uma cesta básica pronta mais em conta foi cotada em R$ 59,99


Dessa cesta retiramos o refrigerante e acrescentamos 2 latas de sardinha e 1 molho de tomate, portanto uma cesta com mais itens e em média R$ 4,74 mais barata.

Abaixo a lista de doadores e o valor arrecadado.



O valor recebido em dinheiro, pelo valor médio cotado da cesta básica, daria somente para comprar 50 cestas. Portanto, o recebimento de doações de produtos in natura foi muito importante para compor mais 15 cestas adicionais. Os produtos doados serviram para diminuir a necessidade de compra de itens da cesta que direcionou os valores doados para comprar somente as quantidades de produtos faltantes.

A lista de doadores de produtos in natura está abaixo. Os produtos doados para efeito contábil foram atribuídos valores correspondente aos itens cotados.



A soma do valor doado em dinheiro e dos valores doados em produto é igual a R$ 3.445,08 que dividios pelo valor médio das cestas de R$55,25 totaliza 62 (sessenta e duas cestas). Como recebemos a doação de 03 (três) cestas fechadas de um amigo que pediu para permanecer anônimo, fechamos a quantidade de 65 (sessenta e cinco) cestas prontas para doação.

Abaixo as notas fiscais de compras:
























Assim, fechamos nossa campanha agradecendo a todos os doadores e a aqueles que doaram seu tempo, seus recursos para o transporte das cestas até a comunidade, em especial a Gabriel Nicolau pelo empréstimo da Fiorino e por ter conduzido pessoalmente o veículos até o local da entrega. Agradecemos também o Alfredo Aguiar, Nazaré Lago, Lívia Lago e João Alfredo Lago que ajudaram no carregamento e entrega das cestas no local. Agradecemos ainda a Sra. Jane da Comunidade de Itaporanga que nos ajudou a escolher as famílias em suas necessidades.

Agradecemos ainda a Denis Taumaturgo que fez nossa ponte com a Fundação Amazônia Sustentável para doação de produtos.

Finalizamos agradecendo a Deus e aos amigos que Ele nos envia todos os anos para que possamos espalhar o seu amor aos mais necessitados.

Um feliz Natal e um próspero ano novo de 2022.

AMIGOS SOLIDÁRIOS

terça-feira, 12 de outubro de 2021

A destruição do Templo da Decência


Muitos dos complexos e das síndromes são inspirados na mitologia grega como o complexo de Édipo e a síndrome de Cassandra. Porém, existe um distúrbio em especial que não vem de uma alegoria, mas de um fato histórico. É justamente sobre o complexo de Heróstrato, ainda não tão conhecido, que esta resenha abordará.

Na Grécia antiga, uma das setes maravilhas do mundo antigo era o Templo de Ártemis, deusa grega da caça e da vida selvagem. Foi o poeta e escritor grego Antípatro que no século 2 a. C. fez a famosa lista que também incluía as pirâmides do Egito, as muralhas da China e outras cinco que já não existem mais. Antípatro descreveu o templo de Ártemis como uma edificação maravilhosa, possuindo cento e vinte e sete colunas em mármore com vinte metros de altura cada uma. Em seu interior uma estátua grandiosa em ébano da deusa Ártemis, com teto de madeira e inúmeras esculturas ornando o local. Assim, de tão belo o templo a deusa grega da caça era uma atração turística que encantava viajantes na antiguidade, até que um delinquente narcisista, chamado Heróstrato, resolveu colocar fogo na edificação com o objetivo de tornar-se famoso e ser lembrado pelos séculos como o homem que destruiu uma maravilha arquitetônica. Aliás, o narcisismo é um outro distúrbio psicológico também inspirado na mitologia grega que retrata alguém que ama tanto a si próprio que frequentemente cultua um exibicionismo excessivo.

