domingo, 14 de julho de 2019
sábado, 6 de julho de 2019
A DOUTRINA MORO COMO NOVA ORDEM SOCIAL
O
marido esquece o celular na casa da sogra. Aquela mulher, ao ver o
aparelho, não consegue conter a curiosidade de bisbilhotar com quem
o genro troca mensagens no Whatsapp, mas percebe que o celular está
bloqueado por senha. Esse impedimento poderia ser intransponível
para qualquer mortal, menos para dona Jacinta. Criatura conectada e
atenta para a psicologia das multidões lembra que uma vez em um
artigo sobre “engenharia social”, estratégia utilizada por
hackers, uma das senhas mais utilizadas pelos incautos são datas de
nascimento, principalmente de pessoas próximas. Assim, não se deu
por rogada e na primeira tentativa, digitando o dia do aniversário
do Júninho (seu neto), bingo! Os olhos de dona Jacinta brilharam e
um sorriso cínico de felicidade estampou sua face.
Começou
a esfregar freneticamente o polegar olhando as pequenas fotos de
perfil de cada um dos contatos. Quando a foto lhe parecia
comprometedora abria a conversa e foi assim que encontrou Piluca,
uma morena cuja foto de perfil foi tomada em uma praia e a mesma
posando com um sumaríssimo biquíni. As mensagens trocadas foram as
seguintes:
[4/7
16:39] Piluca: Oi amor você vai para academia hoje?
[4/7
16:42] Diogo: Não dá, hoje a Daiana me ligou e me pediu para buscar
o Júnior na escola.
[4/7
16:47] Piluca: Pôxa, justamente hoje que vou usar aquele conjuntinho
de ginástica que você acha tão sexy. :(
[4/7
16:50] Diogo: Pois é minha flor, mas você vai usar somente para me
agradar? Rsss.
[4/7
16:53] Piluca: Lógico meu bem, adoro ver esse teu sorriso safado
quando me olhas. Diz para tua mulher que terás uma reunião de
trabalho inesperada e vem. Vais perder, justamente hoje que estou com
pensamentos impuros. Rsss.
[4/7
17:05] Diogo: Olha, vou tentar, mas não posso garantir que vou.
Estou hoje mesmo precisando desestressar.
Jacinta
imediatamente baixou a foto de Piluca, clicou nas mensagens e as
encaminhou, acompanhada da foto para a sua conta no Whatsapp e, ato
contínuo, como se tal ato tivesse uma janela de tempo definida por
Aletheia, deusa grega da verdade, ouve bater à porta e entrar Diogo
para buscar o celular esquecido. Ao ter nas mãos conteúdos tão
bombásticos, Jacinta não queria ser a responsável direta pela
infelicidade da filha e acreditando que a mesma deveria tomar ciência
daquela troca de mensagens e da foto, resolve comprar um chip
pré-pago, criar uma conta no Whatsapp e retransmiti-las anonimamente
para sua filha, ainda escrevendo como adendo:
- De
amiga para amiga, teu marido está te traindo.
Daiana
quando leu o conteúdo daquela mensagem sentiu as pernas tremerem ao
ponto de buscar um local para sentar. Não poderia acreditar que o
“tonto” do marido poderia ser capaz de tanta desenvoltura e
desfaçatez, mas logo recuperada do choque uma onda de ódio percorre
seus pensamentos tentando conter-se para não ligar imediatamente
para o “canalha”. Refletiu e achou melhor aguardar que ele
chegasse da suposta reunião de trabalho que ocupou boa parte daquela
noite. Quando finalmente Daiana ouviu a porta da garagem abrir, olhou
para o relógio do celular que marcava 22h. Levantou-se, foi para a
cozinha e na pia começou a lavar a louça do almoço, quando o
marido entrou e tentou abraçá-la por trás e beijá-la na nuca.
Daiana sentiu nojo, esquivou-se, mas conteve a raiva e perguntou: -
Como foi a reunião “meu amor” (dando uma entonação não muito
natural a esse adjetivo possessivo). Diogo desconversou, disse que
tinha sido muito chata e que as cobranças de trabalho eram muitas
dizendo inclusive que estava com um terrível dor de cabeça e que
iria direto para o chuveiro. Daiana recolheu as roupas do marido e
após cheirá-las com uma destreza de um cão perdigueiro, desses que
farejam drogas no fundo das malas, passa vasculhar os bolsos da calça
e da camisa em busca de evidências que pudessem colocá-lo na cena
do crime, porque afinal somente aquela mensagem apócrifa de Whatsapp
não era prova suficiente para condená-lo. Porém, nada encontrou.
