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quarta-feira, 17 de março de 2021

O médico e o monstro


Certamente devo ter tomado conhecimento da existência de Mr. Hyde nos desenhos do Pernalonga, no qual o dócil doutor Jekyll, que o coelho conheceu no parque, o leva para casa para alimentá-lo. Chegando na casa do médico, após tomar uma poção de laboratório, o amável doutor Jekyll transforma-se em um monstro. O desenho animado inspirou-se no livro chamado O Estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde de autoria de Robert Louis Stevenson, publicado em 1886, que narra a obstinação do doutor Jekyll em provar a teoria que a bondade e a perversidade reside em qualquer pessoa, mesmo naquelas mais cordatas. Assim, para provar sua teoria, cria uma poção que quando ele mesmo a toma o transforma em um monstro, cuja personalidade é assumida como Mr. Hyde.

Muito provavelmente Stevenson tomou conhecimento do famoso caso do francês Louis Vivet que foi o primeiro indivíduo a ser diagnosticado com Transtorno Dissociativo de Identidade em 1885, condição mental que leva a dupla (ou múltiplas) personalidades. Poderá ter sido uma coincidência, mas a partir da obra de Stevenson essa pertubação psicológica inspirou inúmeras obras, sendo uma das mais famosas o filme Psicose de Alfred Hitchcock. O enredo é o mesmo, o jovem tímido e aparentemente inofensivo, chamado Norman Bates, assume a personalidade perversa da mãe para cometer assassinato. Essa obra-prima cinematográfica de Hitchcock é de 1960.

O governo Bolsonaro, em pouco mais de dois anos de governo, já trocou três vezes de ministro da saúde e novamente o faz no pior momento da pandemia. Provavelmente passaremos de 300 mil mortos antes do final de março. No entanto, devemos abstrair dessa estatística funesta e buscar identificar entre esses números um pai, uma mãe, um avô, uma avó, um irmão, uma irmã, um amigo, uma amiga, uma pessoa muito querida. A cada centenas de mortes diárias são famílias que choram e enterram seus mortos, muitos sem direito a velório, ou despedidas em cemitérios. Até o abraço fraterno e o enxugar das lágrimas alheias tem o potencial perigo de transmissão do vírus. Vivemos na mais mortal pandemia e ainda tem gente que faz pouco caso disso.

O general Eduardo Pazuello sai do Ministério da Saúde com o aumento de mortes em todos o Brasil e pelo iminente colapso em, pelo menos, vinte cinco unidades da federação. Em situação melhor, mas não confortável, estão somente o Amazonas e o Rio de Janeiro. O Amazonas colapsou em janeiro por falta de oxigênio e Rondônia e o Acre prenunciam que os estoques de oxigênio podem acabar nos próximos treze dias. O problema é idêntico para todos: a demanda é maior que a oferta e em algum momento dessa curva o ponto de convergência é a escassez. No entanto, não é somente oxigênio que preocupa, mas todos os insumos que são essenciais nas UTIs e o exemplo disso é a aquisição emergencial de bloqueadores neuromusculares e anestésicos para a realização de entubação de pacientes em tratamento contra a Covid-19 em Santa Catarina. Se não forem mapeados todos os insumos essenciais para o funcionamento das UTIs e com o aumento da demanda em todo o país, brevemente não será somente oxigênio, nem a falta de leitos que farão os brasileiros morrerem sem assistência médica.

Com a vacinação caminhando a passos trôpegos e com a perspectiva que nessa toada somente em 2024 tenhamos vacinado toda a nossa população adulta, a única alternativa que nos resta é controlar a circulação de pessoas nas cidades e enfatizar o uso de máscara (de forma correta), da higienização das mãos e do distanciamento social. Porém, essas medidas simples esbarram no comportamento negacionista de Jair Bolsonaro, no qual reside a dúvida que com a saída de Pazuello alguma coisa possa mudar em sua atitude, ou veremos o mais do mesmo.

Sai o general e entra o médico Marcelo Queiroga, cardiologista renomado entre os seus pares, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia e que durante essa pandemia já tomou a vacina e defendeu as medidas simples de prevenção já descritas aqui. Demonstra possuir uma alma cordial que agrada quem está a favor da ciência e é contra o negacionismo, mas infelizmente não sabemos o quanto da poção maldita produzida no Planalto que o cordato doutor já tomou. Resta a dúvida se no conflito de obedecer as ordens do monstro, ou seguir sua determinação de bom médico, qual dessas personalidades irá sobressair-se. Para o bem do povo brasileiro torço pelo doutor Jekyll.

