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segunda-feira, 4 de maio de 2020

O paradoxo da saída de um fechamento que nunca aconteceu


A pandemia do novo coronavírus, segundo o trends top do Google, uma espécie de termômetro que mede as buscas realizadas pelos internautas, no dia 27 de abril tinha o “fim do coronavírus” e “quanto tempo o coronavírus fica no corpo” respectivamente como os termos mais pesquisados. Estavam entre 140% e 500% acima dos demais termos pesquisados. Os dois termos evidenciados pelo Google refletem as duas maiores preocupações dos brasileiros que estão em isolamento e daqueles que estão com os sintomas do vírus. O primeiro grupo fatigado pela quase prisão domiciliar e o segundo com os sintomas da doença e contando os dias na esperança que a falta de ar termine, ou que nunca venha a se manifestar. Uma outra análise sobre a diferença entre 140% e 500% é aquela que parece indicar que havia muito mais pessoas doentes querendo saber se sobreviveriam ao vírus, em vez de pessoas preocupadas com quanto tempo de isolamento social ainda seria necessário. Pode ser uma mera especulação, mas em tempos de subnotificação de casos, aliada a quantidade anormal de sepultamentos, a busca de informação do tempo do vírus no corpo pode indicar uma maior quantidade de pessoas infectadas.

O ministro da saúde Nelson Teich, em declaração na última quarta-feira (29/04), afirmou que não é possível saber quando será o pico de casos no país e que uma segunda onda da pandemia é real. Outro ponto abordado por Teich é a dúvida da imunização do indivíduo após ter passado pela doença, ou seja, existe a possibilidade de quem se diga curado possa adoecer novamente. Nunca a ciência esteve tão no escuro quanto as estratégias de enfrentamento de um vírus altamente contagioso e com a capacidade de colapsar qualquer sistema de saúde, seja ele de primeiro mundo ou não. A Itália, Espanha e Inglaterra não suportaram a quantidade de pacientes em suas UTIs e mesmo a cidade da maior potência mundial sucumbiu. Os hospitais de Nova Iorque não deram conta da avalanche de doentes graves e a pandemia nos EUA parece estar fora de controle.

Nesse final de semana a Espanha, depois de decretar o confinamento nacional em 14 de março, hoje começou a flexibilizar a quarentena imposta ao país após mais de 25.000 mortes. A Itália, primeiro país ocidental a ser considerada o epicentro da doença, depois de registrar mais de 28.000 óbitos também ensaia sair da quarentena após redução do número de mortes. Essa liberação de ambas somente acontece porque os hospitais desafogaram os leitos e a velocidade do contágio diminuiu, mas enquanto não houver uma vacina para o covid-19 o perigo de uma nova onda é um risco que precisa ser bem calculado. Quanto a Inglaterra, depois dos médicos terem declarado que haviam preparado antecipadamente uma nota anunciando o possível falecimento de Boris Johnson, depois que o mesmo foi internado na UTI, indica que o premiê ter sentido na pele os efeitos da doença tenha modificado sua percepção quanto a letalidade do vírus. Antes relutante em iniciar o lockdown (quarentena), Boris Johnson achava ser possível um “isolamento vertical”, uma fantasia retórica que acredita conter o contágio somente isolando grupos de risco. A explosão de números de internações pela covid-19 colocou a Inglaterra em lockdown desde 23 de março, mas depois de 28.000 mortes e mesmo apresentando redução de internações, segundo publicação da BBC News em 27 de abril, Boris Johnson resiste flexibilizar afirmando que ainda era cedo para aliviar restrições, pois teme uma nova onda de infecções, mortes e novo colapso do sistema de saúde.

Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, Donald Trump, que adotava idêntico negacionismo de Johnson, vê uma epidemia que destrói qualquer argumento que insiste colocar pessoas nas ruas e domar a curva de contágio e mortes ao mesmo tempo. O resultado dessa insistência perversa são mais de 67.000 mortes nos EUA e com possibilidade de ultrapassar o número de mortes de Itália, Espanha e Inglaterra juntas. Porém, Donald Trump agora empenha-se em negar o seu negacionismo e repete a receita dos incompetentes: buscar achar um culpado e tem como alvos a imprensa, a Organização Mundial da Saúde e a China. Porém, todas as imagens que mostram Trump subestimando o novo coronavírus voltam para desmenti-lo e restabelecer a verdade.

