Powered By Blogger

sábado, 28 de março de 2020

A distopia do isolamento vertical

O isolamento social horizontal tem demonstrado ser a única atitude em saúde pública que possa conter a proliferação do vírus convid-19 e impedir o colapso do sistema de saúde pública. A conta que se faz é simples, mas, ao mesmo tempo, dramática, pois se a quantidade de indivíduos que demandarem respiração mecânica forem superiores a quantidade de aparelhos disponíveis, o excedente de enfermos fatalmente morrerá por falta de atendimento adequado.

O isolamento social horizontal (no qual que quase todos estão contidos em casa ) não elimina o vírus, mas o faz circular menos, pois se na dengue o vetor do vírus é o mosquito Aedes aegypti, no caso do covid-19 o que leva a doença pode ser cada um de nós. É fato que no caso do coronavírus a vacina que dispomos é o nosso próprio sistema imunológico que é acionado para combater o vírus e a cada indivíduo que é “curado” deixa de ser um vetor infeccioso. A estratégia é deixar que a taxa de infecção crítica seja conscrita a quantidade de população exposta que resulte em pacientes graves. Isso que aqui está dito não é resultado de achismo, pois é corroborado pela comunidade científica e pela experiência adquirida na China, Coreia do Sul, Itália, Espanha e demais países que hoje enfrentam o covid-19. Assim, não é coerente apostar em qualquer outra solução ainda não testadas e que contradizem os fatos e todas as evidências científicas, sendo uma delas a proposta de isolamento vertical.

Buscando exemplificar o que é apoiar medidas como isolamento vertical, que não tem nenhuma base científica sólida, tem um filme chamado The box (A caixa) que traz um dilema moral. O casal Lewis está em dificuldades financeiras, pois o salário do marido é reduzido. Nesse ínterim, um estranho homem de rosto desfigurado aparece na porta de sua casa e oferece-lhes uma caixa com um botão. Se apertarem o botão ganham um milhão de dólares, mas automaticamente uma pessoa desconhecida em algum lugar morre. Eles tem 24 horas para decidir se apertarão o botão ou não. Mal sabem eles que se decidirem apertar o botão a caixa irá para uma outra família que apertando o botão será um deles que morrerá.

O isolamento vertical prega a contenção somente de pessoas em grupo de risco, permitindo que os demais saiam para trabalhar. O problema é que tal situação não leva em conta a composição das famílias brasileiras, principalmente daqueles que vivem em comunidades, aglomerados e favelas. Os que advogam o isolamento vertical olham para os lares brasileiros compostos por vários cômodos com banheiros exclusivos para idosos, cardiopatas, hipertensos, diabéticos, asmáticos, imunossuprimidos e demais grupos de risco. Eles não se importam em apertar o botão, pois acreditam que os mortos vão cair bem longe deles.

O presidente Jair Bolsonaro tem insistido em apoiar as medidas de isolamento vertical, apesar de declarações do Ministério da Saúde - MS que não há estudo que possa viabilizar tal medida. Recentemente o Ministério Público Federal – MPF solicitou a suspensão de campanha do governo intitulada “o Brasil não pode parar” justamente pela ausência de embasamento científico e por colocar em risco os brasileiros. No entanto, as bravatas de Bolsonaro se apoiam na certeza que os governadores e prefeitos, apoiados por especialistas em epidemiologia e em saúde pública, usarão do bom senso e não arriscarão a vida da população em um mero achismo sem qualquer base científica e sem paralelo no que vem acontecendo na China, na Itália, na Espanha e mais recentemente nos EUA. Perceberam que a estratégia de Bolsonaro é continuar colocando-se como contrário a todos, seguindo a linha que se tudo caminhar bem na saúde pública, mas não na economia, não será culpa sua. Ao mesmo tempo, ao postergar medidas econômicas de renda mínima, que estão sendo implementadas por outros países, colocam os trabalhadores informais, autônomos, micro e pequenos empresários contra o isolamento horizontal e, por conseguinte, em oposição aos prefeitos e governadores. Assim, Bolsonaro demonstra ser incapaz de governar aceitando consensos e busca fortalecer-se nos conflitos sociais e continua apostando em “nós contra eles”.

O brasileiro médio neste momento tem três preocupações básicas: se estará doente semana que vem, se haverá UTI com respirador em caso de necessidade, ou se terá emprego e o que comer no dia seguinte. Caberia ao governo federal agir para trazer tranquilidade e segurança neste momento tão sombrio, mas infelizmente uma burrice ideológica com certa dose de sadismo parece sobressair e ser mais importante que a saúde e a paz dos brasileiros.