João Lago

domingo, 14 de março de 2021

Sociopatia cristã


Estamos próximos a Páscoa e também aproxima-se a sexta-feira da Paixão, na qual os cristãos rememoram o martírio de Jesus Cristo. O cinema já colocou em suas telas várias versões da prisão, flagelo e morte de Cristo, sendo a mais brutal pelo realismo a adaptação de Mel Gilbson de 2004. Ainda que seja uma encenação de um fato histórico para o mundo cristão, muitas pessoas foram as lágrimas nas salas escuras como se realidade estivesse acontecendo diante de seus olhos. A esse sentimento denominamos empatia, ou seja, a capacidade de nos colocarmos na posição do outro e sentirmos as suas dores. Logicamente a mística relacionada a Paixão de Cristo, mesmo antes da invenção do cinema que tem pouco mais de cem anos, contribuiu para que a representação artística da história narrada nos Evangelhos seguissem comovendo e derramando lágrimas de fiéis. Então, o Brasil por ter uma população de maioria cristã deveria ser mais empático e solidário? Infelizmente não é bem assim.

A pandemia que nos assola demonstrou toda a nossa incapacidade de empatia com a dor do outro, ou como explicar que mesmo com os hospitais lotados ainda persista um comportamento irresponsável contra medidas simples, como usar máscara cobrindo o nariz e a boca, lavar as mãos e manter distanciamento social? Essa pretensa rebeldia só pode ser resultado de uma sociopatia coletiva, ou de ignorância combinada com desinformação. Digo isto porque vejo muita gente boa, que se apresenta como cristã, agir contra essas medidas de proteção, ser contra a vacina e ainda pior, acreditar em remédios que a pesquisa médica científica atesta que não servem para covid-19.

É certo que existem sociopatas entre nós e a literatura médica os descrevem muito bem. A revista eletrônica Insider de novembro de 2016, em seu artigo “The Hare Psychopathy Checklist': The test that will tell you if someone is a sociopath” lista vinte comportamentos que podem descrever um comportamento doentio. Não vou descrevê-los todos aqui, pois o texto original pode ser pesquisado no Google, mas posso adiantar que identificar mais de três dos comportamentos listados em qualquer indivíduo pode ser sinal de algo errado. No entanto, os sentimentos enumerados que motivam este texto são a “falta de sensibilidade e ausência de empatia”. Some-se qualquer outro como “apego com a mentira”, “não sentir remorso”, “ser um parasita”, “ausência de metas realistas de longo prazo” etc., podem acender o sinal de alerta para afastar-se dessa pessoa.

Nesse domingo (14/03), novamente em Manaus aconteceu manifestação contra as medidas de circulação de pessoas, promovendo aglomeração de muita gente sem máscara. Vale a pena lembrar que no dia 26 de dezembro do ano passado houve uma idêntica manifestação e o governador Wilson Lima flexibilizou as medidas restritivas e logo em seguida veio o colapso do sistema de saúde com o ingrediente macabro da falta de oxigênio nos hospitais. Centenas de pessoas morreram afogadas no seco sem o direito de lutarem pela vida. Porém, caso necessite ajuda para ser empático a quem não consegue respirar, prenda a respiração e tente permanecer assim por mais de trinta segundos. Muito provável antes de completar um minuto a boca seja aberta em busca de ar. Agora, imagine que mesmo abrindo bem a boca não venha ar e a pessoa continue sentido-se sufocada. Se após esse exercício mental, mesmo assim não venha a empatia por quem sofre com falta de ar neste momento nos hospitais, é bom observar se outros sinais de sociopatia aqui descritos possam ser identificados.

É provável que nem todos os que participam dessas passeatas sejam sociopatas, apenas tem um elevado grau de egoísmo, ou porque nenhum familiar que ame tenha morrido da maneira descrita. Um choque de realidade talvez seja necessário e essas pessoas sejam convidadas a conhecer a agonia nos hospitais, ou voluntariem-se no atendimento as famílias que passam por esse calvário. Quem sabe a dor do outro finalmente os façam abrir os olhos.

No entanto, alguns desses “cidadãos de bem” negacionistas e egoístas talvez nem colocar o seu dedo no buraco dos pregos e a mão no lado de Cristo seja suficiente. São sociopatas cristãos.

João Lago

terça-feira, 2 de março de 2021

Para não dizer que não falei de BBB


Em um vídeo o humorista Murilo Couto, comentando a eliminação de Karol Conká, ironizou que o ódio uniu os expectadores do programa Big Brother Brasil com uma votação recorde para a “rapper”, sendo o ódio mais eficiente que qualquer outro sentimento para engajar pessoas. Essa observação de Murilo Couto não é inédita, pois o escritor russo Anton Tchekhov, que escreveu sua obra nas três últimas décadas do Século XIX, já havia dito que: “nada une tão fortemente como o ódio - nem o amor, nem a amizade, nem a admiração”.