Olhar para o contexto nacional e internacional buscando informações, modelos e experiências que possam indicar de como agir localmente em nossas cidades é crucial para reduzirmos as mortes pelo colapso hospitalar e o mais rapidamente abrir os serviços, comércios e indústrias que estão parados pela falta de demanda. Não se pode desejar combater o vírus reduzindo parcialmente a circulação de pessoas insistindo em um tipo de isolamento parcial porque já se sabe que o vírus apenas espera um descuido de uma mão contaminada ser levada à boca, ao nariz ou aos olhos. E o vírus pode estar em qualquer lugar e com uma característica sinistra de indivíduos infectados e que sem sintomas algum podem transmitir a doença.

O governador do Amazonas Wilson Lima, em decreto assinado em 30 de abril, prorrogou para 13 de maio um fechamento parcial dos comércios e serviços que havia iniciado em 23 de março. O grande erro é a quantidade de estabelecimentos autorizados a funcionar como delivery o que implica em colocar pessoas circulando no transporte público, pois entregar em casa também requer alguém que se desloque até o local de trabalho. Outro ponto importante é que o decreto não cuidou para impedir que pessoas ocupassem locais públicos, como praças, campos de futebol em bairros e mercadinhos que, mesmo vendendo alimentos, tem nas suas calçadas mesas servindo bebidas, alimentos e gente desnecessariamente reunida contrariando a intenção do decreto. Não houve uma intervenção sistemática da Polícia Militar para impedir que as pessoas circulassem, mesmo porque já havia bastante pessoas nas ruas circulando pelo próprio fechamento parcial.

O resultado deste fechamento desastrado e anticientífico é que as mortes continuam acontecendo em hospitais superlotados, colapsando o sistema funerário e provocando a falta de medicamentos nas farmácias, mesmo após 41 dias de um pseudo “fechamento” e será completamente inócuo prorrogar por mais 51 dias desta forma. Ao final, poderá dar a falsa conclusão que o isolamento social não funciona. No entanto, como bem disse Arthur Virgílio Neto, prefeito de Manaus, como se pode afirmar que vai reabrir o que nunca verdadeiramente foi fechado? Essa interrogação aponta que a atitude do governo do Amazonas, no enfrentamento ao vírus visando desafogar o sistema de saúde, resultou em um imenso fracasso. Embora políticos amazonenses já tenham pedido o impeachment de Wilson Lima, não identifico vozes que se somem a necessidade de um lockdown efetivo em toda a cidade de Manaus por pelo menos 30 dias.

Infelizmente ainda não temos um paradigma de lockdown em nenhuma cidade do Brasil, mesmo em São Paulo de João Dória e o Rio de Janeiro de Wilson Witzel que também adotaram um isolamento light, mas com a diferença que São Paulo obteve no início uma maior adesão popular, mas que infelizmente está sendo relaxada com o passar do tempo em uma espécie de desobediência civil. Em parte essa defecção tem origem na mensagem desastrada e criminosa de Jair Bolsonaro que insiste em pregar uma volta ao trabalho com os hospitais lotados. O presidente Bolsonaro agora contradiz o seu atual ministro da saúde Teich, assim como antes contradizia o seu ex-ministro Mandetta. E o mais nefasto é que Bolsonaro destitui Mandetta visando retirá-lo o protagonismo do combate ao covid-19, mas se recusando a ocupar esse lugar de destaque como líder. Ao contrário, podemos considerar Bolsonaro com o mais forte aliado do novo coronavírus e responsável pela desobediência sanitária que impera entre seus apoiadores. Bolsonaro pode ter afirmado que não é coveiro, mas se comporta como Caronte, o barqueiro de Hades (deus grego do subterrâneo), que se empenha em levar os vivos para a morte. Esse é o papel de Bolsonaro que na sua perversidade, ou psicopatia, não reconhece que a forma mais rápida do país voltar abrir a economia passa pela necessidade de um lockdown. Basta pesquisar exemplos como Nova Zelândia e Paraguai, que fecharam por 30 dias e, agora como baixos casos confirmados da doença e com hospitais desafogados, planejam reabrir, mas com muito cuidado e monitorando a possibilidade de novas infecções.