Heróstrato não somente foi condenado à morte, mas também sentenciado ao esquecimento com a proibição da menção de seu nome. Os juízes que o condenaram temiam que outros surgissem com igual objetivo, mas Heróstrato não pode deixar de ser citado pelo historiador Teopompo e tanto entrou nos anais da história como um demente narcisista, quanto inspirou a psicanálise a nomear uma síndrome que leva o seu nome e que descreve indivíduos que cometem atrocidades com o objetivo de ser lembrados na posteridade. Entretanto, Heróstrato não está só nessa imensa lista de seres abjetos que cometem barbaridades e em um breve exercício de lembrança surgem nomes como Nero, Calígula, Vlad III (o empalador), Hitler, Jim Jones, Charles Manson, Osama Bin Laden entre tantos outros que ainda habitam este chão e que estão nas cadeias mundo afora. É certo que nem todos tinham a mesma motivação de Heróstrato quando cometeram seus crimes, apesar que cada um será lembrado por suas atrocidades.

O Brasil já algum tempo vem sofrendo carência de bons exemplos, ou seja, hoje não existem unanimidades na política, artes, ciências, esportes e negócios que possam ser citados como sinônimos de honestidade, inteligência, bondade, humildade, responsabilidade, coragem ou qualquer outra virtude que os identifiquem. Infelizmente, aparentemente a maioria dos ícones que abarcam duas ou mais virtudes citadas já estejam mortos e não sei se a taxa de reposição de pessoas boas é tão baixa que os indivíduos torpes vem ocupando todos os espaços possíveis. A pergunta que deve ser feita é onde foram parar os homens de bem? Talvez devêssemos resgatar a lanterna de Diógenes e buscar entre nós indivíduos que fossem indiferentes ao luxo, conforto e de todas as exterioridades que corrompem a integridade humana. No entanto, vivemos em uma sociedade que cultua o hedonismo, em uma urgente necessidade de satisfação dos prazeres, ainda que isto signifique cometer ilícitos, ou mesmo passar por cima de direitos de terceiros. Neste sentido, as redes sociais servem com vitrine para toda a espécie de ignomínia, desde bandidos exibindo vidas luxuosas a partir dos ganhos de seus crimes, ou mesmo indivíduos (conhecidos ou anônimos) usando a internet para expor homofobia, racismo, xenofobia, misoginia e toda sorte de desvio ético e moral.

A conclusão que podemos chegar é que o cansaço com o “politicamente correto” produziu na população uma tolerância em relação aqueles que se opõem a qualquer princípio civilizatório básico, inclusive permitindo que uma minoria torpe saísse das sombras e passasse a orgulhar-se de suas infâmias. Lamentavelmente, muitos desses indivíduos estão ocupando postos chaves na administração pública e boa parte da pauta nacional está deslocada para combater suas iniquidades enquanto que a vida dos brasileiros estão sendo afetadas com inflação, desemprego e fome.

Herotrástos estão no meio de nós e por não terem nada de bom a oferecer desejam simplesmente destruir tudo o que encontram pela frente. Deixam em ruínas um país e colocam o seu nome no panteão do abjeto sob o olhar passivo dos brasileiros de bem que absurdamente parecem ter abdicado do protagonismo. Talvez, contrário ao que se possa pensar, os bons sejam minoria e insistimos em acreditar que possam ser muitos, mas ainda existe a esperança que apenas estejam adormecidos a espera da chama de Diógenes. Não nos custa nada tentar acendê-la.

João Lago

domingo, 19 de setembro de 2021

Virando a página

Seria uma felicidade humana se todos os caminhos iniciados na vida fossem imutáveis, perpétuos e repletos de prazer. No entanto, sabemos que não é assim, porque empreendedores vão falência, o empregado é demitido, cursos na metade são abandonados e os relacionamentos amorosos são desfeitos, todos trazendo muito sofrimento a depender da expectativa inicial em relação ao tamanho da frustração em ser forçado a abandonar o que iniciou como uma conquista ou projeto de vida.