Pessoalmente não me agrada o formato do programa BBB, nem tão pouco o considero como um experimento que possa ser extrapolado para uma análise científica válida para explicar as inter-relações humanas, mesmo porque a produção do entretenimento manipula o comportamento dos participantes por meio de jogos e por disputas internas. No entanto, o que chama a minha atenção, ou desperta o meu interesse, não é que acontece no confinamento interesseiro, mas na reação que causou aqui fora com muita gente séria que analisa política falando de BBB.

Decidi dar minha contribuição ao debate não para comentar BBB, mas fazer uma análise a partir de Murilo Couto e Anton Tchechov que o ódio é o que permeia o discurso político que mais une as pessoas no Brasil. Trata-se de uma dicotomia da luta do bem contra o mal que divide pessoas em dois grupos: a) os amigos, aqueles que pensam igual a mim e; b) os inimigos quem não concorda comigo. Essa foi a estratégia política que venceu as eleições em 2018 e que passado dois anos ainda permanece. No entanto, da mesma forma que parcela da população ficou fatigada com o discurso do “politicamente correto”, agora se sente de saco cheio com a ideologização de qualquer comportamento. Por exemplo, quem apoia a vacina, o uso de máscaras, o distanciamento social e a quarentena como forma de combate a pandemia é chamado de esquerdista, mesmo que pese todas as evidências científicas que essas são as únicas medidas viáveis enquanto a maioria da população não seja vacinada. Assim, com a falta de união do povo brasileiro em torno da ciência chegamos a 250 mil mortos e estamos atrasados na vacinação da população. Sabe-se que o governo federal apostou errado quando apoiou tratamentos não referendados pela ciência e foi negligente e omisso nas medidas simples de combate a covid-19, tendo como garoto propaganda da proliferação do vírus o próprio Jair Bolsonaro. O presidente recusa-se a usar máscara, promove aglomerações por onde passa e critica governadores e prefeitos que, com as UTIs dos hospitais lotadas, restringem a circulação de pessoas e fecham o comércio e os serviços não essenciais buscando frear o avanço da pandemia e salvar vidas.

O Amazonas colapsou em janeiro deste ano com o surgimento de uma nova variante do vírus mais contagiosa que a de março de 2020 que já se espalhou pelo Brasil. As regiões sul e sudeste mais populosas já começam a sentir o efeito dessa mutação do vírus e já veem seus hospitais lotarem e correm para decretar quarentena severa à população. Porém, ignorando completamente os fatos, Jair Bolsonaro ameaça governadores e prefeitos em negar-lhes auxílio emergencial a população caso façam lockdown. É completamente irracional e desumano oferecer como única saída à população expor-se ao vírus e ver morrer conhecidos, amigos e familiares. Portanto, mesmo que Bolsonaro sinta-se incomodado em ser chamado de genocida age como tal.

Sinceramente não espero que Bolsonaro por intercessão das mãos dos líderes religiosos que ainda o apoiam seja convertido para um comportamento cristão. Ter sido batizado nas águas do Rio Jordão pelo pastor presidiário Everaldo parece não ter surgido qualquer efeito. Alguns outros religiosos continuam o apoio cego a Bolsonaro, como Silas Malafaia, que mesmo face ao estado crítico que se encontra os hospitais de Curitiba, reuniu no dia 25 de fevereiro centenas de fiéis em um culto que poderá favorecer a proliferação da covid-19.

Estamos divididos, porque faz parte da estratégia da manutenção do poder de Bolsonaro testar nossa resiliência, pois aposta vencer pelo cansaço ou pela ruptura institucional. Não é segredo que tem apreço pela ditadura militar e que sempre pregou a exterminação da oposição. Portanto, nessa luta entre o que seja o bem e o mal não há uma saída que não passe pelo amor, amizade e admiração. Ter amor pelo próximo, amizade com a verdade e admiração pela ciência.

João Lago.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Malícia


A visão que eu tenho do paraíso é antagônica daquela que expulsou Adão e Eva do jardim do Éden pela desobediência ao comer o fruto proibido. Afirmo isto porque a perda da inocência, ou melhor dizendo, a ascensão da malícia os fez perceber que estavam despedidos e o meu modelo mental de paraíso é justamente o retorno a uma visão não maliciosa de nós mesmos e dos outros.

Pensemos em alguém que podemos identificar como malicioso, ou maliiciosa, já que essa característica parece estar muito bem distribuída e equilibrada entre os dois sexos. Porém, antes de continuar a descrever minha visão de paraíso vejamos no dicionário a definição de “malícia”:

1. aptidão ou inclinação para fazer o mal; má índole; malignidade, maldade.
2. habilidade para enganar, despistar; astúcia, ardil, manha.

