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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Que tiro foi esse?



Fazendo compras em um supermercado, para o almoço do sábado de carnaval, quando fui abordado por uma demonstradora de um energético, devidamente uniformizada com o produto que estava expondo, com uma máscara de carnaval cobrindo-lhe a face. Ato contínuo foi travado o seguinte diálogo:

- O senhor conhece a marca de nosso energético?
- Não.
- Gostaria de prová-lo?
- Sim.

Após colocar a bebida em um copo de café descartável, a demonstradora começou a relatar as qualidades intrínsecas do produto e, como forma de querer agregar valor ao energético, virou-se ficando de frente para mim e apontando para a figura que ilustrava sua camisa perguntou:

- Este aqui é o “fulano de tal” nosso garoto propaganda. O senhor conhece o nosso garoto propaganda?
- Não.

Pude constatar a decepção estampada na face da moça, pois havia destruído o segundo argumento de convencimento que a mesma provavelmente havia sido adestrada para usar com um consumidor em potencial. Assim, frente a um sujeito que se figura fora da curva de distribuição normal, ao ver aproximar-se outro consumidor abandonou-me e passou a utilizar a mesma retórica com o sujeito.  Esse encantado também com as curvas da moça acabou convencido a comprar um litro da bebida e posar para uma foto ao lado da pilha de energético.

Recentemente o apresentador de TV Zeca Camargo foi condenado em primeira instância a indenizar a família de um cantor sertanejo por uma matéria de sua autoria que criticava a cobertura da mídia pelo exagero em uma suposta comoção nacional destinada a um cantor não tão conhecido do público em geral. O sertanejo faleceu em um acidente automobilístico e sinceramente nem eu mesmo o conhecia e também na época concordei com as observações de Camargo. Porém, não era a primeira vez que me via surpreendido pelo falecimento de um cantor que fugia de minha zona de interesse musical, pois quando faleceu o cantor João Paulo, da dupla João Paulo e Daniel, foi que tive conhecimento que os dois existiam. E que me perdoem os fãs de Daniel, mas acredito que a carreira do mesmo foi turbinada na mídia a partir do desaparecimento do seu parceiro de palco. Contudo, minha completa ignorância é explicada pelo interesse mínimo que tenho no novo sertanejo que um tempo atrás era chamado de “universitário”, justamente porque estava na boca dos jovens de uma classe social mais escolarizada.

A literatura de marketing ensina que consumidores podem ser segmentados, pois é natural que mesmo indivíduos aparentemente tão diferentes possam ter alguns comportamentos convergentes, mas o estilo de vida parece determinar uma quantidade maior de padrões similares. Todavia, como nem todo homem é uma ilha, quando determinado tema (da música, literatura etc.) está fora de nossa zona de interesse, em nossos relacionamentos sociais em família, entre amigos e no trabalho, acabamos por ser bombardeados com informações que teriam o destino a vala de nossa ignorância. Neste sentido, um amigo e colega de trabalho lamentou-se comigo de uma música “chiclete” que grudou em sua boca, dessas que uma vez na memória nos remete a cantá-la como zumbis fossemos.  Tratava-se de uma esparrela chamada “que tiro foi esse”. Eu que não a conhecia e satisfeito com essa minha ignorância, fui jogado no abismo cultural que hoje separa o que chamamos de música dessas produções que empobrecem a música popular. Não somente essa música, mas a ascensão de Pablo Vittar como astro do verão brasileiro demonstra que há algo torto na percepção da estética musical. E não se trata do fato do mesmo ser gay, ou de qualquer ojeriza que se possa ter quanto à opção sexual do mesmo, mas o fato da música em si ser muito ruim. Se fosse Djavan cantando a mesma música ainda assim seria péssima. Aliás, a reação de alguns grupos as críticas que se possam existir a Pablo Vittar, atribuindo-as o fato de o mesmo ser gay, não tem consonância ao sucesso que fez o grupo Secos e Molhados na década de setenta no Brasil, cujo vocalista requebrava e dançava com a sensualidade de uma mulher. Vale a pena lembrar que nos anos setenta vivíamos uma ditadura militar e que os chamados “bons costumes” imperava como patrulha de ordem política social. Porém, Ney Matogrosso era (e ainda é) talentoso e quem não deixou de emocionar-se com Rosa de Hiroshima grande sucesso em sua voz. Aqui está a diferença no que seja boa música e o que é simplesmente um ritmo, uma peça dançante que assim como um surto de uma gripe forte que vem, contagiam-nos, faz adoecer e vai-se para nunca mais voltar.