Vivemos em uma sociedade na qual o sucesso é condição essencial para ser feliz e hoje as redes sociais servem como vitrine para essa felicidade. Essa exposição do privado traz angústia quando as coisas não caminham para uma publicação feliz nos “stories”, pois se antes a preocupação era a vergonha de admitir o infortúnio em família, do tipo “o que eu vou dizer lá em casa”, com as redes sociais é expor o fracasso para um universo de pessoas não tão íntimas. Eu sou de uma geração que viveu mais de trinta anos de sua vida sem as redes sociais e quando as coisas não iam lá muito bem a comunicação não era instantânea e poucas eram as pessoas que recebiam as más notícias. Era comum toparmos nas ruas com algum conhecido e haver esse tipo de conversa:

- Você tem visto a fulana?

- Tu não sabes menina? Ela separou do marido! Ele amigou com a empregada da família vinte anos mais nova que ela. Um escândalo!

As redes sociais como Facebook, Instagram, Linkedin etc., são os fofoqueiros de plantão que são alimentados pelo próprio indivíduo que ´publica o fim do relacionamento, a perda do emprego, o fracasso nos negócios. No entanto, ainda que não se publique esses fatos, existem detetives virtuais que atuam como verdadeiros Sherlock Holmes atentos para uma eventual ausência de publicações ou analisam detalhadamente as declarações ou fotos publicadas buscando ver o quê foi apagado, ou quem foi “deletado” e “cancelado”. A depender das condições traumáticas que envolvem os eventos infelizes, talvez o que se menos deseje é dar publicidade aos mesmos. Porém, não me considero radicalmente contra as redes sociais, mas acredito que antes de fazê-las o diário de sua vida deva-se sopesar os riscos emocionais de uma vida exposta.

Virar a página não é uma tarefa fácil quando além do dissabor vem junto a negação, vergonha, melancolia e o medo do futuro, quando a vida parece perder o sentido e fica-se tão preso ao presente e nada, absolutamente nada, parece ser capaz de trazer de volta a autoestima. A psicóloga suíça naturalizada americana Elisabeth Kübler-Ross desenvolveu um trabalho brilhante sobre as etapas do lutos, descrevendo-as como negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Conceitualmente a descrição de cada um sentimento que envolve uma perda até a última fase aceitação parece bastante factível, mas discordo que a psique humana possa respeitar sistemas estanques tão bem definidos. Duas décadas antes de Kübler-Ross, o psicólogo americano Abraham Maslow também buscou hierarquizar as necessidades humanas em básicas, psicológicas e de realização pessoal, mas ambas as abordagens ignoram que os sentimentos são matizes que podem reunir duas ou mais etapas de qualquer hierarquização. Significa que no luto podem vir juntas a negação, raiva e depressão, assim como alguém que não tenha suas necessidades básicas supridas, ainda assim em algum aspecto de sua vida sinta-se realizado. No entanto, o tempo é a peça chave para transpor as fases do luto e pode ser considerado doença da alma caso o sofrimento se prolongue por muito tempo, ou em outras palavras, até que se possa virar a página.

O luto pela perda do emprego, do fracasso nos negócios ou pelo fim de um relacionamento são equivalentes a depender do desequilíbrio que trazem para nossas vidas. Há pessoas que reagem bem passando pelo luto e logo estão novamente a planejar uma nova trajetória de vida, reinventando-se face as oportunidades que surgem ou são criadas. Por outro lado, há pessoas que não conseguem reagir e vão precisar de ajuda para novamente sentirem-se bem consigo mesmas e não há uma fórmula mágica para isso. Portanto, não tem este texto a pretensão de ser um manual para solução desses problemas.

