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domingo, 16 de junho de 2019

A supremacia conveniente da ignorância


Albert Einstein era judeu e independentemente de ser um grande cientista o fato de ser judeu era superveniente a sua condição intelectual. O nazismo agiu dessa maneira, sua régua olhava o indivíduo como sendo pertencente, ou não, de uma elite gênica que estava ali ungida para herdar e governar a terra. Assim, não somente mandou para campos de concentração os judeus, mas também os ciganos, homossexuais, comunistas e demais antagonistas de sua supremacia racial e ideológica. Já com a pequena comunidade negra existente na Alemanha o nazismo foi mais complacente, a partir das leis raciais de Nuremberg de 1935 foram proibidas os “casamentos raciais”, os casais mistos obrigados a separarem-se e o que não tinha “sangue alemão” convidado a ser esterilizado.

Wernher von Braun também foi um grande cientista alemão, filiado ao nazismo e o seu conhecimento foi colocado em prática na fabricação dos mísseis V-2 que caíram sobre Londres no final da segunda guerra mundial. Quando a guerra terminou, apesar de sua participação relevante no poderio bélico nazista, foi levado para os EUA onde todo o seu conhecimento em fabricação de foguetes foi utilizado no programa espacial estadunidense nas décadas de 60 e 70. Não somente von Braun foi importante para a chegada do homem à Lua, mas se hoje temos comunicações via satélite foi por sua contribuição no aperfeiçoamento de veículos lançadores de satélites. Nesse ponto é que Einstein e von Braun unem-se em suas descobertas, pois se foi por meio das equações de Einstein que foi possível a construção da bomba atômica, também foi por intermédio dos foguetes de von Braun que as ogivas nucleares foram apontadas para o “inimigo” e durante quarenta e quatro anos vivemos em guerra fria (EUA capitalista versus URSS comunista). As guerras são um flagelo no qual governos e ideologias digladiam-se em meio a uma população civil que eventualmente os apoiam, ou não. Porém, a história nos ensina que líderes com o interesse voltado para a coletividade são paridos em ambiente democrático. Porém, também é fato que a democracia pode fornecer uma porta de acesso aos déspotas que uma vez instalados como governo tratam de destruir as instituições que permitiram levá-los ao poder. Desta forma, a sustentação do Estado Democrático de Direito depende do grau de maturidade da democracia e o quanto a Constituição que a sustenta é respeitada e seguida. Assim, não há justificativa dentro da democracia que possa permitir uma ruptura institucional por menor que seja, pois todos estão abaixo das mesmas leis e são iguais perante elas.

O Nazismo subiu ao poder na Alemanha não por um golpe de Estado, mas porque se aproveitou da frágil democracia de um país arrasado economicamente para construir um governo autoritário que perseguia e assassinava pessoas. Einstein não teria tido a chance de formular a teoria da relatividade, pois antes disto teria sido enviado para um campo de concentração. Ao mesmo tempo, Wernher von Braun poderia ter sido julgado e condenado à morte pelo tribunal de Nuremberg por crimes contra a humanidade, mas ao ser capturado pelos EUA conseguiu convencer que era tão somente um cidadão alemão que não tinha escolhas, ou seja, deveria contribuir para o nazismo ou seria morto. Chegou a alegar que para não ser chamado de comunista teve que participar como membro nazista e durante toda sua vida nos EUA foi confrontado quanto a sinceridade dessa afirmação. Se o nazismo fosse democrático essa afirmação não faria o menor sentido.

A “caça as bruxas” acontece quando as instituições democráticas deixam de garantir os direitos fundamentais para qualquer cidadão e o indivíduo é perseguido não por atos criminosos, mas por seu posicionamento ideológico, ou por conjuntos como fatores étnicos, opção sexual etc. Os amantes do autoritarismo começam comendo pelas bordas tratando de suprimir o contrário dentro de suas esferas de poder. Mandam exonerar funcionários públicos que no passado serviram, ou contrariaram o interesse pessoal do tirano. Perseguem ícones do pensamento humanístico chamando-os de “comunistas” e patrulham eventuais seguidores como uma raça a ser subtraída do mundo. Na verdade, são terraplanistas da ignorância que nem a toda equação elegante de Einstein, nem qualquer foguete de von Braun que os leve a estratosfera os farão crer que o mundo é redondo.