As crianças e jovens passam pela escola pública e pouca atenção se dá a projetos que envolvam fazer conhecer o que a cultura ocidental deixou-nos em séculos de existência, mesmo porque até os mestres que estão ali para ensiná-los são ignorantes a todo esse legado. Crescem sem conhecer Carlos Gomes, Heitor Vila Lobos, Mozart, Beethoven dentre outros clássicos. Vão para as ruas vilipendiar monumentos, prédios históricos, muros de casas com rabiscos grosseiros e jamais se enterneceram frente à obra de Portinari, Di Cavalcante, Monet, Van Gogh. Meninas nas praças e ruas requebram os quadris imitando um ato sexual, achando que dançam, mas nunca em suas vidas viram a leveza de Quebra Nozes, Giselle dentre outros balés. A ignorância se dá pela falta de oportunidade em conhecerem o que há de melhor em artes e a escola que seria o caminho natural para dotar-lhes de um espírito crítico do que seja boa música, dança e arte, preocupa-se mais em discutir a necessidade de ideologias de gêneros e distribuir preservativos para evitar uma gravidez precoce.

Sinceramente posso até ressentir-me de minha ignorância para com a existência de alguns novos cantores sertanejos que trazem boa poesia em suas canções, mas como gostaria de ser um completo parvo e passar alheio a tanta imbecilidade que hoje somos quase que obrigados a conhecer. Não se trata estar fechado para o mundo, mas ter a oportunidade de conhecer e escolher o que mundo tem de melhor para nós e decidir racionalmente qual caminho seguir.

João Lago

domingo, 14 de janeiro de 2018

No campo menos clientelismo e mais profissionalismo



Existe uma previsão do Banco Mundial que até o final deste Século aproximadamente 70% da população global estará vivendo em grandes aglomerados urbanos e não é preciso dizer que para viver em qualquer grande cidade é necessário ter sempre dinheiro a mão, ao contrário de viver no campo. É porque ainda reside a ideia que a vida rural pode ainda proporcionar uma família viver com uma produção de subsistência e gerar renda comercializando eventuais excedentes no mercado local. Porém, também é verdade que o esvaziamento da população rural decorre dos grandes latifúndios produtivos que já não precisam de tanta mão de obra devido à mecanização do campo, nos quais máquinas agrícolas sofisticadas e caras substituem a força humana. Neste cenário, também com a mecanização e profissionalização do trabalho rural, a própria cultura de subsistência fica limitada em preço e capacidade de produção e não tem força para competir com a produção do grande latifúndio. Os maiores entraves estão no financiamento, especialização e logística.