Agora que sabemos o significado lato de malícia imaginemos um local de total ausência de todos esses termos e eis aqui minha visão de paraíso, pois o fastio da malícia nos permitiria observar todas as manifestações humanas, inclusive a nossa, sem a inclinação para a perversidade. Assim, se ao comer o fruto proibido a nudez é motivo de lascívia, o meu retorno ao paraíso é aquela que não vê obscenidade no corpo humano e todas as taras perderiam os que as alimenta: a malícia.

No entanto, a malícia parece somente existir na vida em sociedade, pois acredito ser um pouco absurdo alguém ser malicioso consigo próprio. A maldade em si ocorre somente a partir de nossas relações com o mundo e o julgamento que fazemos daquilo que percebemos. Contudo, o julgamento malicioso não é a expressão da maldade enquanto restrita a simples manifestação da palavra, mas é maligna quando indutora de ações perversas e é bem verdade que todos nós carregamos malícias no pensamento e mente aquele que diz que não a tem. No entanto, o grande problema é quando deixamos esses pensamentos nefastos dominarem por completo nossas palavras e ações.

Hannah Arendt, uma filósofa judia alemã que foi testemunha dos horrores do nazismo apontou a banalização do mal no totalitarismo que busca no controle das ações humanas o alinhamento com as maldades que emanam do líder totalitário. Não há o respeito pela individualidade e a destruição de todas as instituições como sindicatos, escolas, associações, igrejas, famílias etc. que sejam contrários se faz necessário para que a maldade seja banalizada e incorporada com uma ação necessária.

A malícia está nas ações de governos e de algumas empresas que estão sob o comando de gente que personificam a maldade e tentam justificá-la como necessária a um interesse difuso, quando na verdade o preço da destruição das organizações de interesse difuso será para o benefício de uma coletividade que aderiu ao mal. Por isso destroem entidades que defendem a cultura, a ciência (universidades inclusas), as de proteção ambiental, as de interesse de grupos étnicos (índios inclusos) e buscam retirar das leis proteções trabalhistas argumentando que são boas e necessárias aqueles que justamente serão os mais prejudicados.

Embora o rol de maldades parecesse não promover diretamente a destruição das famílias, eis que a covid-19 vem escancarar que em prol da malícia que existe nessa gente é necessário que pessoas devam morrer por um suposto benefício econômico que no final de tudo não será garantia de êxito, mas é certo que já deixou famílias destroçadas pela perda de alguém muito importante em laço afetivo e, ou material. Famílias que perderam para a covid-19 o principal, ou membro importante para o sustento familiar e que provavelmente terão que enfrentar privações, perdas de patrimônio e de qualidade de vida em benefício de um projeto político e de poder que tem sua raiz na malícia. Governos quando expõem as famílias a um contato forçado com um vírus que não possui remédio ou vacina pode ser sim chamados de genocida e muitas dessas decisões ainda serão levadas aos tribunais pedindo reparação por todas essas mortes (hoje mais de 85 mil).

Alguns governos e empresas estão obrigando os declarados grupos de risco e de pessoas que coabitam com grupos de risco o retorno ao trabalho, ou seja, aqueles mais propensos a morrer de covid-19 estão sendo forçados a serem exporem ao vírus, ou mesmo de levar a doença para um parente idoso ou qualquer outro que tenha comorbidades que favoreçam a forma mais grave da doença. Quem tem mais de 60 anos costumam a ser os mais vulneráveis, pois possuem um sistema imunológico mais enfraquecido e toda aquela polêmica inicial de isolamento vertical ou horizontal agora está sendo reduzida a uma única via: a da completa exposição de todos e que morram aqueles que tem que morrer mesmo. Se essa ação de governos e empresas não é uma ato genocida então precisamos urgentemente revisar a história e absolver os condenados no tribunal de Nuremberg. Outro ponto importante é esclarecer que aqueles mais propensos a morrer são os que dependem de um hospital público, haja vista que as estatísticas dizem que a taxa de cura é 50% em hospitais privados, ou seja, novamente é a base da pirâmide social que mais tem a perder, inclusive a própria vida.

Finalizando, quando o Supremo Tribunal Federal determinou que as políticas de isolamento deveriam ser promovidas pelos governos estaduais e municipais foi por meio da perspectiva que o Brasil, por ter característica continental, obviamente em suas regiões geográficas haveria graus diferenciados de infecção e de controle da pandemia. O que fez, por exemplo, que Manaus fosse a primeira capital a colapsar o sistema público e privado e também a primeira, depois de quatro meses, a ter pouco menos de 50% de ocupação das UTIs. Infelizmente, algumas cidades começaram a viver o drama manauara e uma delas Ribeirão Preto, uma das mais ricas cidades do noroeste paulista que começou a colapsar. Essas diferenças de distintos momentos da pandemia nas regiões brasileiras faz que a média das mortes permaneça estável em mais de mil mortes diárias, pois quando um capital apresenta melhora, como o caso de São Paulo e Manaus, os casos explodem no interior sendo mais dramático em São Paulo devido ao tamanho de sua população.

