domingo, 18 de novembro de 2018
quarta-feira, 31 de outubro de 2018
segunda-feira, 29 de outubro de 2018
A sorte está lançada
Engana-se
quem pensa que o resultado das urnas significa uma vitória, ou que a
eleição de um candidato tenha o mesmo significado de vencer uma
Copa do Mundo, motivo o qual muitos eleitores foram as ruas vestindo
a camisa da seleção brasileira e soltando rojões. Porém, é
verdade que nos tempos da ditadura o ufanismo era despertado por meio
do futebol, paixão que levava a nação a vestir-se de verde e
amarelo e sublimar o que ocorria nos porões da repressão. A copa do
mundo na Rússia veio, passou e jaz esquecido o vexame histórico do
placar de 1 a 7, cuja junção de números coincide com o algarismo
do candidato que venceu a eleição presidencial. Mas, muito dirão:
foi sete a um, esquecendo que no futebol a ordem do placar é
determinada pelo mandante do campo. Ironias a parte, hoje a nossa
jovem democracia é uma balzaquiana fértil, de trinta e três anos,
que desperta olhares lascivos de quem dela deseja violar-lhe a
inocência e dela parir o autoritarismo sob a espada do proselitismo
religioso, recheado com discurso misógino, racista e preconceituoso.
Existem
dois caminhos possíveis para os quatro anos que se avizinham. O
primeiro é a confirmação, que apesar de jovem, nossa democracia
tem as instituições sólidas o suficiente para repelir qualquer
tentativa de ruptura institucional, mesmo que tenha amplo apoio
popular para tal. O segundo caminho é mais tenebroso q ue me faz
lembrar Jânio Quadros, cuja versão da história diz que renunciou a
25 de agosto de 1961 para retornar nos braços do povo e dos
militares. Isto não aconteceu e qualquer cidadão bem informado sabe
que assumiu com muito custo João Goulart (Jango), que era temido
pela elite política da época a quem chamavam de comunista. Foi
Leonel Brizola, cunhado de Jango, que tomou a frente da “campanha
da legalidade” movimento político para fazer cumprir a
constituição e fazer Jango tomar posse do cargo. Naquela época o
golpe militar estava em curso, mas foi postergado quando se esvaziou
o poder de Jango por meio da mudança de sistema de governo
presidencialista para parlamentarista. Tancredo Neves assumiu como
primeiro-ministro, mas por meio de um plebiscito em 1963 o
presidencialismo retorna novamente como sistema de governo até que
em março de 1964, um certo general Mourão, comandante da 4ª Região
Militar e da 4ª Divisão de Infantaria do I Exército, sediados em
Juiz de Fora-MG, deu início ao movimento de tropas que marchou rumo
ao Rio de Janeiro para depor Jango da presidência. Estava instalado
no Brasil uma das tantas ditaduras militares que ocorreram em toda a
América do Sul.
Existem
certas coincidências de nomes e fatos que antecedem o golpe militar
de 64 com o atual quadro político. Primeiro, que passados vinte e
nove anos da queda do muro de Berlim, marco do início da decadência
política e econômica do comunismo, nesta eleição a abordagem mais
usada pela extrema direita foi do medo patético do Brasil tornar-se
uma nação comunista. A segunda coincidência é que a falência da
centro-direita, personificada pelo PSDB que durante as últimas
campanhas presidenciais polarizava com o PT, foi a lona a partir do
envolvimento de outro Neves (Aécio neto de Tancredo) com o escândalo
de corrupção da lava-jato. Terceira coincidência é um certo
General Mourão que foi o quarto nome indicado para compor a chapa de
Bolsonaro depois que declinaram Magno Malta, Janaína Paschoal e o
príncipe Luiz Orleans e Bragança. Se não veio o general da 4a.
Região/Divisão, veio pela quarta indicação.