João Lago

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Os poderes ilimitados dos onze juízes do STF


Quando o iluminismo francês pariu a divisão do Estado em três poderes (legislativo, judiciário e executivo) tinha a intenção de evitar a concentração do poder nas mãos de uma só pessoa. Foi assim que a base do Estado Democrático de Direito, como hoje conhecemos, foi construída nas nações ocidentais, sejam elas monarquias ou presidencialistas. Porém, a usurpação do poder, de tempos em tempos, seduziu e seduzirá integrantes dos três poderes e, infelizmente, o Brasil apresenta este viés pernicioso e deletério para nossa democracia.

O Superior Tribunal Federal – STF é o que atualmente mais avança sobre o legislativo e por meio de suas ações atropelam o Congresso Nacional com decisões de efeito de norma constitucional e modificando o entendimento das leis infraconstitucional e de aplicação imediata. Neste caso, o entendimento de onze juízes sobrepõem-se as duas casas legislativas, inclusive ao poder executivo que tem a prerrogativa de sancionar ou vetar a lei. A primeira investida do STF foi quando em maio de 2011 deu a união homoafetiva o mesmo status de casamento e fez o Conselho Nacional de Justiça – CNJ, em maio de 2013, obrigar os cartórios a celebrarem o casamento de casais de mesmo sexo. Vale destacar que a decisão do STF ignorou o artigo 226, parágrafo 3, que colocava sobre a proteção do Estado a união de “homem e mulher” como “entidade familiar”. Foi justamente nessa questão semântica entre “família” e “entidade familiar”, não considerada como sinônimos, que a Ação Direta de Inconstitucionalidade 4.277 colocou em contradição o artigo 226 e o seu caput. A partir disso, haja vista as inúmeras possibilidades de interpretação semântica, estava aberta ao STF legislar e sancionar qualquer coisa. Reitero que a modificação desse entendimento seria de exclusividade do Congresso Nacional por meio de uma Proposta de Emenda Constitucional que deveria tramitar pelas duas casas legislativas e, ao final, ser sancionada ou vetada pelo Presidente da República. O STF usurpou a atribuição dos outros dois poderes sobre o pretexto de garantir fazer cumprir o artigo 5, inciso X, da Constituição Federal – CF que é cláusula pétrea, que trata dos direitos e garantias fundamentais e destaca: “são invioláveis a intimidade, a vida privada”. Ora, por essas interpretações o que poderia impedir considerar como “família” relações afetivas entre três ou mais indivíduos e obrigar os cartórios a celebrarem esses casamentos?

A livre interpretação de conveniência não ocorre somente no plenário do STF. Não podemos esquecer que coube ao juiz Ricardo Lewandowski, ao presidir o processo de impeachment de Dilma, manter os direitos políticos da presidente rasgando a CF (artigo 52). Lewandowski (a época presidente do STF) por conta própria decidiu que Dilma poderia, mesmo sendo destituída do poder pelo Congresso Nacional, candidatar-se nas eleições seguintes quando está claro que deveria ficar inelegível por oito anos, assim como Collor o foi. Lewandowski permitiu-se colocar acima da CF o artigo 33 da Lei 1079 de 1950 que diz que caberia ao presidente do STF fixar o “prazo de inabilitação”. Ora, qualquer estudante de direito, o mais vagabundo possível, sabe que nenhuma lei infraconstitucional pode ser maior que a própria CF e, ainda mais, que as leis anteriores poderiam ser recepcionadas pela Constituição de 1988, desde que não entrassem em conflito com a mesma. Neste caso, a imprensa de modo geral questionou o fato e perguntava-se em qual parte do artigo 52, parágrafo único, da CF que diz “à perda do cargo, com inabilitação, por oito anos, para o exercício de função pública” recepciona o artigo 33 da lei de 1950? A partir disto, instalou-se no Planalto Central uma sucursal do Olimpo na qual os juízes do STF tem poderes de semideuses.

Recentemente coube ao atual presidente do STF, o juiz Dias Toffoli, rasgar novamente a CF (artigo 5, inciso IX) quando em censura prévia mandou retirar e multar o jornal eletrônico O Antagonista e a Revista Crusoé por publicar uma notícia verdadeira. Os periódicos informavam que Marcelo Odebrecht esclareceu a Lava Jato que o codinome “amigo, do amigo, do meu pai” era o que designava Dias Toffoli. Porém, dessa vez, foi tão feroz a repercussão da mídia em defesa da liberdade de imprensa que Dias Toffoli suspendeu a censura. Se não bastasse todas essas evidências que o STF age como poder hegemônico sobre os demais, para mim a mais clara prova foi a recente decisão de equiparar a homofobia ao racismo.

A Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão – ADO 26 questiona o fato do Congresso Nacional ainda não ter votado uma lei que garanta a criminalização da homofobia como se o Senado e a Câmara Federal tivesse um prazo para tal. Não há previsão na CF de prazo para o Congresso votar e aprovar projetos de leis, assim como não há prazo para o STF julgar os inúmeros processos criminais que estão em sua tutela (alguns até prescrevendo). Vale lembrar que um juiz do STF pode sobrestar um processo com um “pedido de vista” e não tem prazo definido que o obrigue a devolvê-lo. Assim, por mais que caiba ao STF interpretar a CF isso não pode ser entendido como uma licença para legislar, ou obrigar o Congresso Nacional a decidir quando e quais leis deve colocar em votação.

O Senado e a Câmara Federal, por princípio, representam o conjunto da sociedade por serem seus membros eleitos em um processo democrático. Desta forma, a maioria dos congressistas, em seu tempo de legislatura, refletem o que deseja a maioria dos eleitores em um país no qual o voto é obrigatório e permitido ao analfabeto e facultativo aos 16 anos. Se nas últimas eleições a escolha dos eleitores foi alinhar-se mais à direita liberal e com viés de conservadorismo é porque os valores que constituem a moral cristã majoritária rejeitou o “progressismo” da esquerda. Neste ponto, analiso que foi mais importante para a maioria do eleitorado eleger o conservadorismo do que uma política econômica liberal e basta olhar o que mais se discutiu durante a última eleição. Criminalizar a homofobia é colocar a subjetividade do que seja isso para uma decisão de qualquer juiz de primeiro grau. Por exemplo, no dia 27 de maio uma faixa com os dizeres “em terra de homofóbicos casamento de gay é arte” foi retirada da fachada do Banco do Nordeste em Fortaleza e um dos responsáveis por colocá-la ali acusou o banco de homofobia. O Banco do Nordeste justificou a retirada da faixa como "descaracterizando a fachada do prédio e comprometendo sua identidade visual", mas ainda assim afastou o gerente executivo do centro cultural. Se uma faixa ordinária como tantas outras que vemos fixadas na cidade é uma obra de arte, sinceramente eu não sei como classificar um quadro renascentista como Mona Lisa. O STF está colocando a espada de Dâmocles na cabeça da sociedade que doravante olhará um homossexual como um intocável e pondo uma mordaça nas convicções religiosas que incluem como pecado o ato sexual entre indivíduos do mesmo sexo. Alguém poderá dizer que estou radicalizando, mas basta ver as consequências do ato para um gerente execrado em fazer cumprir um julgamento estético no qual uma faixa (seja ela qual for) não ser adequada para ser fixada na porta de entrada de um prédio público/privado. Dizem que a cabeça de juiz é que nem fralda de criança, na qual não podemos prever olhando de longe o que há dentro, podendo o gerente ser processado por homofobia e, a depender do juiz, condenado. Outro fato recente foi um vídeo que circulou nas redes sociais no qual um travesti invade um culto religioso e passa a cobrar o pastor, com palavras de baixo calão, uma suposta dívida de favor sexual. Os fieis que estavam naquela igreja nada tinham a ver com o que supostamente ocorreu na intimidade entre os dois e, a meu juízo, foram profundamente desrespeitados. Porém, imaginemos que um fiel, no calor da emoção, o tivesse a expulsado a força do local certamente a homofobia estaria caracterizada na mente dos “progressistas”.

Advogo uma sociedade sem a necessidade do “empoderamento” de indivíduos, pois não é certo que os empoderados saberão usar esse “poder” com responsabilidade. Recentemente vimos vídeo de uma mulher mutilando-se para atribuir ao companheiro uma falsa acusação de violência, bem como outro vídeo com Maria do Rosário (PT-RS) arremessando-se contra os seus pares e os acusando de tê-la empurrado em uma atitude patética e deplorável de simulação de violência contra mulher. Ambas não perceberam que estavam sendo filmadas. Prefiro uma sociedade em que todos sejam regidos pelas mesmas leis, não atribuindo a verdade dos fatos a necessidade da apresentação de uma imagem de vídeo. Infelizmente na vida comum não temos o VAR do futebol e a prosseguir nessa linha caminhamos para uma sociedade judicializada nos costumes e regida pela visão eventualmente tacanha de onze juízes.