Quando uma empresa ou entidade federal que tem funcionários em várias cidades de regiões brasileiras determina que os grupos de risco, ou aqueles que coabitam com esses retornem ao trabalho, ignoram justamente os diversos momentos que vivem as regiões brasileiras e expõem seus funcionários e familiares ao elevado risco de morte.

A malícia que carregam as ações de governos e de empresas simplesmente aumentam a sensação que vivemos em um inferno de longa duração e que tem por finalidade admitirmos que tudo isso foi inevitável e nos vejamos tacitamente banalizando o mal. Não podemos ser vencidos pelo cansaço e o nosso retorno ao paraíso passa pela constatação que eles é que estão sem roupa e por mais que se apoiem na mentira toda a sua malícia está exposta.

João Lago

domingo, 28 de junho de 2020

O escorpião está no meio da sala


Um ditado popular diz que “a vida imita a arte”, mas a bem da verdade, anterior a existência das artes está o que chamamos de vida humana. Nas cavernas o homem pré-histórico já deixou nas paredes as pinturas rupestres que é uma evidência que desde muito tempo é a arte que imita a vida.

Existe um filme de 1993, chamado O Dossiê Pelicano do diretor Alan Pakula, que conta a história de uma estudante de direito que desvenda o assassinato de dois juízes da Suprema Corte dos EUA. O roteiro foi construído, assim como ocorre no Brasil, no fato do presidente indicar os membros do Supremo e que, a depender das convicções do indicado, as decisões de determinado tema podem ser manipuladas. O filme conta a história de um empresário mafioso, aliado a advogados bandidos, que assassinam dois juízes da suprema corte para que o presidente pudesse indicar substitutos que fossem favoráveis a revogação da proteção ambiental de um santuário ecológico.

Na trama o presidente estadunidense estava sendo manipulado a partir da amizade que possuía com o empresário mafioso, além do fato de haver recebido ajuda financeira para sua campanha advinda do mesmo. O presidente não sabia dos assassinatos, mas com a exposição dos fatos desiste de concorrer a reeleição e é aconselhado a indicar para a corte dois novos juízes com profunda inclinação para as causas ambientais. É importante salientar que na trama a estudante de direito perseguida consegue ajuda e proteção de um jornalista que compreende a gravidade dos fatos e expõe o crime para o público.

Na mesma linha de bandidagem, o filme brasileiro “Tropa de Elite 2” de 2010, dirigido por José Padilha, aborda o envolvimento de políticos corruptos ligados a milicianos em uma simbiose de proteção mútua, seja no apoio político e financeiro para campanhas políticas ou pela eliminação de adversários que são assassinados pelos milicianos. Aqueles cidadãos de bem que assistiram ao filme de Padilha provavelmente não torceram nem para os milicianos, tão pouco para os políticos corruptos e devem ter vibrado com a vitória do Capitão Nascimento contra a bandidagem imiscuída na política e na polícia.

No filme O Dossiê Pelicano, apesar de políticos poderosos, advogados renomados e empresários com grande poder econômico, uma simples e desconhecida estudante de direito, com o auxílio de um jornalista diligente e independente, destruiu toda uma trama criminosa que teria sucesso se não houvesse uma imprensa livre capaz de expor qualquer fato sem censura, apesar do poder e influência dos atores envolvidos. Na obra dirigida por José Padilha, o capitão Nascimento, agora como secretário de segurança pública, consegue ajuda de um parlamentar da oposição para agir politicamente contra as milícias do Rio de Janeiro por meio de uma Comissão Parlamentar de Inquérito - CPI, porém no final há uma grande queima de arquivo (leia-se assassinato de envolvidos) e os políticos corruptos acabam reelegendo-se. Diferentemente do filme estrangeiro o cinema nacional foi mais verosímil a nossa realidade.

Em um país a existência de uma imprensa livre e de políticos de oposição é uma demonstração de maturidade democrática. Assim, quem apoia os discursos pedindo a supressão da liberdade de imprensa e a perseguição e eliminação da oposição em tese tem tudo para torcer para os bandidos de O Dossiê Pelicano e de Tropa de Elite 2. Também parece óbvio que as instituições democráticas somente podem funcionar se atuarem de forma independente e delimitadas em suas competências constitucionais. O poder executivo não é mais importante que o legislativo e judiciário, tão pouco dos dois últimos mais importantes entre si, nem existe hierarquia de relevância entre os três. Quanto a imprensa, apesar de não ser um poder constituído, sua existência e proteção está prevista na Constituição Federal – CF em seu artigo 220 e a antiga Lei de Imprensa, editada durante a ditadura militar, que nitidamente foi elaborada para constranger e ameaçar jornalistas, em decisão do Supremo Tribunal Federal – STF em 2009 foi considerada não recepcionada pela CF de 1988.