Na insanidade do governo federal, personificada em Jair Bolsonaro, o protagonismo no combate ao covid-19 deve ser abraçado por aqueles que vivem nas cidades. Será em nossos hospitais que buscaremos atendimento, será nas farmácias de nossas ruas que buscaremos medicamentos e em nossos cemitérios que sepultaremos nossos mortos. O mínimo que esperamos é encontrar esses serviços disponíveis para que não perecermos nas portas do hospitais, ou em casa por falta de remédios e ao final sermos enterrados em uma vala comum como um indigente.

Um raio de racionalidade parece despontar no Maranhão, onde o governador Flávio Dino anunciou que desde primeiro de maio cumprirá a decisão do poder judiciário que decretou lockdown na Grande São Luiz, com o apoio da polícia militar mandando as pessoas de volta para suas casas. Flávio Dino declarou: “quanto ao descumprimento, todos serão objetos de sanções administrativas, multas e comunicação do poder judiciário. Agora, quem insistir no cumprimento de apenas orientações políticas, insensatas, estará simultaneamente infringindo normas estaduais e descumprindo a decisão do Poder Judiciário.

A sorte nunca foi lançada para nós brasileiros, amazonenses e manauaras, pois apesar de todos os exemplos de fracassos e êxitos do exterior, insistimos no pior caminho que leva a dor e ao sofrimento. A única saída é aquela que nos coloca em casa diminuindo o contágio e a morte do vírus no ambiente. Qualquer discurso diferente disso está carregado de má-fé, ignorância ou perversidade.

João Lago

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Como em 30 dias podemos matar o novo coronavírus em nossa cidade?


Antes de responder a esta pergunta, vamos conhecer melhor essa doença.

1. O que é o novo coronavírus (Covid-19) e como ele mata

O novo coronavírus, chamando covid-19, não um tipo de vírus que se cristaliza, ou seja, que pode ficar inerte até que tenha contato com uma célula de um ser vivo. O covid-19 não fica latente nas superfícies de objetos por mais de 30 dias. O covid-19 tem uma capa de gordura e proteína e por causa disso na temperatura do verão amazônico em três a sete dias (dependendo da superfície) ele degrada e morre.

O covid-19 surgiu como uma variação de uma “cepa” que infecta morcegos na China que sofreu uma mutação e começou a infectar o ser humano. Os vírus infectam a célula de um ser vivo, transformando a célula em um “zumbi” que passa a agir como uma fábrica de novos vírus. Em dado momento, a célula infectada se rompe como em uma explosão e novos vírus saem e passam a infectar outras células sadias. Quando isso acontece, o nosso organismo (por meio de nosso sistema imunológico) começa a travar uma luta contra o vírus. Nessa luta, conforme os relatos médicos, a batalha se trava dentro do pulmão causando uma imensa “inflamação” que nos casos mais graves têm característica de pneumonia que se não tratada adequadamente leva à morte em duas semanas. No entanto, existem pessoas que pegam o vírus e são assintomáticas, ou seja, carregam o vírus no corpo, mas ele não se desenvolve, ou causam sintomas de uma leve gripe. Segundo uma pesquisa realizada na Universidade de São Paulo – USP, isso acontece porque algumas pessoas têm uma mutação no gene ACE-2, presente na parede da célula que não permite que o vírus entre com facilidade. Por outro lado, a mesma pesquisa apontou que doenças crônicas como a diabetes, hipertensão arterial e obstruções pulmonares crônicas, “aumentam a expressão de ACE-2 facilitando a infecção do covid-19. Por isso essas pessoas acabam por desenvolver a forma mais mortal da doença.

2. Como surgem os vírus da gripe?

Os vírus de modo geral existem na natureza e o mais comum é que migrem de aves e mamíferos para o ser humano. Por exemplo, o vírus da gripe, dentre eles os H1N1 vem de aves e porcos, o SARS-COV2 (gripe do Oriente Médio) vem de camelos e o COVID-19 (novo coronavírus) vem do morcego. A proximidade do homem com esses animais é que faz que a mutação dos vírus que infectam esses animais passem para o homem. No caso da COVID-19, os pesquisadores apontam que o vírus passou do morcego para o ser humano pelo hábito alimentar exótico de chineses comerem morcegos. Porém, antes de criticarmos a cultura chinesa de comer morcegos, é necessário lembrar que nos alimentamos de suínos e aves e esses animais também desenvolvem vírus que passam para o homem. Assim, não devemos alimentar preconceitos contra os chineses, assim como desejar eliminar os camelos do Oriente Médio, haja vista a importância que esse animal tem no transporte de carga e de pessoas em um ambiente tão árido para um cavalo, mula ou jegue.