Finalizo relembrando que cabe ao Senado demonstrar aos onze juízes do STF que não são semideuses e que alguns, dentro do processo democrático e a luz da CF (artigo 52, inciso II), já deveriam ter sofrido impeachment.

João Lago.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Eu sei o que vocês fizeram no verão passado

O título desta resenha faz menção a uma película de 1988 na qual um grupo de adolescentes cometem um crime. Passou o tempo e esses jovens seguem suas vidas, cada um para um lado, mas em um dado momento, quando finalmente reencontram-se, recebem um bilhete com a seguinte frase: “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado”. Daí em diante, um por um, vão sendo eliminados pela mão vingativa de um gancho de pescador.

No verão de 2014, mas precisamente no dia 17 de março, foi deflagrada a Operação Lava Jato que desnudou empresários e políticos em uma rede de corrupção que hoje somam mais de duzentas condenações e mais de três séculos em anos de prisão. Neste mês de abril, o desfecho trágico de um suicídio de um político envolvido na corrupção promovida pela Odebrecht ganhou as manchetes de portais no Brasil e no mundo. Porém, antes que se creia que a vergonha de ser corrupto leve um político a tirar a vida no Brasil, não se iluda, quem se matou foi o ex-presidente do Peru Alan Garcia. No âmbito da América Latina, a construtora brasileira Odebrecht tornou-se desde 2001 uma multinacional que é sinônimo de corrupção e cuja reputação está enlameada de tal sorte que não creio que se possa lavá-la com jatos de probidade em futuro próximo. Essa construtora, enquanto houver desdobramento da Lava Jato, está a assombrar algumas almas aqui e no exterior.

Terminou o verão no hemisfério sul e uma nova classe de assombrados foram incluídos no fantasma da Odebrecht, tratam-se de ministros do Superior Tribunal Federal – STF. Uma notícia que poderia até passar despercebida, publicada em dois periódicos eletrônicos quase que desconhecidos do grande público (Antagonista e Crusoé), ganharam notoriedade ao serem censurados pelas canetas dos Ministros do STF José Antônio Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Se a intenção era abafar a notícia, o remédio apresentou um severo efeito colateral e hoje fica difícil censurar as inúmeras menções, nas mais diversas mídias, que citam quem é o dono do codinome “amigo, do amigo de meu pai”. Foram tão duras as reações nas diversas esferas institucionais da república que a censura do STF não durou trinta dias, mas ainda se espera a revogação da investigação conduzida pelo STF que pasmem, ainda há de ser o julgador, ao que alguns dizem ser perseguição inquisitória, que o STF promove na busca de fazer calar os seus críticos.

A Lava Jato é como um cemitério clandestino que a cada corpo retirado descobre-se a história que há por detrás daquele assassinato e como foram muitos os corpos sepultados, e tão longas são as autópsias, que deixam os culpados pelos delitos assombrados com a possibilidade do próximo cadáver possa ser vinculado a sua confortável vida atual. E é justamente por causa disto que alguns teimam em desacreditar a Lava Jato e desejam muito encerrá-la com a desculpa que os principais culpados já foram punidos e o que sobrou assemelha-se a uma caça as bruxas (algumas milionárias, ou em altos cargos da república). Porém, aqui não se trata de pessoas com a consciência pesada, cheias de vergonha do que fizeram e desejosas de absolvição. Muito pelo contrário, pois quando descobertas não botam uma bala na cabeça temerosas pela desonra, mas enchem o peito e usam o prestígio, ou o dinheiro acumulado no butim, para escapar da prisão.

A sociedade brasileira sabe o que vocês fizeram no verão passado, esteja no poder executivo, legislativo ou judiciário e enquanto tivermos a democracia e a imprensa livre muitos esqueletos ainda serão exumados dessa cova rasa.

João Lago

sábado, 26 de janeiro de 2019

Meio século mais dois...