Quando
o marido retornou do banho, Daiana tinha nas mãos duas aspirinas.
Diogo, pegando apenas uma das mãos da mulher disse que um comprimido
só era suficiente. Porém, Daiana disse: - Melhor tomar duas por
precaução, porque essa dor de cabeça pode piorar. Perguntou-lhe: -
Quem é Piluca?
Diogo
sentiu faltar-lhe sangue na face, desviou o olhar em direção à
porta, como se desejasse fugir dali, mas Daiana aumentando o tom da
voz insistiu: - Diga homem, quem é Piluca? Diogo respondeu que era
uma conhecida da academia. Com essa resposta, a esposa mostra na tela
de seu celular as malditas mensagens.
Diogo
leu as mensagens e em um ato instintivo de negação perguntou a
mulher quem lhe havia passado aquelas mentiras. Ao que Daiana
perguntou: - Então negas que sejam verdeiras? Diogo respondeu: - É
claro que são, mas insisto em saber quem lhe passou essas mensagens.
Daiana, mulher honesta, revelou ao marido como havia tomado
conhecimento do conteúdo das mesmas, mas ironizou e insistiu que a
pessoa que as enviou sabia de detalhes de suas amizades na academia e
de sua agenda. Inclusive com poderes de clarividência, ao ponto de
descrever que houve a ligação íntima do casal comunicando uma
suposta reunião inesperada de trabalho que o fez desviar de seu
compromisso de buscar o Júnior na escola.
Diogo,
ainda com o celular da esposa nas mãos como não se cansasse de ler
e reler as mensagens, disse:
-
Daiana, eu não reconheço como minhas essas mensagens, mas mesmo que
fossem verdadeiras, não encontro nelas nada de comprometedor. Elas
parecem simplesmente uma simples troca de mensagens entre dois
colegas de academia que não se veem faz tempo. E tem mais, nada pode
assegurar que não foram manipuladas, com frases acrescentadas para
mudar, ou dar duplo sentido a conversa entre dois colegas.
Daiana
respondeu: - Mas, explique como uma pessoa poderia saber de tanto
detalhes de nossas vidas? Ao que Diogo respondeu:
-
Meu amor, não vou comentar o conteúdo de mensagens vazadas por
hackers criminosos cuja veracidade não pode ser comprovada e que
podem ter sido acrescentadas frases com o objetivo de simplesmente
acabar com o nosso casamento. Daiana eu te amo!
Daiana,
não satisfeita com a declaração do marido, disse: - Desbloqueia
agora a tela do teu celular e passa ele para mim; ao que prontamente
o marido obedeceu. Porém, o Diogo já havia apagado todas as
mensagens trocadas com a Piluca e não havia no celular do marido a
comprovação das mensagens, mas em sua lista de contato lá estava
Piluca e a foto de biquíni também. Daiana, diante dessa
comprovação, senta na borda da cama e passa a chorar copiosamente.
Diogo,
vendo aquela cena de fraqueza da mulher, como se diante de um touro
ferido na arena desejoso de uma perfuração fatal no coração que
lhe aliviasse o sofrimento, diz:
-
Meu amor, não fique assim, tudo isso é mentira. Lembra, nós dois
fomos juntos à manifestação a favor do ministro Moro. Ele também
está sendo injustiçado com mensagens falsas de hackers criminosos e
nós dois estávamos lá para apoiá-lo.
Um
estampido seco de um “claque” ecoa por todo o quarto. O calor da
mão de Daiana ainda fervia na face de Diogo quando ouviu outro
barulho, mas agora de porta batendo seguido da frase “vou para a
casa da mamãe”.
Moral
da história: Tem certas mentiras que colam, mas somente quando
servem para comprovar a hipocrisia de nossas verdades.