As
coincidências podem ser sombrias, mas no final poderão não
significar absolutamente nada e todas as bobagens ditas por Bolsonaro
e aliados, que embora interpretadas como ameaças a democracia, foram
simplesmente bravatas com o intuito de ganhar a eleição. Porém, o
que chegou a presidência da república não é um neófito, pois se
nos seus vinte e sete anos como parlamentar não conseguiu
compreender que apoio político não se conquista no parlamento
brasileiro com saliva, mas com o tão simples toma-lá-dá-cá,
poderá ser que seja mais um que ao defrontar-se com a realidade
venha a corromper-se ou, muito pior, seguir com desejos absolutos de
poder justificando para isto a inoperância das forças democráticas.
Seria bem melhor para o Brasil que as discussões políticas nesse
último pleito tivessem ficado no embate programático, mas pouco se
ouviu de propostas para a economia, educação, saúde e segurança.
O eleito sequer participou de debates, restringindo-se a uma campanha
baseada em redes sociais e mensagens de whatsapp.
A
nação brasileira assinou um cheque em branco muito difícil de ser
descontado nos próximos quatro anos. Resta saber se para descontá-lo
estará disposto a apoiar uma ditadura ou esperar que outro venha a
pagar essa conta sob a égide da democracia. Em todo o caso não
adianta mais chorar o leite derramado. A sorte está lançada.
João
Lago.
sexta-feira, 12 de outubro de 2018
Enquanto a cura não vem.
Certa
vez uma criança ficou gravemente enferma e a doença era de difícil
tratamento. Assim, a família viu-se na decisão de submetê-la a uma
terapia de cura com o viés de poder levá-la a uma morte rápida, ou
simplesmente tratá-la paliativamente, atenuando-lhe as dores e
estender sua vida por mais alguns anos, confiando que inteligência
humana poderia encontrar a cura para o mal. A idade da paciente era
crucial e as chances de morte após iniciado o tratamento eram de
95%.
O
dilema aqui proposto assemelha-se muito a nossa jovem democracia,
pois apesar de o regime democrático ser imperfeito como qualquer
arranjo humano, a possibilidade da decisão popular, de tempos em
tempos reequilibrar as forças na sociedade, faz com que a democracia
tenha supremacia a qualquer outra forma de organização política. O
remédio para os regimes autoritários sempre será a democracia e
justamente por isso que somente quando o corpo da sociedade está
enfraquecido que movimentos antidemocráticos crescem e ganham apoio
popular. Aliás, o nazismo historicamente tomou conta do povo alemão
em 1932 por meio voto popular e cresceu exclusivamente devido à
grave crise econômica que assolava a Europa no pós-guerra. A
Alemanha era um corpo alquebrado pela primeira guerra mundial e
chegou a uma inflação de mais de 1.000% ao mês. A baixa estima do
povo alemão por ter perdido a guerra e, por conseguinte, a perda de
territórios, favoreceu o discurso nacionalista de Hitler cujos
versos Deutschland, Deutschland über alles, Über alles in der
Welt (Alemanha, Alemanha acima
de todos, sobre tudo no mundo) conclamava
e evocava a superioridade
germânica. Assim, não me parece coincidência que o principal lema
do atual líder do nacionalismo brasileiro seja: “Brasil acima de
tudo. deus acima de todos”. O movimento brasileiro acrescenta
“deus” (inicial minúscula mesmo) como
um ingrediente religioso que confere um fanatismo as ideias
totalitárias tupiniquim,
como foi o próprio nazismo uma espécie de seita configurada no
culto a personalidade de Hitler. O próprio cumprimento nazista heil
Hitler (pronuncia-se rái
Hitler) é uma imitação da
saudação romana Ave César
que foi dramatizada no cinema como
uma forma de culto
obsessivo ao imperador.
Converso
com as pessoas nas ruas e observo as mensagens que circulam nas redes
sociais e concluo que os indivíduos atribuem a principal doença do
país a forma de organização política e a decadência moral e
ética da sociedade e de membros do parlamento.