O governo federal, por meio dos bancos públicos, busca dar acesso ao crédito rural para financiar a produção do pequeno produtor fomentando a agricultura familiar, ao mesmo tempo em que cria no produtor uma dependência da disponibilidade de uma boa saúde financeira estatal para que as verbas possam chegar. A má notícia é que vivemos um período em que as necessidades tornaram-se ainda mais ilimitadas e os recursos ainda mais escassos e em época de cobertor curto é certo que o contingenciamento de verbas públicas afetará toda a cadeia produtiva. No entanto, não é só a perspectiva de falta de financiamento que aflige o pequeno produtor. Enquanto o grande produtor aumenta em expertise no seu negócio, tanto que o termo mais correto para denominá-lo é “agro business”, o produtor rural familiar ainda dependente da força humana e da complacência da natureza em proporcionar-lhe dias luminosos, muita chuva para irrigar a lavoura e sorte para livrar-se das pragas da lavoura. Ainda que se possa contar com alguma assistência técnica agrícola, outro fator pode concorrer para o fracasso é a pouca experiência do produtor na cultura, ou até mesmo a baixa instrução que traz a reboque a dificuldade de leitura e estudo que poderiam auxiliá-lo em assimilar novas técnicas e vencer a falta de experiência. Aqui podemos fazer uma severa crítica ao aliciamento que determinados movimentos campesinos fazem para a ocupação rural quando percorrem as periferias de cidades recrutando gente para invadir terras. Gente que não tem qualquer vocação para o trabalho no campo recebe um lote de terra, eventualmente dinheiro público, mas desiste de produzir antes de completar três anos de posse da terra. No final, vendem a propriedade e retornam a periferia das cidades, ou continuam no movimento campesino em um ciclo de ocupação e venda da propriedade como “sem terras profissionais”. Porém, ainda que se tenha certo sucesso na produção os problemas não terminam. O próximo entrave é a logística que corresponde transportar e comercializar a produção nos grandes centros consumidores e isso tanto afeta o grande produtor quanto o pequeno, sendo a precariedade das rodovias, a falta de entrepostos para armazenagem e a garantia de preço mínimo para o produtor, problemas ainda longe de serem solucionados.

Ficar somente na crítica não ajuda o debate e levando em consideração a importância do agronegócio para o Brasil, algumas medidas já deveriam estar consolidadas no campo. A mais urgente é fortalecer e fiscalizar o associativismo, principalmente para o pequeno produtor, pois isso permite uma política produtiva baseada em “cluster” que fomenta o compartilhamento de bens, máquinas e fortalece o poder de barganha na comercialização.  Em relação ao processo educacional, o produtor deve profissionalizar-se em sua atividade evitando o amadorismo. Neste aspecto, da capacitação profissional, levar escolas agrícolas e a extensão universitária para o campo com a finalidade de inovar, aumentar a produção e a qualidade. Não tem sentido manter nas capitais escolas de agronomia e veterinária longe do campo e sem conexão com o produtor rural. Ainda não devemos esquecer que o empreendedorismo também deve ser ensinado, porque toda atividade econômica não pode prescindir de saber empreender.

Finalizando, é inegável a força econômica do agronegócio e naturalmente, o Brasil com uma imensa vocação agrícola, não faltariam parceiros para financiar e lucrar com essa atividade e o produtor não  necessitaria permanecer cliente de verbas vindas do suor dos impostos dos brasileiros. Tenho convicção que a sociedade não aceita a distribuição de dinheiro à fundo perdido aos aventureiros arrivistas, sem qualquer sintonia com a vida rural, muitos deles de má-fé ou aliciados por movimentos maoistas rurais com a promessa de terra e de dinheiro fácil.

Aos governos os produtores esperam boas estradas, portos e linhas férreas que possam levar a produção até os centros consumidores, também a viabilização da comercialização nos grandes centros, principalmente para a agricultura familiar, de grandes feiras de atacado e varejo. Muitas dessas infraestruturas já existem, precisando somente uma gestão honesta, competente e profissionalizada.

João Lago.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Tempo para o perdão



Imaginemos dois indivíduos passando por qualquer cruzamento de uma grande cidade e nele encontre algumas crianças pedindo esmolas. O primeiro resolve baixar o vidro do carro e tão logo depois de deixar alguns trocados passa a criticar quem colocou aquelas criaturas no mundo, chamando-os de irresponsáveis e coisa e tal. O segundo simplesmente segue em frente sem se importar e sem olhar para trás. Nesses dois casos eu tenho a convicção que o mais autêntico seja aquele que seguiu em frente, justamente porque não carrega em si responsabilidade alguma, seja por qualquer demência moral que tenha. Já o primeiro julgou o outro do alto de sua superioridade e talvez para atenuar sua própria culpa tenha decidido dar a esmola, mesmo sabendo que tal ato não mudará em nada a realidade daquelas crianças, tão pouco as críticas proferidas. Poucos poderiam decidir parar o carro, conversar com as crianças e procurar entender porque elas estão ali. Isto seria realmente importar-se com outro, perdoando o descaso dos pais e buscando uma solução para o problema. Porém, pode ser muito difícil agir assim, mas um primeiro passo é deixar que nossas ações não sejam simplesmente na direção de mitigar nossa culpa e descaso, mas que sirvam verdadeiramente para promover o bem.