Em tempos atuais, parece que roteiro da vida real, que foi construído envolvendo políticos corruptos, milicianos, advogados e empresários com grande inclinação para o mundo do crime, não passa ao largo do que foi retratado no cinema. Contudo, uma parte da plateia tende a torcer descaradamente para os bandidos, ou mesmo coloca em dúvida o que demonstra ser a verdade dos fatos.

O que faz uma parte da população ainda não acreditar no que está sob os seus olhos não virá por meio de uma resposta fácil, pois este fenômeno não é motivado por uma única variável, mas arrisco dizer que há um desgaste do politicamente correto e um esgarçamento de valores cristãos por determinados grupos que tem os seus atos “glamorizados” por certos políticos, artistas e jornalistas. É importante acima de tudo que o respeito a ética seja restabelecido e perceber que não dá para continuar ignorando a relativização dos valores. A onda pseudoconservadora que assolou o Brasil e que culminou na eleição de Bolsonaro ainda não passou, mas é certo que muitos que ajudaram a elegê-lo perceberam que Bolsonaro não é aquilo que dizia ser, ainda fosse óbvio que Bolsonaro sempre foi o que é que não abandonaria sua essência. Aqui também vai uma dica: antes de intitular-se conservador, procure pesquisar o que é o conservadorismo para, pelo menos, entender porque ao tentar ser conservador venha a ser rotulado de fascista ou de coisa pior. Procure também estudar o que seja o fascismo.

O escorpião, apesar de perigoso, é um animal de hábito noturno, que vive escondido e não oferece muito risco. Porém, se inadvertidamente for pisado, ou a mão penetrar onde esteja escondido, fatalmente ele picará o incauto porque inocular veneno é da essência quando se sente ameaçado. Não se engane, o escorpião é uma praga que resiste ao veneno que mata baratas e insetos. Na verdade o escorpião é um parente mais robusto de uma aranha, sendo capaz de resistir até mesmo a radiação que mata um ser humano.

A sociedade brasileira colocou o escorpião no meio da sala e sinceramente assim como não dá para torcer para o bandido das telas do cinema, também parece não ser salutar crer que o escorpião possa mudar em sua essência.

João Lago.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

O exemplo de vida que conquista respeito e admiração


Existem certas expressões, nas mais variadas línguas, que demonstram sinal de respeito. Na adolescência, quando estudante de francês aprendi que o pronome “Tu” (pronuncia-se ti) não poderia ser utilizado nas conversas formais, naquelas que o interlocutor é um desconhecido, ou uma pessoa mais idosa, ou alguém na qual se deve respeito. O “Tu” no francês somente é aceitável quando falamos com crianças, ou com pessoas que tenhamos uma completa intimidade. Assim, para os demais casos devemos utilizar o “Vous” como sinal de educação e/ou respeito.

Quando estive na Colômbia pela primeira vez em 2008, em conversa com o padre Jorge Serrano, amigo e sacerdote jesuíta, disse-me que no Brasil chamar um bispo católico de “Dom”, que no espanhol somente é usual para atribuir distinção social ou muito respeito a alguém, em sua opinião foi a maneira única que a língua portuguesa adotou do espanhol para designar respeito ao líder católico. Em português não temos um similar para o “Dom” espanhol, mas temos uma corruptela do pronome de tratamento “senhor” que utilizamos com frequência. Por exemplo, quando alguém que merece distinção e respeito, mas temos o privilégio de sua convivência e intimidade, adotamos chamá-lo de “Seu”, em vez de senhor, porque esse último pareceria extremamente formal. O mais interessante é que chamar alguém de “seu” ou “dona”, em vez de senhor ou senhora, além do respeito está implícita uma certa intimidade.

Já se perde em minha memória o exato momento que deixei de chamar Alfredo Peroba da Paz Jatobá de senhor e passei a chamá-lo de simplesmente de Seu Alfredo, mas acredito que a educação familiar daqueles maiores de cinquenta anos hão de achar isso bastante comum e até mesmo deselegante e grosseiro se o chamasse simplesmente por “você”. Infelizmente, talvez por uma necessidade de rejuvenescimento, uma nova geração que chega aos quarenta anos já não deseja ser chamado de “seu” ou “dona” e deseduca os jovens ao sugerir em serem chamados por “você”. No entanto, a certa ojeriza dessas pessoas pela distinção que esses tratamentos trazem apenas colocam mais reverência naqueles aceitam serem chamados de “seu” e “dona”. Absolutamente, não se trata de uma simples discussão semântica, mas uma reflexão que busca colocar grau de distinção em nossas relações pessoais, principalmente quando o destinatário não solicita tal deferência, mas traz em nós a forma expressa que tal pessoa é merecedora de toda estima, respeito, amor e consideração.