João Lago

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Folia, verdade e hipocrisia.


Nesse carnaval de 2020 uma certa paróquia aqui em Manaus anunciou que realizaria em sua comunidade um baile de carnaval e muito dos fiéis aderiram a ideia sem oposição ou questionamento. Assim, pareceria muito natural que uma festa considerada pagã fosse adaptada para um c
ontexto cristão, a fim de proporcionar uma alternativa ao apelo de alegria que o carnaval parece despertar no brasileiro, principalmente entre os jovens. Sinceramente não tive notícia de quais marchinhas de carnaval poderiam estar incluídas nessa proposta evangelizadora, ou se mesmo esse carnaval seria realizado com versões musicais adaptadas dos folguedos de Momo.

A polêmica do carnaval da Mangueira, que trouxe símbolos cristãos para a avenida Sapucaí, no entanto parece ter chocado e provocado arrepio em fiéis que semanas atrás divulgaram e aplaudiram o carnaval paroquial. Ao mesmo tempo vejo certas denominações cristãs trazendo para o ambiente do templo ritmos do mundo secular, sendo motivo de uma reflexão que escrevi em julho de 2016 (O sagrado e o profano) na qual abordei essa forma moderna de sincretismo e novamente não consegui resistir em colocar o dedo nessa ferida que é a intolerância seletiva que encontra o pecado nas manifestações culturais alheias, mas que relativiza aberrações teológicas de doutrinas que satanizam o diferente sem olhar para o seu próprio umbigo.

A cerca de duas semanas atrás comprei em uma livraria uma coletânea dos sermões do padre Antônio Vieira que em sua época incomodava pela crítica dura que fazia a sociedade, mas não encontravam em suas palavras, por mais que procurassem, qualquer traço de afastamento do que ensina o Evangelho de Cristo. Em seu conhecido sermão Santo Antônio (sermão dos peixes), no qual criticava o colono português que escravizava os índios, assim escreveu: “Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?”

O sermão aos peixes de padre Vieira ainda não caducou, pois parece que tanto a corrupção quanto a hipocrisia transcendem os séculos e apenas os desvalidos mudam de face, pois se outrora no século XVII eram os índios os marginalizados, hoje os excluídos da sociedade em sua maioria são negros e pardos que habitam as favelas e periferias das grandes cidades. É justamente sob essa ótica que analiso a letra do samba enredo da Mangueira e não encontro nela, assim como não se encontra nos sermões de padre Vieira, qualquer afastamento aos ensinamentos e exemplos que Cristo nos deu de como devemos deitar nossa compaixão aos marginalizados da sociedade. Desta forma, as vozes que salgam ainda são as mesmas vestidas da corrupção de três séculos passados, pois não há como abjurar a crítica social que a Mangueira colocou na avenida.

Uma escola de samba talvez não seja a melhor mensageira das coisas do Altíssimo, pois no seio do carnaval ocorre formas de alegria que são contrárias a doutrina cristã, da mesma forma que não será no âmbito do templo que o carnaval há de santificar-se. No entanto, entre as duas propostas evangelizadoras que possam parecer tortas, quem sabe a Mangueira, por fim, tenha conseguido proporcionar uma melhor reflexão do que de fato é verdadeiramente cristão: o amor e a compaixão pelos marginalizados.

João Lago.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

O afeto tem risco de morte

Agora é assim, o perigo de morte não vem através de um mosquito, nem por meio de uma relação sexual sem preservativo, mas chega extremamente contagiante pelos hábitos sociais afetuosos mais prosaicos do brasileiro: o abraço, o aperto de mão, o beijo no rosto etc. Não somente isso, basta simplesmente que se toque em um objeto, em um passa mão de carrinho de supermercado, em uma maçaneta, em um corrimão que tenha sido infectado por fluídos corpóreos de alguém que seja portador do coronavírus. O pior é que a transmissão dessa nova modalidade de gripe, cujos desdobramentos fatais são a insuficiência renal e respiratória aguda, pode vir de pessoas que se apresentam assintomáticas, ou seja, que ainda sequer deem sinais que estejam doentes. É justamente essa forma de fácil contágio que assusta a comunidade de saúde pública internacional.