João
Lago
quinta-feira, 27 de junho de 2019
A deep web das consciências e a verdade
Em minha carreira
profissional como professor muitas vezes recebi elogios quanto a
minha facilidade de produzir textos e que alguns creditaram a isso a
uma capacidade nata. Infelizmente não foi, apesar que acredite que
possam existir pessoas com maior facilidade para serem músicos,
matemáticos etc., por esses acidentes genéticos que produzem
maravilhosas sinapses cerebrais na mente de gênios. Em meu caso,
muito antes da necessidade escrever, adquiri um prazer compulsivo
pela leitura que se estendia desde os dizeres de uma caixa de sabão
em pó, indo a uma bula de remédio, notícias de um jornal até
obras da literatura nacional e internacional. Assim, em um dado
momento de minha vida eu identificava-me com um ávido leitor dos
mais ecléticos possíveis.
Um fenômeno da era
da internet é a migração de escritores para os videoblogues. Nomes
prestigiados como Marco Antonio Villa, Luiz Felipe Pondé, Mario
Sergio Cortella, Leandro Karnal, dentre outros, que antes de
inaugurarem canais de vídeo para divulgação de suas ideias o
faziam por meio de seus livros. Por outro lado, muita gente que
acumula milhares de visualizações (views) de seus vídeos na
internet jamais escreveram um livro, ou uma resenha sequer, mas por
força de uma certa preguiça que o brasileiro tem pela leitura faz
de alguns canais líderes de audiência. Em minha análise, a mesma
preguiça que há por uma leitura mais densa e elaborada faz também
de microblogues, nos quais há limitação duzentos e oitenta
caracteres, um sucesso absoluto de público com milhares de
seguidores. Neste ponto, junta-se a fome com a vontade de comer, ou
seja, gente com pouca capacidade de escrever com uma horda com desejo
limitado de leitura. O mais irônico é que mesmo na pouca limitação
que há na quantidade escrita não anula o assassinato da gramática.
Outro hábito que se
popularizou é o compartilhamento de notícias, sejam as mesmas
falsas ou verdadeiras nas redes sociais. No que se refere às
notícias falsas o mal está na origem dos motivos de quem se utiliza
de um suposto anonimato para espalhar maledicências. Porém, mesmo
as que possam ser verdadeiras, quando analisadas, podem ser somente
uma parte recortada da realidade dos fatos, como por exemplo:
palavras pinçadas de um contexto, parte editada de um vídeo que
servem para reforçar ideias contrárias ao fato quando se vista a
informação em sua integralidade. Aqui podemos encontrar dois
fatores que se complementam. O primeiro é se a mensagem vai ao
encontro da ideologia do receptor e o segundo é a falta de
curiosidade (ou preguiça intelectual) para saber se tal notícia é
verdadeira ou não. Logicamente, todo fenômeno social não acontece
limitado por dois ou três fatores, mas alguns podem ter maior ou
menor participação a partir do tecido social no qual se entranham.
Dito isto, a baixa cultura do receptor, a doutrinação ideológica a
partir da fragilidade na qual sua consciência possa ser capturada é
uma explicação porque tantas almas, sejam elas mais à esquerda ou
à direita, teimam em negar a evidência dos fatos.
Infelizmente, as
mensagens espúrias vazadas da comunicação entre o ex-juiz Sérgio
Moro e os procuradores da Força-tarefa da Lava Jato demonstram que,
embora nossas convicções possam vir de leitura ávida de documentos
públicos e do acompanhamento inconteste dos fatos exibidos nas mais
diversas mídias, o que existe no subterrâneo, na “deep web” das
consciências, muitas vezes não vem a luz da opinião pública. O
que podemos aprender com esses últimos acontecimentos é que a
verdade nas democracias somente sobrevive face a dois princípios
fundamentais: Liberdade de Expressão e Livre Imprensa.
João Lago.
domingo, 16 de junho de 2019
A supremacia conveniente da ignorância
Albert
Einstein era judeu e independentemente de ser um grande cientista o
fato de ser judeu era superveniente a sua condição intelectual. O
nazismo agiu dessa maneira, sua régua olhava o indivíduo como sendo
pertencente, ou não, de uma elite gênica que estava ali ungida para
herdar e governar a terra. Assim, não somente mandou para campos de
concentração os judeus, mas também os ciganos, homossexuais,
comunistas e demais antagonistas de sua supremacia racial e
ideológica. Já com a pequena comunidade negra existente na Alemanha
o nazismo foi mais complacente, a partir das leis raciais de
Nuremberg de 1935 foram proibidas os “casamentos raciais”, os
casais mistos obrigados a separarem-se e o que não tinha “sangue
alemão” convidado a ser esterilizado.