A procura da caixa preta de Brumadinho

Em 30 de junho do ano passado o sítio na internet FlightRadar24 registrou duzentos e vinte e dois mil aviões cruzando o céu do planeta, com uma estimativa de trinta milhões de passageiros voando para algum destino. Essa quantidade de gente é muito maior que a população de todo o estado de Minas Gerais que em 2018 registrava pouco mais de vinte milhões. Apesar da quantidade de passageiros transportada em voos comerciais, ainda assim não se tem notícia de qualquer acidente aéreo nesse dia, bem como em todo o mês de junho que envolva mais de uma dezena de vítimas. Sem qualquer sombra de dúvidas o transporte aéreo é o mais seguro do mundo e morre-se mais em acidentes rodoviários. Porém, sempre que somos surpreendidos com acidentes aéreos, ficamos comovidos, quando eventualmente a queda de uma aeronave envolve um grande número de pessoas, criando uma sensação de insegurança e medo.

A segurança no transporte aéreo não acontece por acaso, mesmo porque são poucos os fabricantes de aeronaves no mundo e a certeza do transporte seguro é que faz que milhões de pessoas no planeta escolha viajar de avião. A investigação profunda das causas de acidentes aéreos e investimentos em sistemas redundantes de precaução de sinistros, prevendo que havendo falhas seja possível que outro sistema entre em ação em contingência a fim de evitar o desastre. A existência das “caixas pretas” e até mesmo a reconstituição peça por peça de uma aeronave acidentada para entender as causas do acidente são medidas cruciais para aumentar a segurança do transporte aéreo. Com tudo isso, aprende-se com os erros, aprimorando a tecnologia de fabricação de aviões e havendo falha humana investe-se ainda mais em sistemas redundantes e no treinamento de pilotos em simuladores de voo. A segurança de voo é construída por uma indústria que depende de outros atores que estão além dos hangares de montagem de aviões, mas, ainda assim, apesar da complexidade sistêmica compreende-se que um acidente deve servir de alerta para que idêntico erro não se reproduza no futuro.

A Vale S/A, uma das poucas multinacionais brasileiras, ao inverso da indústria aeronáutica é senhora absoluta do controle da sua própria segurança. Isto significa que o investimento no monitoramento de falhas não depende de fatores externos, mas de uma atuação pontual e discricionária da mineradora. Lembro que quando aquele prédio em São Paulo em maio de 2018 pegou fogo e desabou, bombeiros instalaram no prédio ao lado, que corria risco de ruir, um detetor a laser que monitorava qualquer mínima vibração que pudesse indicar risco de desmoronamento. Países como Japão e Chile, localizados em regiões sujeitas a terremotos, adaptaram a tecnologia da construção civil no sentido de criar prédios que resistam a tremores de terra e, por outro lado, investem em treinamento da população de como agir durante terremotos. Localidades nos EUA, sujeitas a tornados, incentivam a população a criar abrigos subterrâneos para que a vida seja preservada, pois é certo que o fenômeno natural quando acontece destrói tudo que encontra pelo caminho. Todos esses exemplos, e tantos outros que possam ser citados, não impedem os danos materiais, mas certamente poupariam vidas se empregados nas regiões que estejam no caminho de vazamento de dejetos, caso haja rompimento de barreiras. Se a Vale tivesse colocado em seu refeitório um abrigo subterrâneo com cilindros de oxigênio que durassem pelo menos 72h, certamente haveria tempo suficiente para que as equipes de resgate pudessem socorrer as vítimas da tragédia. Ao mesmo tempo, se sensores fossem instalados, e que estivem ligados a uma rede de sirenes e de informação instantânea de perigo, também haveria menos perdas de vidas. Igualmente não creio que a população que esteja no caminho de qualquer eclosão de barreiras tivessem passado por qualquer tipo de treinamento de evacuação do local patrocinado pela Vale ou por qualquer organismo governamental. Duvido que na pousada soterrada havia informação que aquela localidade estava na zona de perigo de uma possível (mas muito provável como se demonstrou) rota de destruição no caso de rompimento de uma barreira. A única certeza que podemos ter é a da ignorância no sentido lato da palavra. As pessoas estão sobre verdadeiros barris de pólvora e a conclusão a que chegamos é da omissão e incompetência da Vale, dos órgãos de controle do estado e da total ignorância da população atingida.

Novamente uma tragédia nos chama atenção e repete-se em Minas Gerais, envolvendo outra vez a Vale S/A. Parece-nos que o sinistro ocorrido em Mariana não foi suficientemente didático para prevenir novos acontecimentos. Esperamos sinceramente que a lição tenha sido aprendida de uma vez por todas, inclusive desmitificando que as questões de segurança e de controle ambiental atrapalhem as empresas. Os fatos como de Mariana e Brumadinho são a ponta do iceberg de todas as demais tragédias, seja de pequena ou grande monta, que a frouxidão do controle ambiental e da segurança podem trazer em curto ou longo prazo, seja nas montanhas de Minas Gerais, nas boates de regiões metropolitas (Canecão Mineiro e Boate Kiss são exemplo disto) ou na dimensão da biodiversidade amazônica.