Fala-se em taxa de letalidade de 2%, considerada baixa quando comparada com os dois mais recentes surtos de doenças virais (Sars 10,87% e H1N1 23,2%). Porém, como conter a proliferação de uma doença que é transmitida tão facilmente e que pode chegar a milhões de pessoas no Brasil e no mundo. Por exemplo, a cidade de Wuhan (foco inicial do vírus) tem uma população de 11,8 milhões que totalmente contaminada corresponde à 236 mil mortes. Assim, o número de mortos pode somar a população inteira de cidades como Dourados-MS, Chapecó-SC, Cabo Frio-RJ dentre tantas outras e não se deve minimizar esse número em um mero dado estatístico. Não há como mitigar a dor de uma família que vive o luto dessas mortes como a desculpa que somente faleceram 2%.
Resultado de imagem para coronavirus
O acirramento do vírus no mundo, antes que se desenvolva uma vacina eficaz, e o seu potencial desembarque no Brasil, traz a luz vários fatores que são característicos da realidade brasileira é que nos fazem vítimas de uma tragédia anunciada. Como resolver a precariedade do sistema de saúde que em muitas cidades sequer dão conta da demanda ordinária da população? O que fazer para contornar o péssimo saneamento básico que transforma sarjetas em esgotos a céu aberto? Como erradicar a falta de higiene elementar de uma maioria que sequer lava às mãos depois de usar o banheiro? Como tolher os excessos de abraços, beijos e apertos de mão de nossa índole afetuosa? Neste cenário sinistro, resolver a precariedade do atendimento à saúde e o péssimo saneamento básico está aquém de nossa vontade individual e que nos fazem reféns de governos corruptos e demagogos, além de não ser algo que se resolva em curto espaço de tempo. Contudo, agir fazendo campanhas de conscientização de cuidados básicos de higiene e alertar que os excessos de afetuosidade devem ser evitados para o bem de todos, principalmente quando estivermos em ambientes coletivos é algo que podemos fazer. Voltemos os nossos olhos para a forma que os japoneses cumprimentam-se: nada de aperto de mãos e beijinhos, mas uma simples reverência (chamada ojigi). Na internet encontraremos vários significados lúdicos do motivo dessa saudação, mas eu arrisco dizer que, por ser o Japão uma ilha, a melhor forma encontrada para evitar contágios de um povo confinado em um pequeno território foi abolir o contato físico desnecessário. Pode-se ser menos radical e observar como os anglo-saxões saúdam-se. Basta observar os filmes de Hollywood e perceber que quando amigos encontram-se o que menos acontece são abraços, beijinhos e apertos de mão. Os alemães também compartilham do mesmo hábito e talvez por isso os consideremos um “povo frio”.


Voltando para a nossa realidade, é necessário que compartilhemos nossa preocupação principalmente com aqueles que estão dentro de nossa casa (pais, irmãos, filhos, netos etc.), pois de nada adianta o nosso cuidado individual se potencialmente a contaminação poderá vir daqueles que mais temos motivos para tocar, abraçar e beijar. Temos ao nosso favor que no hemisfério sul ainda é verão e as gripes por excelência acontecem mais no inverno, mas como diz o ditado: “cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém”, obviamente tratando de cozinhá-la bem e em fogo alto.

João Lago.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Natal Amigos Solidários 2019

Finalizamos nossa campanha com a doação de brinquedos no dia 25 de dezembro em uma comunidade localizada a margem da Av. Torquato Tapajós, Zona Norte de Manaus. No local dividem o espaço brasileiros e refugiados venezuelanos que nutrem a esperança que o local receba urbanização.




Doações Recebidas.

1. Professora moradora de Rio Preto da Eva (AM).................................. R$ 150,00
2. Kelciana Silva - Tefé (AM)......................................................................R$ 150,00
3. Hélio Silva - Cordeirópolis (SP)..............................................................R$ 150,00
4. Anderson Martins - Manila / Filipinas......................................................R$ 500,00
5. Rodrigo Duarte - Manaus (AM)...............................................................R$ 50,00

Total arrecadado até 20/12/2019...............................................................R$ 1.000,00

Foram comprados 142 brinquedos totalizando R$ 1.106,70

6. Girleide Pacheco doou brinquedos diversos
7. Márcia Rodrigues doou uma bicicleta infantil

Equipe de Distribuição de brinquedos (ordem alfabética): Daniel Rodrigues, Daniel Rodrigues, Helena Rodrigues, Iran (da comunidade), João Lago, Márcia Rodrigues, Nazaré Lago.