Wernher
von Braun também foi um grande cientista alemão, filiado ao nazismo
e o seu conhecimento foi colocado em prática na fabricação dos
mísseis V-2 que caíram sobre Londres no final da segunda guerra
mundial. Quando a guerra terminou, apesar de sua participação
relevante no poderio bélico nazista, foi levado para os EUA onde
todo o seu conhecimento em fabricação de foguetes foi utilizado no
programa espacial estadunidense nas décadas de 60 e 70. Não somente
von Braun foi importante para a chegada do homem à Lua, mas se hoje
temos comunicações via satélite foi por sua contribuição no
aperfeiçoamento de veículos lançadores de satélites. Nesse ponto
é que Einstein e von Braun unem-se em suas descobertas, pois se foi
por meio das equações de Einstein que foi possível a construção
da bomba atômica, também foi por intermédio dos foguetes de von
Braun que as ogivas nucleares foram apontadas para o “inimigo” e
durante quarenta e quatro anos vivemos em guerra fria (EUA
capitalista versus URSS comunista). As guerras são um flagelo no
qual governos e ideologias digladiam-se em meio a uma população
civil que eventualmente os apoiam, ou não. Porém, a história nos
ensina que líderes com o interesse voltado para a coletividade são
paridos em ambiente democrático. Porém, também é fato que a
democracia pode fornecer uma porta de acesso aos déspotas que uma
vez instalados como governo tratam de destruir as instituições que
permitiram levá-los ao poder. Desta forma, a sustentação do Estado
Democrático de Direito depende do grau de maturidade da democracia e
o quanto a Constituição que a sustenta é respeitada e seguida.
Assim, não há justificativa dentro da democracia que possa permitir
uma ruptura institucional por menor que seja, pois todos estão
abaixo das mesmas leis e são iguais perante elas.
O
Nazismo subiu ao poder na Alemanha não por um golpe de Estado, mas
porque se aproveitou da frágil democracia de um país arrasado
economicamente para construir um governo autoritário que perseguia e
assassinava pessoas. Einstein não teria tido a chance de formular a
teoria da relatividade, pois antes disto teria sido enviado para um
campo de concentração. Ao mesmo tempo, Wernher von Braun poderia
ter sido julgado e condenado à morte pelo tribunal de Nuremberg por
crimes contra a humanidade, mas ao ser capturado pelos EUA conseguiu
convencer que era tão somente um cidadão alemão que não tinha
escolhas, ou seja, deveria contribuir para o nazismo ou seria morto.
Chegou a alegar que para não ser chamado de comunista teve que
participar como membro nazista e durante toda sua vida nos EUA foi
confrontado quanto a sinceridade dessa afirmação. Se o nazismo
fosse democrático essa afirmação não faria o menor sentido.
A
“caça as bruxas” acontece quando as instituições democráticas
deixam de garantir os direitos fundamentais para qualquer cidadão e
o indivíduo é perseguido não por atos criminosos, mas por seu
posicionamento ideológico, ou por conjuntos como fatores étnicos,
opção sexual etc. Os amantes do autoritarismo começam comendo
pelas bordas tratando de suprimir o contrário dentro de suas esferas
de poder. Mandam exonerar funcionários públicos que no passado
serviram, ou contrariaram o interesse pessoal do tirano. Perseguem
ícones do pensamento humanístico chamando-os de “comunistas” e
patrulham eventuais seguidores como uma raça a ser subtraída do
mundo. Na verdade, são terraplanistas da ignorância que nem a toda
equação elegante de Einstein, nem qualquer foguete de von Braun que
os leve a estratosfera os farão crer que o mundo é redondo.
João
Lago
quarta-feira, 29 de maio de 2019
Os poderes ilimitados dos onze juízes do STF
Quando o iluminismo francês pariu a
divisão do Estado em três poderes (legislativo, judiciário e
executivo) tinha a intenção de evitar a concentração do poder nas
mãos de uma só pessoa. Foi assim que a base do Estado Democrático
de Direito, como hoje conhecemos, foi construída nas nações
ocidentais, sejam elas monarquias ou presidencialistas. Porém, a
usurpação do poder, de tempos em tempos, seduziu e seduzirá
integrantes dos três poderes e, infelizmente, o Brasil apresenta
este viés pernicioso e deletério para nossa democracia.