Virar a página passa pela aceitação que não somos capazes de controlar os acontecimentos que não dependem de nossos próprios esforços. Assim, por mais que sejamos otimistas, faz parte de um exercício de autoconhecimento nos colocarmos mentalmente enfrentando o que mais nos pode angustiar, mesmo que a nossa avaliação coloque como remota a possibilidade desse evento ruim acontecer. Nesses casos, deve-se buscar a constante capacitação profissional enquanto empregado ou empreendendo, ou engajar-se em atividades que aumentem a autoestima mesmo durante um relacionamento amoroso feliz. Muitos deixam para buscar essas coisas após o fracasso e outros sequer conseguem movimentar-se para tal e caem em depressão. Virar a página não se traduz em ações que são tomadas após o evento infeliz, mas o quanto nos preparamos para enfrentar essas decepções. Pegar em uma enxada para quem nunca trabalhou no campo traz calos dolorosos, mas se deixamos antecipadamente as mãos bem calejadas o trabalho braçal até poderá ser extenuante, mas não será de tão grande sofrimento.

Como dito anteriormente não há uma fórmula mágica para evitar sofrimentos que levem a depressão, mas o exercício de valorizar o que mais é importante em nossa vida e nos imaginarmos sem pode atuar tal como uma vacina na criação de anticorpos, neste caso, de imunidades emocionais.

João Lago

domingo, 12 de setembro de 2021

A viagem em busca do amor

Amor, quatro letras cujo significado já foi tão explorado por poetas, filósofos, religiosos, psicanalistas, porém essa expressão do sentimento humano ainda parece tão carente de explicação. Poderia começar a destrinchar o amor pelo significado platônico, daquele que somente ama o que verdadeiramente não possui. O amor invejoso que deseja ardentemente o que não é seu, mas, da mesma forma que anseia, o abandona tão rapidamente ao possui-lo. O amor efêmero da paixão fugaz que evapora como água ao sol escaldante do egoísmo. No entanto, amar dessa maneira não explicaria corretamente aquele amor duradouro e desinteressado.

O filósofo Aristóteles, ao contrário de Platão, não tratou explicitamente o significado do amor, mas abordou a felicidade humana como um processo do equilíbrio entre o abundante e o escasso. Desta forma, o amor momentâneo de Platão daria lugar a uma atitude racional em colocar significado ao que deseja a fim de alcançar a felicidade, pois o ser humano em desequilíbrio no que ambiciona jamais encontrará a felicidade. No entanto, alguém poderia dizer que essa tentativa de racionalizar os desejos levaria a um amor repleto de hipocrisia. Talvez, a frustração de quem possa imaginar que a busca do equilíbrio esteja errada, porque jamais em sua vida fez uma reflexão profunda do que deseja para si na máxima socrática: “conhece a ti mesmo” no que vou tentar exemplificar com uma experiência pessoal.

Aos dezoito anos sai de Manaus muito cheio de sonhos em realizações pessoais e fui para Boa Vista – Roraima. Era a minha primeira experiência em sustentar-me como o meu trabalho e sem qualquer ajuda de terceiros. Coisas simples como pagar o aluguel, as contas da casa, alimentar-me e, sempre que possível, gozar algum lazer. Os bens materiais logicamente permeiam os desejos de sucesso e que mais queria é ter um automóvel, mas não poderia ser qualquer carro. Teria que ser aquele considerado o melhor em sua categoria e um dia expressei esse desejo a um amigo já em situação financeira bem melhor que a minha. Contudo, no lugar de concordar comigo, disse-me que o seu sonho era possuir um mais básico da categoria e via brilho em seus olhos. Duvidei e perguntei, com tantas opções melhores de veículo, qual o sentido em escolher o mais básico e sem muitos opcionais, ao que me respondeu: “porque esse eu vou conseguir comprar”. Nessa época, ainda pouco conhecia da vida e o meu interesse pela filosofia era uma tábua rasa, mas imediatamente percebi que a felicidade está em valorizar o acessível a partir da racionalização de nossas expectativas. Saber quem eu sou, do que sou capaz e buscar a felicidade a partir das minhas escolhas, mesmo que não sejam aquelas que os outros possam valorizar.