O perdão é uma concessão do ser humano muito difícil de ser auferida verdadeiramente, ou seja, perdoar apagando de si todas as mágoas e colocando-as no esquecimento. Digo isso, pois é comum ouvirmos de algumas pessoas: “eu perdoo, mas não esqueço”. Assim, desta forma, perdoar sem esquecer significa que aquela mágoa ficará latente, assim como um vírus quiescente nas células nervosas a espreita de uma baixa na imunidade para agir. Interessante que do mesmo modo que algumas úlceras virulentas despertam em situação de estresse e fadiga, da mesma forma as mágoas latentes despertam no primeiro desconforto emocional, emergindo na carne e a escarnecer o outro. Perdoar sem esquecer o mal se traduz do mesmo modo que dar a esmola, mas escarnecer o pedinte.

O ensinamento cristão apregoa o perdão e pede tão somente como reciprocidade o reconhecimento do erro. Traz o Evangelho (Jo 8, 10-11) que Cristo salvou a adúltera do apedrejamento, em seguida perdoou os seus pecados dizendo-lhe: “vai, e de agora em diante não peques mais”. Embora nossa natureza humana não esteja isenta do pecado, sendo certo que pecaremos mais adiante, reconhecer o erro e desejar não mais incorrê-lo é a condição necessária para o perdão, principalmente quando a luz de nossa consciência nos sentimos julgados e condenados. Do ponto de vista de quem perdoa a remissão somente acontece quando o mal é expulso da consciência e existe a esperança que um novo caminho será trilhado que não passe pelos mesmos erros cometidos. Nesse sentido, a parábola do “filho pródigo” (Lc 15, 11-31) ou “do pai misericordioso” como desejam alguns, ensina justamente estar de braços abertos para o arrependido, ainda contrariando quem quer que seja. Pois, imaginemos que fosse, ao invés do pai, o filho invejoso a recepcionar o irmão e ao ouvi-lo implorar perdão e o tivesse expulsado dizendo: “eu te perdoo, mas vai para bem longe daqui”. A boa nova de Cristo não é para aqueles que se acreditem escolhidos de Deus, mesmo porque a esses Jesus chamou de hipócritas por desejarem fazer crer ao outro sua superioridade. Pelo contrário, a mensagem de Cristo é para os pecadores e humilhados e não devemos fazer de uma pretensa virtude cristã motivo de exaltação pessoal, pois dos dois tesouros que devemos carregar no coração, a caridade e a fé, diz o Evangelho (Mt 6) que a ambas devem ser feitas em segredo, pois se feito de outro modo são apenas hipocrisia e vaidade que foram tão criticadas nos fariseus (Mt 23, 1-12). A vaidade e o orgulho são vendas que não permitem os nossos olhos concederem o perdão, pois nos impedem de olhar o outro e só enxergamos a nós mesmos naquilo que acreditamos serem as nossas virtudes.

Perdoar absolutamente não significa afastar-nos de nossas convicções e visão de mundo, principalmente quando elas estão solidificadas na caridade e na Fé em Deus. Porém, essas mesmas convicções jamais podem dar causa ao impedimento da compaixão pelo grande paradoxo que isso representa. Assim, como exemplo que a caridade e a fé nos acompanham, mesmo quando atacados pela ignomínia de alguns quando perdoamos o mal que nos fazem, não devemos esmorecer e sempre acreditar que o perdão deve ser concedido a quem arrependido deseja absolvição, pois esta é a justiça de Deus que jamais deve ser confundida com a justiça dos homens.

O perdão verdadeiro sempre será uma graça de Deus que frutifica da fé e da caridade (amor) presente em nosso coração.Portanto, há sempre tempo para o perdão.