Personificam
um candidato como capaz de resolver esses problemas, além de
atribuir-lhe competência para assuntos que não são da alçada da
presidência da república. Temas como o
aborto, o ativismo gay e feminista, o ensino de ideologia de gênero,
o partidarismo de
professores nas
escolas
e
a erotização promovida por uma determinada emissora de TV, pouca ou
nenhuma influência tem
na escolha do presidente.
Essas
questões estão mais voltadas na escolha de deputados
e senadores
que sejam
contrário a isso, pois
é nessa esfera de poder que as leis são forjadas. Além
disso, assuntos da tutela dos governos estaduais em sua capilaridade
como saúde, educação e segurança, são vistos como passiveis de
solução política de um único homem. Pouca, ou nenhuma atenção
se dá as políticas econômicas dos candidatos que é justamente o
que pode dar sustentabilidade a
uma paz social tão desejada.
Em
ambas as opções
que estão propostas para o segundo turno, parece desaparecer, ou
estar em segundo plano, a trajetória política dos candidatos. Um
deles, o que se aproxima de ideias fascistas, em seus vinte e sete
anos como parlamentar jamais denunciou a corrupção que levou o Rio
de Janeiro ao caos na saúde e segurança pública, sendo
esse o mesmo estado que
o elegeu a
sucessivos
mandatos como deputado federal. Aliás,
esse
tal candidato foi eleito com o hoje presidiário Sérgio Cabral,
ex-governador
fluminense
que na época de sua eleição estava na coligação "Juntos
pelo Rio". Os partidos PP, PMDB e PT estavam coligados
para elegerem Sérgio Cabral e
o PP
era
o partido do
também
hoje
presidiário
Paulo
Maluf. O
eleitor parece ignorar trajetória política tão nefasta e
acreditar que o discurso racista, misógino, homofóbico e
anticomunista
tenha poder de
purificá-lo de seu próprio passado. Já
o outro candidato, aconselha-se com um condenado
na justiça
e tem uma trajetória pífia na prefeitura de São Paulo que não o
habilita como gestor. O que mais
pesa
sobre o candidato petista é que boa parte do eleitorado também não
esqueceu o discurso de ódio do “nós contra eles” e se
identifica como adversário no “eles”, além de atribuir ao PT a
culpa pela decadência moral dos costumes e pela leniência com
a corrupção.
Como
se isso tudo não fosse suficiente, a indicação de Dilma Rousseff
como presidente demonstrou ser um fiasco total pelo descontrole com a
política econômica que levou mais de 14 milhões ao desemprego.
Como
resultado, o
esvaziamento
dos votos de Alckmin e de Marina Silva no primeiro turno indicam o
óbvio: parcela dos votos de ambos migraram para Ciro Gomes e
Bolsonaro. Porém, para o segundo turno não é certo que esse voto
de maior
de qualidade, que
permaneceu na esquerda e direita moderada, possa
migrar para Haddad ou Bolsonaro, pois o eleitor mais qualificado não
se identifica nem com um, nem com outro. A tendência é aumentarem
os votos brancos e nulos, a menos que um ou outro possa convencer o
eleitor que o passo
para o precipício
está mais
nos
pés
do adversário.
Neste
ponto Bolsonaro e Haddad tem muito em comum, a qualidade de seus
apoiadores e simpatizantes que nada agregam ao discurso conciliador
e pacificador.
Escolher
o menos pior não parece ser um caminho racional, pois a escolha do
eleitor deverá responder a pergunta crucial que está contida no
primeiro parágrafo desta reflexão: São quatro anos de um remédio
que pode matar o tecido social brasileiro e a nossa jovem democracia.
Portanto, qual das duas fórmulas tem mais chances de ser um
paliativo enquanto não vem a cura? O eleitor tem no íntimo essa
resposta e talvez por ser tão vergonhoso declará-la, só realmente
saberemos sua decisão no final da tarde do dia 28 de outubro. A
sorte está lançada e que Deus tenha piedade desta nação.