O Superior Tribunal Federal – STF é
o que atualmente mais avança sobre o legislativo e por meio de suas
ações atropelam o Congresso Nacional com decisões de efeito de
norma constitucional e modificando o entendimento das leis
infraconstitucional e de aplicação imediata. Neste caso, o
entendimento de onze juízes sobrepõem-se as duas casas
legislativas, inclusive ao poder executivo que tem a prerrogativa de
sancionar ou vetar a lei. A primeira investida do STF foi quando em
maio de 2011 deu a união homoafetiva o mesmo status de casamento e
fez o Conselho Nacional de Justiça – CNJ, em maio de 2013, obrigar
os cartórios a celebrarem o casamento de casais de mesmo sexo. Vale
destacar que a decisão do STF ignorou o artigo 226, parágrafo 3,
que colocava sobre a proteção do Estado a união de “homem e
mulher” como “entidade familiar”. Foi justamente nessa questão
semântica entre “família” e “entidade familiar”, não
considerada como sinônimos, que a Ação Direta de
Inconstitucionalidade 4.277 colocou em contradição o artigo 226 e o
seu caput. A partir disso, haja vista as inúmeras possibilidades de
interpretação semântica, estava aberta ao STF legislar e sancionar
qualquer coisa. Reitero que a modificação desse entendimento seria
de exclusividade do Congresso Nacional por meio de uma Proposta de
Emenda Constitucional que deveria tramitar pelas duas casas
legislativas e, ao final, ser sancionada ou vetada pelo Presidente da
República. O STF usurpou a atribuição dos outros dois poderes
sobre o pretexto de garantir fazer cumprir o artigo 5, inciso X, da
Constituição Federal – CF que é cláusula pétrea, que trata dos
direitos e garantias fundamentais e destaca: “são invioláveis a
intimidade, a vida privada”. Ora, por essas interpretações o que
poderia impedir considerar como “família” relações afetivas
entre três ou mais indivíduos e obrigar os cartórios a celebrarem
esses casamentos?
A livre interpretação de conveniência
não ocorre somente no plenário do STF. Não podemos esquecer que
coube ao juiz Ricardo Lewandowski, ao presidir o processo de
impeachment de Dilma, manter os direitos políticos da presidente
rasgando a CF (artigo 52). Lewandowski (a época presidente do STF)
por conta própria decidiu que Dilma poderia, mesmo sendo destituída
do poder pelo Congresso Nacional, candidatar-se nas eleições
seguintes quando está claro que deveria ficar inelegível por oito
anos, assim como Collor o foi. Lewandowski permitiu-se colocar acima
da CF o artigo 33 da Lei 1079 de 1950 que diz que caberia ao
presidente do STF fixar o “prazo de inabilitação”. Ora,
qualquer estudante de direito, o mais vagabundo possível, sabe que
nenhuma lei infraconstitucional pode ser maior que a própria CF e,
ainda mais, que as leis anteriores poderiam ser recepcionadas pela
Constituição de 1988, desde que não entrassem em conflito com a
mesma. Neste caso, a imprensa de modo geral questionou o fato e
perguntava-se em qual parte do artigo 52, parágrafo único, da CF
que diz “à perda do cargo, com inabilitação, por oito anos, para
o exercício de função pública” recepciona o artigo 33 da lei de
1950? A partir disto, instalou-se no Planalto Central uma sucursal do
Olimpo na qual os juízes do STF tem poderes de semideuses.
Recentemente coube ao atual presidente
do STF, o juiz Dias Toffoli, rasgar novamente a CF (artigo 5, inciso
IX) quando em censura prévia mandou retirar e multar o jornal
eletrônico O Antagonista e a Revista Crusoé por publicar uma
notícia verdadeira. Os periódicos informavam que Marcelo Odebrecht
esclareceu a Lava Jato que o codinome “amigo, do amigo, do meu pai”
era o que designava Dias Toffoli. Porém, dessa vez, foi tão feroz a
repercussão da mídia em defesa da liberdade de imprensa que Dias
Toffoli suspendeu a censura. Se não bastasse todas essas evidências
que o STF age como poder hegemônico sobre os demais, para mim a mais
clara prova foi a recente decisão de equiparar a homofobia ao
racismo.