O amor aristotélico é norteado pelas virtudes nas quais não se ama o inalcançável, mas a quem (ou aquilo) que nos possa trazer felicidade. Assim, nas relações afetivas também o amor passa por um processo racional na qual a estética seja o menos importante e neste caso acredito que algumas mulheres acertam ao definir (melhor do que os homens) o objeto de seus desejos. Algumas nomeiam como o homem ideal alguém que seja divertido, honesto, trabalhador, fiel e muito superficialmente abordam aspectos físicos, É bem verdade que jamais estarei presente em uma reunião só de mulheres para ter certeza que são essas as qualidades desejadas, mas são as que algumas socialmente expressam. No entanto, em reuniões masculinas o que menos interessa são as virtudes de uma mulher quando o assunto é desejo. O correto no sentido do amor aristotélico seria o homem amar não a beleza de uma mulher, mas suas virtudes porque essas não se esvaem com o tempo. A bem da verdade, toda a beleza é efêmera (feminina ou masculina) é isso já está no senso comum.


Não poderia finalizar este breve ensaio sobre o amor sem abordar Paulo de Tarso em I Coríntios 13, que corresponde ao amor Ágape. Talvez, para diferenciá-lo de um sentimento mundano, a versão católica do texto sagrado tenha substituído amor por caridade. Ainda assim, não tira a beleza que o apóstolo Paulo confere ao amor pregado por Cristo que faz da verdadeira felicidade aquela capaz de fazer bem ao outro. Amar desta maneira, como Jesus amou, vai além da ética de Aristóteles, Sócrates e Platão baseada no hedonismo ou nas virtudes, pois o amor verdadeiro em Cristo é desinteressado do sujeito passivo da ação de amar. Para ser mais claro, não se espera nada em troca daquele que se ama. Infelizmente o amor Ágape parece uma ficção, mas são as utopias que nos apontam como os conflitos humanos nos distanciam do ideal, neste caso do amor verdeiro.

O amor é como a bagagem de um viajante que não cabe muita coisa, portanto a depender do objetivo da jornada às vezes leva-se somente o necessário para bem aproveitá-la. Se for para diversão levamos na mala uma boa quantidade de desejos hedônicos não tão compromissados com as virtudes. No entanto, se o objetivo da viagem for a busca de uma felicidade duradoura, o que mais pesará na bagagem serão as virtudes e o desejo de fazer feliz ao outro. Assim, antes de escolher um companheiro para uma viagem pergunte o que ele está carregando em sua mala, pois a depender da resposta talvez se evite uma grande frustração.

João Lago

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

O Grande Golpe

Bolsonaro encerrou sua carreira como militar após ser acusado de planejar atentados que visavam aumentar os salários de militares como ele. Além de colocar bombas em quartéis, planejou explodir a adutora de Gandú que abastece até hoje de água potável a cidade do Rio de Janeiro. Na época foi encontrado um croqui com todo o esquema criminoso, cuja grafia foi atribuída a Jair Bolsonaro. No entanto, apesar do laudo da Polícia Federal atestar como de Bolsonaro os grotescos desenhos, o então capitão do exército foi absolvido pelo Superior Tribunal Militar – STM em junho de 1988. Em entrevista ao Portal G1 em 31 de julho de 2019, o jornalista Luiz Maklouf, autor do livro O Cadete e o Capitão, relata que a aversão que os militares do STM tinham da imprensa foi decisiva para a absolver Jair Bolsonaro. No entanto, todo esse processo que se instalou contra Bolsonaro no STM não se originou de um bombástico jornalismo investigativo, mas a partir de uma entrevista que o então capitão deu voluntariamente a Revista Veja. Logicamente, covardemente o capitão no julgamento negou sua participação e os militares em um misto de espírito de corpo e ojeriza a imprensa absolveram o protótipo de talibã. Ao final, Bolsonaro tornou-se um “mito” para os militares de baixa patente e foram esses que o elegeram pela primeira vez como vereador do Rio de Janeiro nas eleições de 1988.