João
Lago
terça-feira, 25 de setembro de 2018
terça-feira, 11 de setembro de 2018
A micose política social
As dermatites alérgicas são combatidas com corticoides devido sua
ação imunossupressora que reduz a resposta do organismo à ação
do agente que desencadeou a reação alérgica. No entanto, se uma
micose (infecção por fungos) for confundida com uma dermatite
alérgica e um adepto da automedicação utilizar um fármaco a base
de corticoides em uma micose, em vez de resolver o problema,
aumentará ainda mais a infecção, porque ao enfraquecer o tecido
cria um ambiente propício para a doença crescer e multiplicar. Uso
essa metáfora porque na democracia face ao autoritarismo o mecanismo
funciona da mesma maneira.
A democracia, presente nos dado pela civilização grega clássica,
ainda é o melhor remédio para combater as tentativas de
autoritarismo que vez em quando voltam a nos assombrar, tanto a
direita, quanto a esquerda. E essa doença (o autoritarismo)
historicamente surge nos períodos de estagnação econômica, com o
aumento do desemprego e do empobrecimento da maioria da população.
Assim foi no século passado durante a ascensão do nazismo na
Alemanha nos anos 30 e, assim, ressurge na França em 2008 em pleno
século XXI. E o autoritarismo tem em sua gênese a escolha de um
culpado (ou culpados) para a desgraça econômica: imigrantes,
homossexuais, não cristãos etc. Promete resolver todos os problemas
por meio de um rígido controle social, restaurando a ordem e os bons
costumes com mão de ferro e quando possível suprimindo todos os que
pensam em contrário.
Na véspera do dia 7 de setembro, Jair Bolsonaro sofre um atentado de
um tresloucado que quase em um ato suicida esfaqueia o candidato em
meio a uma turba que o adjetiva de mito. Por muito menos já tive
conhecimento de pessoas serem linchadas por serem confundidas com
agressores, muitas vezes produto de lendas urbanas. Quem não se
recorda de uma mulher que em maio de 2014, na cidade de Guarujá-SP,
foi espancada até a morte porque circulava no Facebook um boato que
uma mulher sequestrava crianças para matá-las em um ritual de magia
negra. A pobre mulher foi reconhecida por peritos populares,
altamente treinados para reconhecerem semelhanças faciais, por meio
de um retrato falado grotesco produzido em uma ocorrência policial
de 2012 em Bonsucesso-RJ, distante dois anos no tempo e 512 km no
espaço do local do massacre. O único crime cometido pela mulher foi
ter oferecido uma fruta, que havia comprado pouco antes, para uma
criança que estava na rua. A mãe da criança acreditou que aquela
criatura fosse a suposta sequestradora e logo cerca de cem pessoas
começaram a persegui-la e agredi-la, principalmente porque tinha nas
mãos um livro preto de “magia negra” que na verdade era uma
Bíblia. Estou associando este fato ao atentado de Bolsonaro por dois
motivos: Primeiro porque a maioria dos eleitores de Bolsonaro parecem
acreditar que é possível fazer justiça com as próprias mãos (ou
próprias armas) como defende o candidato quando promete metralhar
seus adversários (de brincadeira lógico). Em segundo lugar porque o
agressor realmente declarou que estava disposto a ser imolado em prol
de um chamado divino, uma espécie de Jihad contra
o extremismo de direita.
A democracia
sofre um duro golpe, obviamente pelo atentado em si que qualquer
cidadão com sete graus de sensatez menores
que a minha repudiará
veementemente. Outro efeito
colateral é afastar Jair Bolsonaro dos debates, coisa que ele já
estava disposto a fazer, mas agora tem um motivo real para tal. Eram
justamente os debates o seu calcanhar de aquiles, pois é fato que
fora dos assuntos do qual está devidamente adestrado (kit gay, negar
o golpe de 64, não houve tortura na ditadura, armar a população
contra os bandidos, quilombolas vagabundos etc.) o candidato
Bolsonaro não tem muito a dizer. O
que mais me entristece e que
vejo muita gente boa, que apenas está
desiludida com a decadência
moral, principalmente aquela capitaneada pela Rede Globo de
Televisão, sentirem-se pessoalmente ofendidas em suas crenças.