3. Por que o Covid-19 mata mais que e os demais vírus da gripe?

O que diferencia o COVID-19 dos demais vírus citados é a velocidade de contágio e o rápido ciclo da doença que pode levar em pouco mais de sete dias da internação à morte. Como não há uma vacina e um remédio eficiente que cure (esqueça a cloroquina, porque estudos ainda são inconclusivos) o rápido contágio e a demora no tratamento (que pode durar mais de 20 dias) lota os hospitais até o limite da capacidade e as pessoas que chegam depois morrem por falta de atendimento adequado. Com os hospitais lotados, as pessoas começam a morrer em casa e por causa disso o sistema funerário também entra em colapso. Colapso entenda-se a necessidade de sepultarem pessoas em valas comuns e isso já está ocorrendo na cidade de Manaus. As famílias não tem direito de velar os seus mortos que vão para direto para o cemitério e com número reduzido de familiares.

4. Como matar o vírus em 30 dias?

A melhor maneira de matar o vírus é deixá-lo morrer onde eles estão, ou seja, nos caixas eletrônicos, no dinheiro, nas maçanetas de portas de uso público, nos bancos de praça, nas prateleiras de supermercados, drogarias etc. O novo coronavírus morre na natureza se não infectar uma pessoa, considerando que não nos alimentamos de morcegos e não há indícios de contaminação de nossos morcegos. Ficar em casa por 30 dias, ou quando sair de casa usar máscaras (as máscaras caseiras funcionam), lavar com maior frequência as mãos e não levá-las suja em contato com boca, nariz, olhos ou ouvidos. Se não tiver álcool em gel em 70%, quando for inevitável sair, prepare uma garrafa com solução de água e sabão, água sanitária e leve consigo para limpar as mãos depois de manipular dinheiro, pegar em maçanetas ou tocar em qualquer superfície que possa ter sido tocada por outras pessoas. Chegando em casa, troque de roupa e as coloque para lavar. Tome um banho. Quando fizer compras, se o objeto/alimento comprado não puder ser levado diretamente com água e sabão, prepare uma solução de água e sabão, água sanitária e limpe cuidadosamente tudo. Ainda existe muita dúvida de quanto tempo o vírus pode permanecer latente (vivo) em superfícies, pois pesquisas dizem que podem permanecer até 28 dias em climas frios e até três horas suspenso no ar a partir do momento que uma pessoa espirra ou tosse (por isso usar máscaras quando sair de casa).

Desta forma, quando uma população se tranca em casa por mais de 30 dias e toma todos os cuidados de higiene que foram abordados aqui, o vírus vai desaparecer naturalmente, pois não terá o nosso corpo como hospedeiro para multiplicar-se dentro de nossas células.

Converse com os seus familiares e se possível leia para eles o que foi abordado aqui e discuta em família como todos podem se proteger do vírus. Se tiver dúvidas, pesquise em fontes confiáveis e jamais acredite em notícias que circulam em redes sociais (whatsapp, facebook, twitter etc.) de gente que se diz especialista, mas que por maldade e má-fé espalham desinformação e mentira.

Vamos exigir que o nosso governador e prefeito coloque a nossa cidade em quarentena por 30 dias para a quantidade de mortes possa baixar em toda a nossa cidade. Pessoas não circulando, o vírus não circula e desaparece, assim como um animal que sem ter o que comer morre de fome.

Prof. João Lago

domingo, 12 de abril de 2020

A história não nos esquecerá


Jamais poderia pensar a falta que tenho sentido do império do politicamente correto, mesmo sendo alguém que em passado recente tenha-lhe deitado sérias críticas. Raciocinando sobre tal contradição, não desejando render-me ao óbvio e assim diminuir esta minha pretensiosa reflexão, resolvi ampliar a visão além do discurso moralista ou posicionamento anárquico ao estilo de “se há governo sou contra”.