Etelvina Lago embrulhou todos os brinquedos para a entrega.

Agradedecmos a todos os que participaram desta campanha.

João Lago
Coordenador.

domingo, 1 de dezembro de 2019

II Noite de Massas – Em prol da construção do Centro Pastoral da Igreja de São Marcos.


Nessa última sexta-feira (29/11), a Comunidade de São Marcos da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório, realizou a segunda edição do evento Noite de Massas. Tratou-se de uma ação em prol do término da construção do Centro Pastoral da referida comunidade localizada no Conjunto Santos Dumont, bairro da Paz em Manaus, cujas obras estão em fase de acabamento. O centro pastoral contará com sete salas de catequese, além de um amplo salão para reuniões da comunidade.

A segunda Noite de Massas é o resultado do esforço das lideranças de pastorais e de sua coordenação que não mediram esforços para transformar um evento de preço popular em uma festa a altura de qualquer evento de mercado que se tenha o intuito do lucro per si. Uma banda animou a festa durante pouco mais três horas, além de sorteio de brindes (doados na comunidade) que foram oferecidos aos convidados. No serviço de buffet foram servidos três variedades de massas, três tipos de molhos e lasanha. Refrigerantes, vinhos e água foram oferecidos, além de duas variedades de sobremesas. O ambiente estava impecavelmente decorado com motivos natalinos e com as cores que remetem a um evento de massas (verde, vermelho e branco).

Pela experiência que tenho atuando com fundraising, incluso um estágio na Colômbia com Jorge Eduardo Serrano, jesuíta e na época coordenador da Oficina de Desarrollo de la CPAL e hoje trabalhando na Cúria Geral dos Jesuítas em Roma e responsável pelos Jesuítas sem Fronteira, em um dos diversos encontros que tivemos no Brasil e no exterior, sobre trabalhar a frente de comunidades, certa vez me disse: “quer ser Cristo? Então se deixe pregar na cruz!”. Padre Serrano creio, fez referência ao Evangelho de São Lucas (Lc 9, 23) que ensina “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me”. O sábio sabe que, apesar de necessariamente estarmos sob a égide dos ensinamentos de Cristo, não existe unanimidade quanto a verdadeira intenção dos propósitos daqueles que estão a frente de qualquer coordenação. Ensinou-me que a melhor resposta a maledicência humana está muito além de oferecer a outra face, mas também demonstrar honradez na transparência de suas ações, prestando contas a todo momento a qualquer cristão que por sua língua insista desconstruir a ação do Espírito Santo. São esses como os fariseus, com sua moral pusilâmine descrita no Evangelho de Mateus (23, 5), que “atam fardos pesados e esmagadores e com eles sobrecarregam os ombros dos homens, mas não querem movê-los sequer com o dedo”.

Não estive diretamente relacionado a coordenação evento II Noite de Massas, mas fui aquele que levou a mensagem de necessidade ao coração solidário que doou 34 litros de vinhos para serem servidos no evento. Cumpre dizer que os vinhos doados foram todos consumidos e que, pela graça de Deus, a bebida não faltou, tanto que ainda houve sobra de dezesseis garrafas de vinhos. Desta forma, quero em nome da Comunidade de São Marcos agradecer aos empresários Fernando, José e Rosiane, da Bellvin Indústria e Comércio de Vinhos pela doação dos 34 litros e as demais doações particulares recebidas que serviram para engrandecer o evento e a finalidade a qual o mesmo se destina.

Para todos aqueles que estiveram a frente dessa obra de Deus deixou as palavras de São Paulo: “Por consequência, meus amados irmãos, sede firmes e inabaláveis, aplicando-vos cada vez mais à obra do Senhor. Sabeis que o vosso trabalho no Senhor não é em vão” (I Cor 15, 58)

Muito obrigado a todos!

João Lago



terça-feira, 29 de outubro de 2019

Quer aparecer menino?