A Ação Direta de
Inconstitucionalidade por Omissão – ADO 26 questiona o fato do
Congresso Nacional ainda não ter votado uma lei que garanta a
criminalização da homofobia como se o Senado e a Câmara Federal
tivesse um prazo para tal. Não há previsão na CF de prazo para o
Congresso votar e aprovar projetos de leis, assim como não há prazo
para o STF julgar os inúmeros processos criminais que estão em sua
tutela (alguns até prescrevendo). Vale lembrar que um juiz do STF
pode sobrestar um processo com um “pedido de vista” e não tem
prazo definido que o obrigue a devolvê-lo. Assim, por mais que caiba
ao STF interpretar a CF isso não pode ser entendido como uma licença
para legislar, ou obrigar o Congresso Nacional a decidir quando e
quais leis deve colocar em votação.
O Senado e a Câmara Federal, por
princípio, representam o conjunto da sociedade por serem seus
membros eleitos em um processo democrático. Desta forma, a maioria
dos congressistas, em seu tempo de legislatura, refletem o que deseja
a maioria dos eleitores em um país no qual o voto é obrigatório e
permitido ao analfabeto e facultativo aos 16 anos. Se nas últimas
eleições a escolha dos eleitores foi alinhar-se mais à direita
liberal e com viés de conservadorismo é porque os valores que
constituem a moral cristã majoritária rejeitou o “progressismo”
da esquerda. Neste ponto, analiso que foi mais importante para a
maioria do eleitorado eleger o conservadorismo do que uma política
econômica liberal e basta olhar o que mais se discutiu durante a
última eleição. Criminalizar a homofobia é colocar a
subjetividade do que seja isso para uma decisão de qualquer juiz de
primeiro grau. Por exemplo, no dia 27 de maio uma faixa com os
dizeres “em terra de homofóbicos casamento de gay é arte” foi
retirada da fachada do Banco do Nordeste em Fortaleza e um dos
responsáveis por colocá-la ali acusou o banco de homofobia. O Banco
do Nordeste justificou a retirada da faixa como "descaracterizando
a fachada do prédio e comprometendo sua identidade visual", mas
ainda assim afastou o gerente executivo do centro cultural. Se uma
faixa ordinária como tantas outras que vemos fixadas na cidade é
uma obra de arte, sinceramente eu não sei como classificar um quadro
renascentista como Mona Lisa. O STF está colocando a espada de
Dâmocles na cabeça da sociedade que doravante olhará um
homossexual como um intocável e pondo uma mordaça nas convicções
religiosas que incluem como pecado o ato sexual entre indivíduos do
mesmo sexo. Alguém poderá dizer que estou radicalizando, mas basta
ver as consequências do ato para um gerente execrado em fazer
cumprir um julgamento estético no qual uma faixa (seja ela qual for)
não ser adequada para ser fixada na porta de entrada de um prédio
público/privado. Dizem que a cabeça de juiz é que nem fralda de
criança, na qual não podemos prever olhando de longe o que há
dentro, podendo o gerente ser processado por homofobia e, a depender
do juiz, condenado. Outro fato recente foi um vídeo que circulou nas
redes sociais no qual um travesti invade um culto religioso e passa a
cobrar o pastor, com palavras de baixo calão, uma suposta dívida de
favor sexual. Os fieis que estavam naquela igreja nada tinham a ver
com o que supostamente ocorreu na intimidade entre os dois e, a meu
juízo, foram profundamente desrespeitados. Porém, imaginemos que um
fiel, no calor da emoção, o tivesse a expulsado a força do local
certamente a homofobia estaria caracterizada na mente dos
“progressistas”.
Advogo uma sociedade sem a necessidade
do “empoderamento” de indivíduos, pois não é certo que os
empoderados saberão usar esse “poder” com responsabilidade.