A sociologia, assim como a psicologia, apoiam que, “não sendo o indivíduo uma ilha”, é da natureza humana a busca da relação de pertencimento. Essa vontade de encontrar espelhos que possam refletir nossa visão de mundo e encontrar ouvidos e cabeças que possam balançar afirmativamente a cada palavra pronunciada. Porém, em uma sociedade na qual as pessoas para terem voz hão de mostrar certa competência intelectual, respaldada por títulos acadêmicos, o medíocre, que não consegue ler um texto com mais de duzentos e oitenta caracteres, sentia-se intimidado a abrir a boca, afinal não leu, não estudou, não se especializou intelectualmente em nada. No entanto, o sucesso empresarial começou a abrir plateias de ouvidos ávidos e, neste caso, não importa muito o diploma na parede, mas a quantidade de dinheiro em conta-corrente.

A revista Veja, em sua edição 1671 de 18 de outubro de 2000, trouxe a entrevista de Larry Ellison, fundador da Oracle que na época, segundo a Revista Forbes, tinha uma fortuna de 47 bilhões de dólares, estando em segundo lugar no ranking de bilionários. Afirmou desejar ultrapassar Bill Gates, disse que não era somente pelo dinheiro, porque “quando você conquista o primeiro bilhão, os carros ficam mais velozes, os aviões mais confortáveis e as mulheres a sua volta com as pernas mais compridas” afirmando que “a partir daí a pessoa já comprou tudo o que os dólares permitem”. Larry Ellison completa dizendo que ao ultrapassar a fortuna de Bill Gates “faz sua aura tornar-se mais iluminada e intrigante”. Por uma mera coincidência tanto Larry Ellison quanto Bill Gates abandonaram os cursos universitários para fundar suas empresas.

O sucesso nos negócios, assim como os títulos acadêmicos, parecia ser a credencial para que alguém pudesse ser ouvido, mas em tempos de redes sociais um novo tipo de indivíduo, agora chamado de “influenciador digital”, desponta pela quantidade de seguidores, ou seja, pouca importa o seu currículo acadêmico ou a fortuna acumulada, mas quantos estão a segui-los. Em alguns desses casos a fortuna vem a reboque com os seguidores, mas parece não determinar um retorno ao mundo acadêmico. Pelo contrário, alguns aproveitam a grande plateia e negam o conhecimento científico, semeiam desinformação, notícias falsas, ou fazem um recorte de fatos, omitindo o contexto geral e manipulam a informação de uma maneira que possam justificar uma determinada ideia. Esses influenciadores digitais, de relativo sucesso, também encontraram na politica a capitalização da fama na forma de votos e conquistaram um cargo eletivo.

O empoderamento de gente desqualificada nas redes sociais que disseminam preconceitos, mentiras, combatem a ciência e distorcem os fatos históricos somente é possível porque encontra uma horda que se imagina representada por essas ideias. Gente que se sentia intimidada pelo politicamente correto agora consegue retirar das sombras suas iniquidades como o racismo, xenofobia, misoginia, aporofobia, homofobia etc. É a vitória do Id sobre o Superego, ou melhor dizendo, são os instintos mais desprezíveis da natureza humana sobrepondo a moral e a ética. São as trevas encontrando um campo fértil em uma sociedade que não investe em educação e cultura, ou é minimalista ao chamar de arte, ou expressão cultural, quem pede para uma adolescente “sentar” na boca da garrafa, ou para bater sua “bunda no chão”.

No entanto, o mais contraditório e paradoxal na sociedade brasileira atual é que justamente as pessoas que semeiam o ódio, preconceitos e mentiras são justamente aquelas que se apoderaram do discurso “moral”. É como se o Ego fosse sequestrado pela Id criando uma realidade paralela que reescrevesse toda a história da ética judaico-cristã para que o Superego fosse reeducado em uma amoralidade típica dos psicopatas. Nessa nova moral vale a pena sacrificar vidas em nome do dinheiro sob “as bençãos de Jesus”. Blasfemam, pois além de demonstrar desprezo pela vida do outro, preferem reverenciar o “deus” dinheiro. Esqueceram que “ninguém pode servir a dois senhores (…) Não podeis servir a Deus e à riqueza” (Mt 6, 24), ou ainda, “amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior que este não existe” (Mc 12, 32). O Cristo que reverenciamos nesta Páscoa não está presente no discurso de ódio, nem tão pouco no desprezo pela vida do outro.