Outro ponto em comum entre elas é a revolta contra as instituições,
principalmente aquela que permite que o bandido possa ter tantos
privilégios e que a corrupção seja uma prática sistêmica no
parlamento e nos governos. Não se trata absolutamente de
criminalizar a política, mas banir da política os criminosos e é
isso que o brasileiro médio tão somente deseja. Porém,
se realmente não vier uma reforma política que acabe com os
políticos profissionais, nunca
haverá uma renovação profunda nas esferas de governo, pois da
forma que está,
os partidos políticos são feudos sem qualquer ideologia e baseados
no “carisma” do dono da legenda. Os
partidos políticos, em sua maioria, tem donos no Brasil.
Não
se elimina uma micose com corticoide, da mesma forma que não se
combate o
autoritarismo com a
violência, pois ao usarmos o
remédio errado apenas criamos um substrato para a doença crescer. O
autoritarismo não se acomoda
na democracia e essa funciona
como um veneno as suas
pretensões. Portanto, é
um ato de burrice, ou insanidade, agredir um autoritário, basta que
o deixe
falar, pois o último recurso
de quem perdeu a razão é agir com violência. A força do argumento
é bem mais poderosa e faz calar que o argumento da força.
João Lago.
domingo, 5 de agosto de 2018
Alegria e responsabilidade de ser pai
Em
um texto que escrevi em maio de 2014, teci comentários a respeito da
diferença do sentimento de pertencimento entre um homem e uma mulher
em relação aos seus filhos. Dizia que enquanto o sentimento de mãe
é forjado em suas entranhas, o homem demora um pouco mais para
sentir-se pai, fato que somente ocorrerá com o filho materializado
em seus braços. Falava do amor de mãe em tese, assim como em tese
discorro boa parte das reflexões que escrevo, tentando afastar-me do
objeto para construir um pensamento isento. No entanto, como poderia
escrever sobre uma personagem tão importante na formação de nossa
personalidade, seja intrinsecamente herdada, ou mesmo adquirida nos
exemplos, e não misturar com a minha própria experiência de também
ser pai?
Fui
um pai jovem, quando aos vinte quatro anos, nove meses e vinte quatro
dias encontrava-me no centro cirúrgico vendo o meu primeiro filho
nascer. Segurava uma câmera VHS (que os mais de quarenta anos
saberão o que é isto) encolhendo-me no canto da sala e sabendo que
se por um caso eu desmaiasse não receberia auxílio, pois afinal
naquele momento nem coadjuvante eu era. Um pai na hora do nascimento
de seu filho é simplesmente torcida. Porém, além deste momento
inesquecível, tenho muitas outras lembranças da infância de meus
três filhos, mas três são significativas.
Em
1992, por motivo de trabalho fui transferido para Brasília antes que
meu filho fizesse um ano de vida, ficando mais de um mês ausente de
casa. Assim, quando retornei para buscar minha família em Manaus,
depois dessa longa ausência, lembro-me que peguei meu filho no colo
e dali ele não quis mais sair, mesmo quando a mãe estendeu-lhe os
braços, como se para ele corresse o risco de ausentar-me novamente
por tanto tempo. Posso dizer que me senti gratificado, porque naquele
momento recebi uma retribuição do amor que tanto devotava por
aquela pequena criatura.