João Lago.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Criança Viada, Censura e a Cultura Pop

Em 1982, em meus quinze anos, enquanto aguardava na fila para comprar ingressos para o filme ET o Extraterrestre, no extinto Cine Veneza do centro da cidade de Manaus, podia-se ver os cartazes de filmes com nomes sugestivos como Amor Estranho Amor, Curral de Mulheres, Aluga-se Moças dentre outros. Durante boa parte da minha adolescência a safra do cinema nacional era destinada a um público adulto, ou melhor dizendo, aos maiores de dezoito anos e era comum o juizado de menores fazer diligências em cinemas a procura de eventuais transgressores da lei. A censura, assim organizada durante a ditadura militar, justificava sua extensa estrutura de repressão política também como mantenedora dos bons costumes da família brasileira. Não somente o cinema, mas a música, literatura e as artes de modo geral estavam sujeitas aos censores do governo militar. Por exemplo, a música Je t’aime (moi non plus), repleta de sussurros eróticos em um idioma incompreensível para maioria dos brasileiros recebera a época o carimbo de “impróprio para menores de 18 anos”.

Veio a abertura democrática e esses novos ventos trouxeram uma aversão a tudo que pudesse lembrar os anos de repressão política e a elite intelectual brasileira adquire uma ojeriza a qualquer espécie de controle social que possa significar censura. E no reboque de uma indesejada anarquia moral escuto uma música que diz: “Ah Safada!Na hora de ganhar madeirada, a menina meteu o pé pra casa e mandou um recadinho pra mim: Nós se vê por aí (sic)”. Fica a dúvida se essa canção lúdica, que eventualmente vemos na boca de crianças, refere-se à apologia ao estupro ou ao sexo grupal. No entanto, pode-se dizer que se o cancioneiro popular dos anos oitenta abusava das palavras de duplo sentido com a pretensão de fazer rir, arrisco dizer que neste novo milênio o desejo inerente desse explícito burlesco é o de instituir o salaz com ares de cultura pop.

Entre as várias interpretações do que seja cultura pop, a que mais me agrada é aquela que diz que a mesma é uma inovação que emerge pelo gosto popular (daí o pop) e busca dialogar com a cultura erudita.  Um ícone que explica a cultura pop é o pintor e cineasta Andy Warhol, cuja obra invade as galerias de artes por conquistar o gosto de uma elite jovem intelectualizada. Melhor que Warhol, na música David Bowie é o que mais apropriadamente ilustra o que vem ser a cultura pop, justamente porque suas composições tiveram aceitação tanto pelo jovem suburbano londrino, quanto daquele jovem descolado de South Kensington (bairro nobre da capital inglesa). Assim, apesar de não ser uma cultura de massa, a cultura pop atualmente é massificada pelos jovens nas redes sociais. E por trabalhar uma comunicação instantânea e tão fugaz quanto os próprios acontecimentos que os inspiram, os “memes” podem, a meu ver, serem considerados uma expressão de cultura pop e uma forma de arte.

No dia 10 de setembro o banco Santander cancela a exposição Queermuseu cuja programação deveria seguir até 8 de outubro. O motivo do término antecipado foi a polêmica causada por algumas obras (criança viada que aborda infância e homossexualidade é uma delas) cuja proposta era valorizar a diversidade sexual, mas buscou apenas misturar símbolos cristãos com outras expressões do mundo secular, inclusive as de cunho sexual. Assim, debaixo do protesto de movimentos sociais, o Santander cancela a exposição e em sua nota a imprensa declara: “ouvimos as manifestações e entendemos que algumas obras da exposição Queermuseu desrespeitam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde o seu propósito maior, que é elevar a condição humana”. O banco Santander de maneira amarga percebeu que as ações de marketing de uma instituição financeira que atua de forma plural (varejão para quem preferir este termo) não poderia atuar como a grife de confecção Benetton que na década de 90 lançava campanhas que escandalizavam grupos tradicionais, enquanto agradava ao jovem intelectualizado, contestador e mais incluído no mundo secular, pois esse seria o seu público-alvo. O mais interessante nesta polêmica é que foi o MBL (Movimento Brasil Livre) que se mostra com uma cara jovem, mas com um pé no conservadorismo, que atuou como protagonista, organizando manifestações tanto nas mídias sociais, quanto nas ruas de Porto Alegre, cidade na qual estava a exposição.