Nessa última madrugada e tive um pesadelo intrigante. Estava em meio a diversas pessoas em frente da grande pirâmide de Quéops no Egito, na qual havia uma grande entrada e uma rocha gigante apoiada no sopé do maosoléu. Em dado momento, corre a informação que um tsunami estava vindo em nossa direção e para que não morrêssemos deveríamos todos refugiarmos dentro da pirâmide e fazer rolar a grande rocha lacrando a entrada. Alguém dizia: “mas quem virá nos socorrer depois que passar a grande onda?”. Sem ter uma resposta depois de um longo silêncio eu digo: Se quatro séculos se passaram e as pirâmides estão aqui, o que vale nossa aflição quanto ao tempo. A história não nos esquecerá.

Neste ano de 2020 somos nós os protagonistas da maior crise sanitária deste século e a história não esquecerá aqueles que verdadeiramente estavam buscando salvar vidas nos hospitais, nos laboratórios, nos serviços essenciais, na imprensa, em suas casas e nos governos.

João Lago.

A história não nos esquecerá

sábado, 28 de março de 2020

A distopia do isolamento vertical

O isolamento social horizontal tem demonstrado ser a única atitude em saúde pública que possa conter a proliferação do vírus convid-19 e impedir o colapso do sistema de saúde pública. A conta que se faz é simples, mas, ao mesmo tempo, dramática, pois se a quantidade de indivíduos que demandarem respiração mecânica forem superiores a quantidade de aparelhos disponíveis, o excedente de enfermos fatalmente morrerá por falta de atendimento adequado.

O isolamento social horizontal (no qual que quase todos estão contidos em casa ) não elimina o vírus, mas o faz circular menos, pois se na dengue o vetor do vírus é o mosquito Aedes aegypti, no caso do covid-19 o que leva a doença pode ser cada um de nós. É fato que no caso do coronavírus a vacina que dispomos é o nosso próprio sistema imunológico que é acionado para combater o vírus e a cada indivíduo que é “curado” deixa de ser um vetor infeccioso. A estratégia é deixar que a taxa de infecção crítica seja conscrita a quantidade de população exposta que resulte em pacientes graves. Isso que aqui está dito não é resultado de achismo, pois é corroborado pela comunidade científica e pela experiência adquirida na China, Coreia do Sul, Itália, Espanha e demais países que hoje enfrentam o covid-19. Assim, não é coerente apostar em qualquer outra solução ainda não testadas e que contradizem os fatos e todas as evidências científicas, sendo uma delas a proposta de isolamento vertical.

Buscando exemplificar o que é apoiar medidas como isolamento vertical, que não tem nenhuma base científica sólida, tem um filme chamado The box (A caixa) que traz um dilema moral. O casal Lewis está em dificuldades financeiras, pois o salário do marido é reduzido. Nesse ínterim, um estranho homem de rosto desfigurado aparece na porta de sua casa e oferece-lhes uma caixa com um botão. Se apertarem o botão ganham um milhão de dólares, mas automaticamente uma pessoa desconhecida em algum lugar morre. Eles tem 24 horas para decidir se apertarão o botão ou não. Mal sabem eles que se decidirem apertar o botão a caixa irá para uma outra família que apertando o botão será um deles que morrerá.

O isolamento vertical prega a contenção somente de pessoas em grupo de risco, permitindo que os demais saiam para trabalhar. O problema é que tal situação não leva em conta a composição das famílias brasileiras, principalmente daqueles que vivem em comunidades, aglomerados e favelas. Os que advogam o isolamento vertical olham para os lares brasileiros compostos por vários cômodos com banheiros exclusivos para idosos, cardiopatas, hipertensos, diabéticos, asmáticos, imunossuprimidos e demais grupos de risco. Eles não se importam em apertar o botão, pois acreditam que os mortos vão cair bem longe deles.