Centenário de Irmã Dulce - Senhor do Bonfim Salvador
Até as pedras do caminho sabem o quanto sou crítico ao bolsonarismo, se é que seja razoável adjetivá-lo assim dando-lhe uma importância política que mal comparo aos fenômenos musicais de verão. Antevejo o bolsonarismo como uma Jenifer, Lepo Lepo, ou Deu Onda, hits chicletes com baixíssima expressão poética e uma pífia construção musical vinda de artistas efêmeros. Porém, a construção social que permitiu o bolsonarismo firmar-se é a mesma que sustenta de verão a verão as paradas de sucesso, ou seja: a baixa cultura do brasileiro médio; a total ausência de análise retórica profunda, seja política ou musical e; uma necessidade ao entorpecimento vulgar, seja ele dançante ou oriundo de ideias politicamente burlescas. No entanto, nesses tempos sombrios, o ativismo de uma minoria parece não perceber que não se pode defenestrar cupins de uma casa tocando fogo na madeira que a sustenta, pois ao tentar justificar suas ações, mesmo que possam ter certa razoabilidade, agem justamente como incendiários do extremismo.

Na última terça-feira (22/11), uma denominada Associação de Ateus e Agnósticos protocolou uma ação civil pública na Justiça Federal de Brasília pedindo a devolução do dinheiro público gasto na comitiva da Presidência da República, da Câmara e do Senado ao Vaticano para a cerimônia de Canonização da Irmã Dulce. Alegam que por ser o Estado laico não poderia ser gastos recursos públicos em uma viagem de cunho religioso. Ora, visto somente por essa visão tacanha parece ser óbvio que o governo brasileiro deveria ignorar completamente a importância do legado da religiosa para a Bahia e para todos os brasileiros, sejam cristãos católicos ou ateus. No entanto, ainda assim vamos nos concentrar no ordenamento jurídico que determina o que pode e o que não pode ser subvencionado com dinheiro público.

A CF - Constituição Federal, no artigo 19o, inciso I, veda a União, Estado e Municípios de: “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público”. O legislador constitucional quis deixar claro que o Estado deve manter-se afastado de apoiar ou estar subserviente a uma denominação religiosa, mas ao mesmo tempo não pode o Estado atrapalhar o livre exercício de uma religião, mesmo porque o artigo 5o, incisos de VI a VIII, garantem ao cidadão a liberdade de ter uma religião. Nessa suposta ambiguidade em que não pode tomar partido, mas ao mesmo tempo não deve obstruir a liberdade de culto, restou na CF a ressalva de tolerar e colaborar com as religiões a bem do interesse público. Poderia encerrar-se aqui esta argumentação, mas vamos caminhar mais um pouco.

Citando novamente a CF, mais precisamente o artigo 21o, inciso I, encontramos a seguinte redação: “Compete à União: manter relações com Estados estrangeiros e participar de organizações internacionais”. Ora, parece que os ateus e agnósticos da aludida associação desconhecem ser o Vaticano um Estado soberano que existe desde 1929 e que pelo Tratado de Latrão o Governo da Itália reconheceu sua soberania. Porém, ainda poderiam questionar qual seria o interesse público do Brasil manter relações com o Vaticano, além do fato do Brasil ser considerado a maior nação católica do mundo com 123 milhões de fiéis (64,6 % da população brasileira segundo o Censo IBGE de 2010).

A cidade de Aparecida no interior de São Paulo tem 80% de sua renda proveniente do turismo religioso e o mesmo se repete em Juazeiro do Norte - CE, onde viveu Padre Cícero Romão Batista e mais recentemente duas cidades despontam nesse cenário: Cachoeira Paulista – SP com o movimento carismático Canção Nova e Guaratinguetá – SP como cidade do santo Frei Galvão. Se não há interesse público na religiosidade de seu povo garantida na CF, deveria os ateus e agnósticos dessa pretensa associação reconhecer o interesse público no sentimento religioso que movimenta a economia e gera empregos. Não obstante, o governador Rui Costa (PT) fez publicar no Diário Oficial da Bahia a lei que institui o dia 13 de outubro como o dia da Santa Irmã Dulce dos Pobres reconhecendo não somente a importância pretérita da religiosa, mas o que doravante a devoção a Santa poderá trazer de divisas ao turismo religioso na Bahia.

A religiosidade é um fenômeno cultural que está no matiz do povo brasileiro repleto de expressões artísticas na música, arquitetura, teatro, pintura etc. Portanto, se não for suficiente as alegações até aqui deitadas, os ateus e agnósticos dessa associação deveriam ler o artigo 215o da CF que diz: “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”.

O Estado brasileiro é laico, mas absolutamente não é antirreligioso e nem tão pouco laicista, mas nesses tempos sombrios de intolerância sempre aparece um ou outro a procura dos seus quinze minutos de fama. A esses eu repito o ditado de minha avó: Quer aparecer menino? Põe o penico na cabeça e vai à rua.

João Lago