Anos
mais tarde, aproximadamente sete anos, meu segundo filho estava
começando a balbuciar as primeiras palavras, ficando a expectativa
se entre as sílabas pronunciadas sairia papai ou mamãe. Para nossa
surpresa, ele não somente resolveu dizer papai, mas a cada tentativa
de fazê-lo dizer mamãe ele retribuía dizendo “papai, papai”,
fazendo rir todos a sua volta. Porém, enquanto que a primeira
recordação de Lucas em meu colo apenas reside na minha memória,
essa segunda de João Alfredo tenho gravada em áudio.
Quando
fui pai pela terceira vez, durante o anúncio de uma nova gravidez,
eu sinceramente pensei que fosse outro menino, porque parece que
estava fadado a ser pai de meninos. No entanto, face a minha
preocupação presente com a saúde de todos eles, além de
acompanhar todas as idas ao pediatra, também fazia questão de estar
presente no pré-natal. Lembro-me que por volta de dezesseis semanas,
durante uma das ultrassonografias de acompanhamento, a médica
perguntou se gostaríamos de saber se era menino ou menina.
Logicamente saber o sexo do bebê facilita toda uma programação
logística e dissemos que sim. Não demorou muito, para termos a
certeza que era uma menina, pela posição que Lívia se encontrava
que facilitou a identificação. Foi uma alegria muito intensa para
mim e também um desafio, porque antes estava em uma situação
confortável de ser pai de meninos, mas apreensivo em saber se me
sairia bem como pai de uma menina. Porém, posso assegurar que foi
paixão a primeira vista e antes que se possa dizer que pai e mãe
sempre tem preferência por um filho em especial, na verdade o que há
é uma preocupação seletiva por um deles, que pode ser por aquele
que apresenta uma maior fragilidade frente ao mundo. Naturalmente,
nesse mundo tão hostil em que a força bruta sobressai, ser mulher
pode ser uma desvantagem e de alguma forma procurei dar uma maior
atenção a ela.
Sou
pai de três filhos, fugindo um pouco da ditadura dos dois, na qual
um é pouco e três é demais. Isso em uma sociedade que prega o
egoísmo que provoca ausências. Mas, posso dizer que durante toda a
infância e adolescência deles, a não ser por breves momentos,
impus a minha presença, o que foi importante para fazer-me mais
humano e mais preocupado com o futuro de meu país. Até pode ser um
senso comum, ou um aforismo dizer que construir um mundo melhor tem o
intuito de deixá-lo de herança para os nossos filhos, mas na
verdade ter essa preocupação é uma demonstração de amor. Um amor
que deriva do instinto de proteção que temos por nossa família e
que reflete em tudo o que está em nossa volta.
Os
filhos crescem, escolhem os seus caminhos, mas ficam as lembranças
da ternura que é ser pai. Contudo, nem todo homem pode se sentir
vocacionado a ser pai e, por isso, a responsabilidade de colocar um
filho no mundo não pode recair somente nos ombros de uma mulher. Eu
acredito que toda a criança merece um pai presente e que toda a
união entre um homem e uma mulher, que não for no intuito de formar
uma família, seja de responsabilidade de ambos evitar uma gravidez
indesejada. Escrevo isto porque esta sociedade egoista discute
novamente a legalização do aborto no Brasil, voltando a discutir o
que pode ser considerado vida, como se o feto no ventre de uma mulher
fosse um amontoado de células a se reproduzir como um câncer. O que
mais assustador, é que na cabeça de algumas feministas, o pai está
isento do direito da paternidade, pois mesmo que deseje ver o seu
filho nascer, ela se posiciona no direito de “extirpar o câncer”
dizendo: “meu corpo, minhas regras”. Boa parte da asseveração
desse pensamento reside no fato da indiferença e ausência da
responsabilidade masculina na hora de deitar-se com uma mulher.
Concluo
dizendo que ser pai é uma experiência fantástica, mesmo que
inicialmente possa parecer um pouco assustadora. Pois nada,
absolutamente nada, pode ser tão gratificante quanto a retribuição
do amor de uma criança.
Feliz semana e dia dos pais.
João
Lago.
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