O presidente Jair Bolsonaro tem insistido em apoiar as medidas de isolamento vertical, apesar de declarações do Ministério da Saúde - MS que não há estudo que possa viabilizar tal medida. Recentemente o Ministério Público Federal – MPF solicitou a suspensão de campanha do governo intitulada “o Brasil não pode parar” justamente pela ausência de embasamento científico e por colocar em risco os brasileiros. No entanto, as bravatas de Bolsonaro se apoiam na certeza que os governadores e prefeitos, apoiados por especialistas em epidemiologia e em saúde pública, usarão do bom senso e não arriscarão a vida da população em um mero achismo sem qualquer base científica e sem paralelo no que vem acontecendo na China, na Itália, na Espanha e mais recentemente nos EUA. Perceberam que a estratégia de Bolsonaro é continuar colocando-se como contrário a todos, seguindo a linha que se tudo caminhar bem na saúde pública, mas não na economia, não será culpa sua. Ao mesmo tempo, ao postergar medidas econômicas de renda mínima, que estão sendo implementadas por outros países, colocam os trabalhadores informais, autônomos, micro e pequenos empresários contra o isolamento horizontal e, por conseguinte, em oposição aos prefeitos e governadores. Assim, Bolsonaro demonstra ser incapaz de governar aceitando consensos e busca fortalecer-se nos conflitos sociais e continua apostando em “nós contra eles”.

O brasileiro médio neste momento tem três preocupações básicas: se estará doente semana que vem, se haverá UTI com respirador em caso de necessidade, ou se terá emprego e o que comer no dia seguinte. Caberia ao governo federal agir para trazer tranquilidade e segurança neste momento tão sombrio, mas infelizmente uma burrice ideológica com certa dose de sadismo parece sobressair e ser mais importante que a saúde e a paz dos brasileiros.

João Lago

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Folia, verdade e hipocrisia.


Nesse carnaval de 2020 uma certa paróquia aqui em Manaus anunciou que realizaria em sua comunidade um baile de carnaval e muito dos fiéis aderiram a ideia sem oposição ou questionamento. Assim, pareceria muito natural que uma festa considerada pagã fosse adaptada para um c
ontexto cristão, a fim de proporcionar uma alternativa ao apelo de alegria que o carnaval parece despertar no brasileiro, principalmente entre os jovens. Sinceramente não tive notícia de quais marchinhas de carnaval poderiam estar incluídas nessa proposta evangelizadora, ou se mesmo esse carnaval seria realizado com versões musicais adaptadas dos folguedos de Momo.

A polêmica do carnaval da Mangueira, que trouxe símbolos cristãos para a avenida Sapucaí, no entanto parece ter chocado e provocado arrepio em fiéis que semanas atrás divulgaram e aplaudiram o carnaval paroquial. Ao mesmo tempo vejo certas denominações cristãs trazendo para o ambiente do templo ritmos do mundo secular, sendo motivo de uma reflexão que escrevi em julho de 2016 (O sagrado e o profano) na qual abordei essa forma moderna de sincretismo e novamente não consegui resistir em colocar o dedo nessa ferida que é a intolerância seletiva que encontra o pecado nas manifestações culturais alheias, mas que relativiza aberrações teológicas de doutrinas que satanizam o diferente sem olhar para o seu próprio umbigo.

A cerca de duas semanas atrás comprei em uma livraria uma coletânea dos sermões do padre Antônio Vieira que em sua época incomodava pela crítica dura que fazia a sociedade, mas não encontravam em suas palavras, por mais que procurassem, qualquer traço de afastamento do que ensina o Evangelho de Cristo. Em seu conhecido sermão Santo Antônio (sermão dos peixes), no qual criticava o colono português que escravizava os índios, assim escreveu: “Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?”

O sermão aos peixes de padre Vieira ainda não caducou, pois parece que tanto a corrupção quanto a hipocrisia transcendem os séculos e apenas os desvalidos mudam de face, pois se outrora no século XVII eram os índios os marginalizados, hoje os excluídos da sociedade em sua maioria são negros e pardos que habitam as favelas e periferias das grandes cidades. É justamente sob essa ótica que analiso a letra do samba enredo da Mangueira e não encontro nela, assim como não se encontra nos sermões de padre Vieira, qualquer afastamento aos ensinamentos e exemplos que Cristo nos deu de como devemos deitar nossa compaixão aos marginalizados da sociedade. Desta forma, as vozes que salgam ainda são as mesmas vestidas da corrupção de três séculos passados, pois não há como abjurar a crítica social que a Mangueira colocou na avenida.

Uma escola de samba talvez não seja a melhor mensageira das coisas do Altíssimo, pois no seio do carnaval ocorre formas de alegria que são contrárias a doutrina cristã, da mesma forma que não será no âmbito do templo que o carnaval há de santificar-se. No entanto, entre as duas propostas evangelizadoras que possam parecer tortas, quem sabe a Mangueira, por fim, tenha conseguido proporcionar uma melhor reflexão do que de fato é verdadeiramente cristão: o amor e a compaixão pelos marginalizados.