Muita se fala de um país dividido e mais recentemente de um cansaço por tudo aquilo que seja politicamente correto, haja vista o desejo do jovem intelectualizado e contestador em rever conceitos e preconceitos antes considerados intocáveis. Logicamente a ideologia de esquerda e a permissividade dos costumes é que está sendo contestada, motivada por uma contrarreação ao ativismo exacerbado que deseja calar tudo que seja contrário ao que desejam incutir na sociedade, inclusive a parcela da “arte” da exposição Queermuseu do Santander como sendo parte da cultura pop e absolutamente não o é. Na minha análise, a fração das obras ali expostas tinha o condão de agradar um nicho que deseja desconstruir os valores morais da ideologia cristã, justamente porque se coloca como resistência a leniência dos costumes. O banco Santander foi convencido tardiamente disto e por isso cancelou a exposição.

A beleza da democracia é justamente permitir a liberdade de expressão, não somente aquela direcionada para agredir símbolos, crenças e pessoas, como bem escreveu o Santander, mas a liberdade de expressão que permite também reagir a essas ofensas sem o receio do patrulhamento do politicamente correto. A censura moderna não é mais aquela promovida pelo Estado, mas aquela empresarial e direcionada ao que seja conveniente para a imagem corporativa e aos negócios, evidentemente a depender de quem seja o seu público alvo.

João Lago

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Agora é cobrar as promessas de campanha



Com 100% das urnas apuradas o resultado da eleição suplementar para o governo do Amazonas ficou assim:

- Amazonino Mendes.......782.933..........33,47%
- Abstenções....................603.914...........25,82%
- Eduardo Braga...............539.318...........23,06%
- Brancos e Nulos.............412.721...........17,65%
Fonte: TSE

Analisando dessa forma os números, verificamos que as abstenções somadas com os brancos e nulos o percentual é de 43,47%, ou seja, um número bem acima dos votos válidos para o governador eleito Amazonino Mendes, demonstrando o desinteresse do amazonense em participar do pleito. Porém, mais interessante é que a segunda colocada foi abstenções, deixando Eduardo Braga em um desonroso terceiro lugar.

É certo dizer que as abstenções no primeiro turno já foram elevadas, mas aumentaram 6% nesse segundo turno. Todavia, o aumento mais significativo foi o somatório do percentual dos votos branco e nulos que aumentou 47,38%. Isso demonstra que poucos votos destinados no primeiro turno foram capazes de migrar para Amazonino e Eduardo Braga que agregaram respectivamente 35,59% e 42,79% em votos recebidos nesse segundo turno. Eduardo Braga conseguiu agregar percentualmente mais votos que Amazonino Mendes nesse domingo (27.8), mas ambos os candidatos não conseguiram convencer o eleitor dos outros candidatos a usar o “voto útil” para escolher o menos pior entre um, ou outro.

Minha análise é que na opinião do eleitor, que se deu ao trabalho de sair de casa para votar branco e nulo, é que nenhum dos dois candidatos o representa, não desejando ratificar com o seu voto uma escolha que acreditam não valer a pena. Nesse ponto de vista, podemos dizer que houve muito pouco “voto útil” nesse segundo turno.

Amazonino Mendes tem um grande desafio para esse pouco tempo até as eleições de 2018, mas nem por isso podemos deixar de cobrar o prometido durante a campanha, mesmo o eleitor que tenha votado nulo ou branco pelos motivos expostos nesta resenha.

Não acreditar nos candidatos não invalida nossa posição de cidadão em cobrar todas as promessas feitas em campanha, pois isto também faz parte da democracia e o cidadão já está cansado de estelionatos eleitorais. Exigir ao menos que se cumpram as promessas de campanha é mínimo que podemos fazer.

João Lago