João Lago

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Amores Stalinistas

Foi-se o tempo que as nossas lembranças eram guardadas em álbuns de recordações, pois com o advento das redes sociais a maioria já não imprime suas fotos. O Facebook, Instagram etc., passaram a ser o álbum vivo da trajetória de vida de muitas pessoas. Isto quer dizer que se alguém quiser no futuro pesquisar a vida de outrem, será muito provável que pesquise nessas plataformas, além de outras como Twitter, Linkedin etc. Hoje até Donald Trump utiliza o Twitter como meio de comunicação e esse microblog teve que flexibilizar sua política de uso para o presidente dos EUA. Essa polêmica se deu quando o presidente estadunidense ameaçou a Coreia do Norte e ameças são excluídas, mas isso vale para qualquer outro mortal, menos para o presidente dos EUA. Neste caso, o Twitter não excluiu a postagem por atribuir a mesma o peso de uma notícia relevante, ou seja, uma declaração que no futuro merecerá ser citada como um registro histórico. O dilema entre excluir ou manter está ligado ao fato que as declarações que possam ter repercussão jornalística não podem ser perdidas. Porém, será que isto somente tem valor para pessoas públicas? Como as pessoas comuns tratam a produção de conteúdo de suas próprias vidas? Mas, antes de desenvolver uma reflexão acerca disto vamos relembrar um fato do Século passado.

A pesquisa histórica sobre os líderes da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, sem qualquer sombra de dúvidas, a personagem mais polêmica foi Josef Stalin, principalmente pela perseguição aos inimigos do regime comunista que eram sumariamente eliminados. Contudo, não eram somente as figuras anônimas vítimas de perseguição, pois o regime de terror também não perdoava nem mesmo os aliados. Esses poderiam subitamente transformarem-se em inimigos e assassinados. Porém, os mais íntimos que participaram do círculo de poder tinha uma condenação adicional além da pena de morte: o esquecimento. Isto se dava pela eliminação do indivíduo nos registros históricos, até mesmo das fotos oficiais que eram retocadas manualmente para que desaparecessem. Assim, era uma surpresa bizarra comparar fotos antigas com as fotos divulgadas como oficiais da história do partido comunista, pois as pessoas simplesmente desapareciam.

Os álbuns de famílias são peças em desuso, mas quando eram comuns não havia a preocupação em descartar as fotos de relacionamentos passados, pois como geralmente jaziam em uma gaveta, normalmente olhar as fotos antigas era motivo de riso, ou até mesmo de alívio porque determinada pessoa passou e não ficou. Porém, nos relacionamentos modernos, em que o álbum deixou de ser privado e agora é virtual e disponível nas redes sociais, os namoros, casamentos etc., antes festejados e emoldurados com juras de amor, ao final do relacionamento o ser outrora amado é sumariamente apagado. Esse processo de higienização é muito parecido com a preocupação de Josef Stalin em apagar dos registros históricos todos os seus desafetos. As pessoas simplesmente surgem ganhando destaque nos registros fotográficos e, logo em seguida, desaparecem. Essa amnésia programada assemelha-se muito ao que dizia um velho amigo quando falava de seus relacionamentos: “quando conheço uma mulher no máximo serei o terceiro homem da vida dela, pois de forma sumária os outros amores com menos destaque são condenados ao esquecimento”. E completava: “jamais encontrei uma mulher que diga que antes de mim ela namorou muitos”. Certa vez também ouvi de uma amiga que entre os que considerava namorados existiam os “plim-plim”, ou seja, algo menor e totalmente desprovidos de nome. É o tal do senso comum e se restam dúvidas disto basta uma pequena enquete entre algumas pessoas conhecidas e que sejam capazes de dar uma resposta sincera.

Negar o próprio passado é como se negasse a própria história de vida, mas quem se preocupa em escamotear sentimentos passados, antes deveria preocupar-se com o Erro 404, no qual as informações contidas na internet simplesmente desaparecem. Nesses casos, seria bem menos hipócrita (e seguro para recordações) deixar os registros românticos no velho e antiquado álbum de retratos.


João Lago.