João Lago.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

O afeto tem risco de morte

Agora é assim, o perigo de morte não vem através de um mosquito, nem por meio de uma relação sexual sem preservativo, mas chega extremamente contagiante pelos hábitos sociais afetuosos mais prosaicos do brasileiro: o abraço, o aperto de mão, o beijo no rosto etc. Não somente isso, basta simplesmente que se toque em um objeto, em um passa mão de carrinho de supermercado, em uma maçaneta, em um corrimão que tenha sido infectado por fluídos corpóreos de alguém que seja portador do coronavírus. O pior é que a transmissão dessa nova modalidade de gripe, cujos desdobramentos fatais são a insuficiência renal e respiratória aguda, pode vir de pessoas que se apresentam assintomáticas, ou seja, que ainda sequer deem sinais que estejam doentes. É justamente essa forma de fácil contágio que assusta a comunidade de saúde pública internacional.

Fala-se em taxa de letalidade de 2%, considerada baixa quando comparada com os dois mais recentes surtos de doenças virais (Sars 10,87% e H1N1 23,2%). Porém, como conter a proliferação de uma doença que é transmitida tão facilmente e que pode chegar a milhões de pessoas no Brasil e no mundo. Por exemplo, a cidade de Wuhan (foco inicial do vírus) tem uma população de 11,8 milhões que totalmente contaminada corresponde à 236 mil mortes. Assim, o número de mortos pode somar a população inteira de cidades como Dourados-MS, Chapecó-SC, Cabo Frio-RJ dentre tantas outras e não se deve minimizar esse número em um mero dado estatístico. Não há como mitigar a dor de uma família que vive o luto dessas mortes como a desculpa que somente faleceram 2%.
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O acirramento do vírus no mundo, antes que se desenvolva uma vacina eficaz, e o seu potencial desembarque no Brasil, traz a luz vários fatores que são característicos da realidade brasileira é que nos fazem vítimas de uma tragédia anunciada. Como resolver a precariedade do sistema de saúde que em muitas cidades sequer dão conta da demanda ordinária da população? O que fazer para contornar o péssimo saneamento básico que transforma sarjetas em esgotos a céu aberto? Como erradicar a falta de higiene elementar de uma maioria que sequer lava às mãos depois de usar o banheiro? Como tolher os excessos de abraços, beijos e apertos de mão de nossa índole afetuosa? Neste cenário sinistro, resolver a precariedade do atendimento à saúde e o péssimo saneamento básico está aquém de nossa vontade individual e que nos fazem reféns de governos corruptos e demagogos, além de não ser algo que se resolva em curto espaço de tempo. Contudo, agir fazendo campanhas de conscientização de cuidados básicos de higiene e alertar que os excessos de afetuosidade devem ser evitados para o bem de todos, principalmente quando estivermos em ambientes coletivos é algo que podemos fazer. Voltemos os nossos olhos para a forma que os japoneses cumprimentam-se: nada de aperto de mãos e beijinhos, mas uma simples reverência (chamada ojigi). Na internet encontraremos vários significados lúdicos do motivo dessa saudação, mas eu arrisco dizer que, por ser o Japão uma ilha, a melhor forma encontrada para evitar contágios de um povo confinado em um pequeno território foi abolir o contato físico desnecessário. Pode-se ser menos radical e observar como os anglo-saxões saúdam-se. Basta observar os filmes de Hollywood e perceber que quando amigos encontram-se o que menos acontece são abraços, beijinhos e apertos de mão. Os alemães também compartilham do mesmo hábito e talvez por isso os consideremos um “povo frio”.


Voltando para a nossa realidade, é necessário que compartilhemos nossa preocupação principalmente com aqueles que estão dentro de nossa casa (pais, irmãos, filhos, netos etc.), pois de nada adianta o nosso cuidado individual se potencialmente a contaminação poderá vir daqueles que mais temos motivos para tocar, abraçar e beijar. Temos ao nosso favor que no hemisfério sul ainda é verão e as gripes por excelência acontecem mais no inverno, mas como diz o ditado: “cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém”, obviamente tratando de cozinhá-la bem e em fogo alto.

João Lago.