Conheci o Seu Alfredo Jatobá nos meus dezessete anos e devo confessar que naquela época, como já descrito aqui, não me recordo quando deixei de chamá-lo por Senhor Alfredo, mas arrisco dizer que foi quando o simples respeito foi sucedido e adicionado a admiração e intimidade. Muito mais que o meu sogro, o Seu Alfredo transformou-se em um amigo a quem se pode buscar para um conselho, para compartilhar uma preocupação ou alegrias. Além de um pai exemplar, é exemplo de caráter altivo, de cidadão ético, justo e fraterno que nos dias de hoje tais qualidades parecem serem impossíveis de pertencerem a uma mesma pessoa. Como seu amigo, por meio de nossas longas conversas, pude passear pela Manaus dos anos 30, 40, 50 e 70 com uma riqueza de detalhes de alguém com uma memória privilegiada que merecia um estudo profundo, pois muitas das suas lembranças contam a história do crescimento de uma Manaus de cerca de 100 mil habitantes para a metrópole de 2,2 milhões. Por meio de suas recordações eu pude passear nos extintos bondes da capital manauara, assistir uma partida de futebol no Parque Amazonense, antigo palco do campeonato dos clubes de Manaus, andar nos regatões que abasteciam o comércio das cidades das margens do Rio Solimões e conhecer uma época e costumes que se perderam nos livros de história.

Alfredo Jatobá, com os 96 anos que completa em 2 de junho, é hoje o funcionário aposentado mais longevo do Banco do Brasil e várias homenagens já recebeu de seus colegas que demonstraram o carinho e, principalmente, a admiração que adquiriu de seus pares depois de décadas de bons serviços prestados. Nada de surpreendente para um ser humano integro que conquistou amigos e admiradores ao longo de sua vida. Eu tenho o privilégio de apenas ser mais um.
Eu poderia estender esta resenha, mas acho que um conteúdo biográfico de um cidadão tão admirável não poderia estar descrito em poucas palavras. A pandemia que vivemos não nos permite que façamos uma grande homenagem reunindo todos os filhos, netos, bisnetos, outros familiares e amigos, mas tenho certeza que não faltará oportunidade enquanto amor existir no mundo e haver nesta terra representantes que emulam tão sublime sentimento. Parabéns Seu Alfredo Jatobá pelos seus 96 anos.

João Lago

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Cloroquina é o placebo da política de Bolsonaro


Sabemos que dentre os organismos orgânicos complexos, eucariontes que habitam este terceiro planeta de nosso sistema solar, mais precisamente o único mamífero bípede que tem em suas células vinte e três pares de cromossomos, o ser humano é o único que expressa a consciência da sua existência. No entanto, pensar o existir de forma metódica veio a partir de “cogito, ergo sum”, que traduzido do latim é “penso, logo existo”, do filósofo francês René Descartes. Nesse primeiro ensaio racional da existência pela consciência, Descartes coloca o ser humano com um ser crítico das verdades óbvias, ou seja, nem tudo aquilo que se pode ler, provar, ouvir ou sentir não há de ser considerado verdadeiro sem antes passar pelo crivo da ciência. Isto significa que podemos ser enganados por nós mesmo pela necessidade de acreditar em algo que nos possa ser mais agradável.

Passado mais de três séculos após a morte de Descartes, em plena era da informação, assistimos boquiabertos tantos paradigmas, que foram construídos pela ciência, serem desconstruídos sem qualquer base de raciocínio lógico, método, experimentação científica e crítica, por pessoas que negam essa premissa que nos faz diferente de qualquer animal quadrúpede: O raciocínio crítico de nossa incapacidade de criar conhecimento pelo simples pensamento.

A consciência nasce a partir da aceitação de que nada que nos rodeia pode ser factual sem que possamos compreender as variáveis que compõem determinado fenômeno. Por exemplo, imaginemos uma tribo primitiva da Amazônia, dessas de índios isolados que não tiveram contato com o “homem civilizado” e que veem cruzar os céus um avião. A princípio podem duvidar que seja uma ave, pois o senso comum diz que os pássaros batem as asas. No entanto, um deles poderá dizer que o ruído do motor é o gralhar daquela ave prateada e, portanto, deverá ser mais uma criatura da natureza que habita os céus. No meio das opiniões divididas o xamã, que é o sábio da tribo dirá: Voa como um pássaro, gralha como um pássaro, é um pássaro. Um índio se oferece para seguir o avião e encontrar o seu ninho e ter mais uma evidência que seja uma ave, mas o xamã manda açoitá-lo e prendê-lo por divergir do iluminado, o sábio da tribo.