Com um cargo eletivo Bolsonaro fugiu da carreira militar como o seu próprio filho relatou na biografia do pai (Mito ou Verdade: Jair Messias Bolsonaro) na qual afirmou: “foi candidato a vereador porque calhou de ser a única opção que possuía no momento para evitar que fosse vítima de perseguição por parte de alguns superiores”. Na política Bolsonaro entrou e nunca mais saiu, sendo sempre um político temático, ligado a um eleitorado cativo de policiais civis, militares e adotando um discurso de desprezo pela vida e ao estado democrático de direito. Uma demonstração disso é a entrevista que o então deputado federal Bolsonaro deu ao programa Câmara aberta da TV bandeirantes em 1999 dizendo: “o voto não vai mudar nada no Brasil (…) só vai mudar quando partirmos para uma guerra civil, fazendo um trabalho que o regime militar não fez, matando uns trinta mil”. Esse ódio beligerante que Bolsonaro carrega o fez aproximar-se policiais milicianos e participantes de grupo de extermínio como já amplamente divulgado pela imprensa. Aliás, a imprensa hoje é o calcanhar de aquiles do presidente, por expor todo o seu desgoverno na economia, na política e no combate a pandemia de covid-19. Tanto que constantemente ofende jornalistas, inclusive incitando o ódio de seus seguidores contra os tradicionais veículos de comunicação.

A incapacidade de Bolsonaro, desde o início de seu governo, em conviver com opiniões divergentes o fizeram expurgar vários colaboradores e companheiros de campanha ao longo do tempo. A lista é extensa e inclui governadores, deputados, militares e grande parte do eleitorado que o elegeu em 2018 já abandonou o barco do bolsonarismo, conforme demonstrado em todas as recentes pesquisas de opinião. No entanto, mesmo que o conjunto da obra demonstre que a politica do confronto permanente é a razão do fracasso desse governo, Bolsonaro não consegue sair do círculo vicioso de crises que alimenta sua base alienada e sedenta de ódio. Neste sentido, vemos líderes religiosos, que encontraram guarida de sua intolerância no bolsonarismo, agindo como jihadistas lançando fatah (guerra santa) contra o feminismo, em desfavor dos direitos de homossexuais e de intransigência pelas religiões de matrizes africanas como forma de reafirmação de dogmas medievais. Esses fariseus estimulam seus fiéis a participarem dos atos antidemocráticos programados para sete de setembro porque veem em Bolsonaro um igual. Somam-se a esses os saudosistas da ditadura militar que ainda vivem em plena Guerra Fria porque desconhecem que o muro de Berlim deixou de existir em 1989. Para esses a ameaça comunista é tão real quanto a certeza que a Terra é plana.

Bolsonaro sempre demonstrou um comportamento perigosamente amalucado e desde o início de sua carreira militar, política deixou claro que o seu maior incomodo era ganhar pouco. Porém, foi exitoso em enriquecer com supostos desvios de verbas de gabinete, como evidenciam todas as denúncias de peculato que hoje tramitam na justiça. Neste sentido, Bolsonaro poderia aposentar-se na política sendo o que é para o seu eleitorado fluminense igualmente amalucado, miliciano e fanático religioso, mas coube a uma facada e aos erros dos governos Lula e Dilma colocá-lo com uma alternativa viável contra o antipetismo. Infelizmente Bolsonaro foi eleito e no atual momento político não tem nada a perder, pois está cada vez mais evidente que fora da presidência o que lhe aguarda é a prisão. Assim, a única alternativa que tem é promover um golpe, não para proteger o Brasil de uma ameaça comunista destruidora do capitalismo e da tradicional família brasileira, mas para tentar varrer para debaixo do tapete toda a podridão de décadas de sucesso financeiro de um político típico do Centrão.

João Lago