Recentemente vimos vídeo de uma mulher mutilando-se para atribuir ao
companheiro uma falsa acusação de violência, bem como outro vídeo
com Maria do Rosário (PT-RS) arremessando-se contra os seus pares e
os acusando de tê-la empurrado em uma atitude patética e deplorável
de simulação de violência contra mulher. Ambas não perceberam que
estavam sendo filmadas. Prefiro uma sociedade em que todos sejam
regidos pelas mesmas leis, não atribuindo a verdade dos fatos a
necessidade da apresentação de uma imagem de vídeo. Infelizmente
na vida comum não temos o VAR do futebol e a prosseguir nessa linha
caminhamos para uma sociedade judicializada nos costumes e regida
pela visão eventualmente tacanha de onze juízes.
Finalizo relembrando que cabe ao Senado
demonstrar aos onze juízes do STF que não são semideuses e que
alguns, dentro do processo democrático e a luz da CF (artigo 52,
inciso II), já deveriam ter sofrido impeachment.
João Lago.
terça-feira, 23 de abril de 2019
Eu sei o que vocês fizeram no verão passado
O título desta resenha faz menção a uma película de 1988 na qual um grupo de adolescentes cometem um crime. Passou o tempo e esses jovens seguem suas vidas, cada um para um lado, mas em um dado momento, quando finalmente reencontram-se, recebem um bilhete com a seguinte frase: “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado”. Daí em diante, um por um, vão sendo eliminados pela mão vingativa de um gancho de pescador.No verão de 2014, mas precisamente no dia 17 de março, foi deflagrada a Operação Lava Jato que desnudou empresários e políticos em uma rede de corrupção que hoje somam mais de duzentas condenações e mais de três séculos em anos de prisão. Neste mês de abril, o desfecho trágico de um suicídio de um político envolvido na corrupção promovida pela Odebrecht ganhou as manchetes de portais no Brasil e no mundo. Porém, antes que se creia que a vergonha de ser corrupto leve um político a tirar a vida no Brasil, não se iluda, quem se matou foi o ex-presidente do Peru Alan Garcia. No âmbito da América Latina, a construtora brasileira Odebrecht tornou-se desde 2001 uma multinacional que é sinônimo de corrupção e cuja reputação está enlameada de tal sorte que não creio que se possa lavá-la com jatos de probidade em futuro próximo. Essa construtora, enquanto houver desdobramento da Lava Jato, está a assombrar algumas almas aqui e no exterior.
Terminou o verão no hemisfério sul e uma nova classe de assombrados foram incluídos no fantasma da Odebrecht, tratam-se de ministros do Superior Tribunal Federal – STF. Uma notícia que poderia até passar despercebida, publicada em dois periódicos eletrônicos quase que desconhecidos do grande público (Antagonista e Crusoé), ganharam notoriedade ao serem censurados pelas canetas dos Ministros do STF José Antônio Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Se a intenção era abafar a notícia, o remédio apresentou um severo efeito colateral e hoje fica difícil censurar as inúmeras menções, nas mais diversas mídias, que citam quem é o dono do codinome “amigo, do amigo de meu pai”. Foram tão duras as reações nas diversas esferas institucionais da república que a censura do STF não durou trinta dias, mas ainda se espera a revogação da investigação conduzida pelo STF que pasmem, ainda há de ser o julgador, ao que alguns dizem ser perseguição inquisitória, que o STF promove na busca de fazer calar os seus críticos.
A Lava Jato é como um cemitério clandestino que a cada corpo retirado descobre-se a história que há por detrás daquele assassinato e como foram muitos os corpos sepultados, e tão longas são as autópsias, que deixam os culpados pelos delitos assombrados com a possibilidade do próximo cadáver possa ser vinculado a sua confortável vida atual. E é justamente por causa disto que alguns teimam em desacreditar a Lava Jato e desejam muito encerrá-la com a desculpa que os principais culpados já foram punidos e o que sobrou assemelha-se a uma caça as bruxas (algumas milionárias, ou em altos cargos da república). Porém, aqui não se trata de pessoas com a consciência pesada, cheias de vergonha do que fizeram e desejosas de absolvição. Muito pelo contrário, pois quando descobertas não botam uma bala na cabeça temerosas pela desonra, mas enchem o peito e usam o prestígio, ou o dinheiro acumulado no butim, para escapar da prisão.
A sociedade brasileira sabe o que vocês fizeram no verão passado, esteja no poder executivo, legislativo ou judiciário e enquanto tivermos a democracia e a imprensa livre muitos esqueletos ainda serão exumados dessa cova rasa.
João Lago
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019
Assinar:
Postagens (Atom)