O dono da verdade é aquele que não aceita a divergência e nega a experimentação científica, ou pela ignorância, ou na ânsia por uma resposta acomoda-se com a mais óbvia. Durante dois mil anos ensinou-se nas escolas que a vida surgia de uma forma espontânea e o exemplo disto era uma carne exposta ao tempo que depois de alguns dias dela surgiam vermes. Era tão fácil acreditar nisto, porque qualquer pessoa poderia repetir o experimento e chegar a mesma conclusão, além de tal teoria ter sido defendida por alguém nada menos que Aristóteles, o grande xamã da Grécia Clássica. No entanto, um certo italiano chamado Francesco Redi, em 1668, resolveu cobrir com tela a carne em putrefação e percebeu que dali nada surgia, chegando a conclusão que se as moscas não tivessem acesso à carne não haveria a geração espontânea da vida. Francesco não sabia que os vermes eram larvas das moscas, mesmo porque a microscopia usada na ciência, que poderia identificar os ovos das moscas, ainda estava engatinhado na Inglaterra por meio das observações de Robert Hooke. Outra verdade que perdurou por séculos foi a teoria da terra plana, mas que hoje volta a conquistar muitas pessoas que preferem acreditar nos que os seus olhos podem ver, negando toda a tecnologia e as evidências mais elementares da esfericidade da Terra, mas isso é uma outra história.

O negacionismo pode ser placebo que tem como fórmula a ignorância, mas sempre haverá os estelionatários que se valem do raso conhecimento alheio, desespero ou ganância para ter sucesso financeiro. Alguns líderes religiosos, por exemplo, atuam nesse sentido, nadando de braçadas em uma legislação frouxa quanto ao enriquecimento de bispos, pastores e apóstolos que vendem a prosperidade na terra a preço de ouro com uma esperança futura de uma gleba no paraíso. Essa facilidade de sedução foi também que permitiu que esses mesmos líderes religiosos começassem a ter influência política, pois com um público tão cativo e obediente logo se percebeu que além de poder financeiro poderiam também obter poder político. Aliado a isso, considerando a existência de uma banda oportunista e corrupta na política brasileira, gerou a aproximação dessa da ala “religiosa” com uma súcia de políticos na qual foi pinçado como representante o mais abjeto, caricato, incompetente e antidemocrático político do baixo clero que se tem notícia.

O que comprova esse estelionato é o fato desse representante ter sido apresentado como contra a corrupção, defensor da família e dos bons costumes. Todos os fatos levantados até aqui pela imprensa livre já demonstraram que Bolsonaro não é alguém a mais do mesmo antro político, mas um sujeito que se destaca por não temer perder apoio popular enquanto as hostes religiosas, antidemocráticas e corruptas que o sustentam permanecerem fiéis. Nesse sentido, demonstrou-se competente em manipular com mentiras e desinformação qualquer assunto envolvendo pessoas ou ideias. Assim, sob essa édge, Bolsonaro aproximou-se do Centrão, que é um grupo fisiologista da política, cujo apoio está a venda, assim como a venda estão as mulheres das vitrines da luz vermelha de Amsterdã. Porém, essas mulheres merecem nosso respeito porque não enganam ninguém e muitas delas têm profunda vergonha do que fazem, sendo o oposto dos políticos do centrão.

A racionalidade que nos torna singular parece totalmente corrompida pelo obscurantismo religioso e político, mas não se engane pensando que esse movimento irracional browniano está totalmente desprovido de lógica. A razão da manutenção da tensão e de ataques constantes a todos que não se aliam ao governo é uma maneira de manter fiéis aqueles que restaram do caldo bolsonarista que foi derramado com a saída de Sérgio Moro e de tantos outros que já serviram de base de apoio. Já a relutância em adotar a ciência médica no combate ao covid-19, a leitura é que se a prosperidade é uma dádiva aos fiéis, a defesa da vida por meio do distanciamento social é um entrave para a felicidade que advém do dinheiro. Porém, não se pode mandar as pessoas para a rua sem uma proteção, ou alento, caso venham a ficar doentes. É justamente nesse detalhe que Bolsonaro insiste em receitar a cloroquina, pois assim daria a certeza que a fé no líder religioso mais a cloroquina será capaz de blindar o indivíduo de uma morte prematura.

As verdades podem parecer óbvias e temos a certeza que dessa carne putrefata não brotará nada de novo, mas enquanto não cobrirmos nossa democracia com o véu espesso da legalidade, da verdade e da ética, essas moscas varejeiras continuarão a depositar os seus ovos e a se reproduzirem sob a dor de uma nação que chora os seus mortos. Eu tenho certeza que se Bolsonaro obrigar as pessoas que hoje estão reclusas a saírem as ruas, novamente teremos uma multidão nas ruas pedindo a sua deposição e prisão em maior número do que os trezentos de Brasília. Estamos confinados, mas não duvide de nossa disposição de lutar pela democracia.

João Lago