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domingo, 20 de novembro de 2016

PERICULOSIDADE NO ATACADO



Com a prisão quase simultânea de dois ex-governadores, cuja sede do governo é a metrópole brasileira de maior projeção mundial e que foi palco da última olimpíada, revela que o encarceramento de políticos deixa a esfera dos cargos eletivos proporcionais e passa a orbitar sobre aqueles que tiveram cargos majoritários. É interessante isto, primeiro porque os delitos cometidos evidenciam que a corrupção é muito mais organizada e deletéria quando está centrada no poder executivo. Porém, o foro privilegiado, na forma concebida no ordenamento jurídico brasileiro, serve de guarida para toda sorte de bandidos que buscam um cargo eletivo para fugir da justiça. Não obstante, voltando ao caso citado, ambos somente foram presos porque ostentam “ex” antes do substantivo que os caracterizam na cena política, remetendo-os a vala comum que nós pobre mortais estamos sujeitos: o foro de justiça de primeiro grau. Desta forma, aqueles que estão no topo do poder temem mais perder o mandato que a própria justiça, revelando um esdrúxulo e obsceno privilégio que alimenta a impunidade.

Em uma democracia séria o homem com um mandato eletivo deve ter somente sua imunidade de voz garantida, para que não esteja sujeito a ser intimidado por expressar sua opinião. Em termos práticos, face às evidências de um delito de seus pares, até poder nomeá-los por bandidos sem ter receio que possa ser processado por injúria ou difamação. Isto é necessário, pois os corruptos tendem a amealhar poder econômico e podem utilizar a justiça para calar e intimidar qualquer um menos abonado. Além do mais, os ricos tendem a construir redes de relacionamentos nas altas esferas da sociedade e catapultar ainda mais seus privilégios, mesmo quando pegos em flagrante delito. Isto é tão verdade que está proibido algemar criminosos de colarinho branco, pois os juízes do supremo parecem entender que somente o reles ladrão de quinta categoria, esse que aparece exibido nos programas mundo cão de final de tarde, merece ser subjulgado e algemado por oferecer real perigo à sociedade. Ledo engano, a menor periculosidade não é aquela quando o marginal age no varejo roubando o celular ou carteira do cidadão, mas quando atual no atacado e rouba a esperança de um atendimento digno nos hospitais, subtrai a oportunidade de uma boa educação pública e tira da sociedade recursos que ajudaria a proteger-nos desses tão periculosos ladrões de quinta.

Essa classe política que enriqueceu na vida pública, age como novos ricos desvairados com o luxo que o dinheiro pode comprar e nada se distancia dos marginais “vida louca” que vão para as redes sociais ostentar o tênis de marca e a roupa de grife. Esses bandidos de colarinho branco ostentam viagens cinematográficas, restaurantes de luxo, carros importados, mansões nababescas e o cinismo estampado na cara. Invariavelmente também tem ao seu redor um séquito obsequioso que os chamam de “doutor”, porque essa subserviência também faz parte do jogo de poder que garante votos. Não estão na política para resolver nada, mas para perpetuar a miséria humana, pois dela se alimentam como abutres na carniça.

A cidade maravilhosa sangra como jamais sangrou e hoje pode ser considerada o reflexo do grande espelho de corrupção que cobre o Brasil, pois não há um mísero rincão deste país que não contenha políticos metástase dessa estirpe maligna. Basta olhar ao redor.

Nossas cidades, nossos estados e o nosso país não merecem tal sorte.

João Lago.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Cultura e dominação



Cada povo possui uma cultura própria que é composta do conhecimento tecnológico, da crença e da moral derivada que cria as regras de relações interpessoais e dos valores que influenciam as artes (incluindo arquitetura), os costumes e o conjunto de leis que disciplina a conduta individual e coletiva na sociedade. Por exemplo, o Brasil exibe uma cultura que é uma colcha de retalhos de influências das culturas dos povos que migraram espontaneamente, ou forçosamente, desde a colonização do país. Não obstante, a cultura maior difusão é aquela que orientou a escolha da língua e da crença majoritária em um Deus cristão e que é derivada do colonizador português que tinha hegemonia da força e do controle social (da lei e da imposição dos costumes). Devemos considerar que a época das grandes navegações, com a hegemonia de Portugal e Espanha entre os Séculos XV e XVIII, ocorreram dentro do sistema econômico mercantilista que impôs aos povos ameríndios a cultura europeia.

A presença de determinada matiz cultural em contato com outra deixa marcas visíveis e muitas vezes podem suprimir quase por completo os costumes, modificando crença e valores. No entanto, ainda que determinada cultura possa representar hegemonia sobre outra, subsistem pegadas que deixadas indicam que houve uma caminhada paralela no passado que possa explicar o que se é hoje. O hábito de tomar banho todos os dias é atribuído à herança deixado do costume indígena, muito distante do costume do europeu. O antropólogo Darcy Ribeiro, em sua obra O Povo Brasileiro, destaca o costume selvagem de banhar-se diariamente dos índios brasileiros bonitos, saudáveis, limpos e nus que deixavam pasmos os portugueses recém-chegados repletos de piolhos, em caravelas apertadas e sem arejamento, com gengivas sangrando pelo escorbuto. Não somente a influência da cultura indígena, mas também do negro africano cativo que foi trazido pelo colonizador português para o trabalho nas lavouras, na mineração e para as famílias. O sociólogo Gilberto Freyre, em sua obra Casa Grande Senzala, descreve fatos dos costumes de um Brasil escravocrata que ainda hoje encontramos reflexo na culinária, na música e na religião.

Modernamente vivemos em um modelo econômico capitalista e a hegemonia econômica e cultural dos Estados Unidos da América – EUA, está presente na vida do brasileiro na música, no cinema, no modo de vestir, agir e também no falar, com termos em inglês que foram incorporados e que seguem em paralelo com a língua portuguesa (anglicismo), mais notoriamente nos termos utilizados em informática, em tecnologias e nos negócios. Não obstante, outro exemplo de influência cultural está na comemoração do “dia das bruxas” (Halloween), até então estranho a nossa cultura, mas que já foi incorporado no calendário de eventos em algumas escolas brasileiras. Neste ponto, discussões sobre ideologia e cultura misturam-se fomentando o debate da dominação econômica capitalista estadunidense sobre a organização social e política brasileira. Porém, sendo o Brasil também um país capitalista inserido em uma economia globalizada, a pergunta que pode surgir é como manter uma cultura própria forte ao mesmo tempo produzir bens e serviços que possam ser exportados para outros países?

Vejamos o caso da empresa estadunidense SAMBAZON que comercializa no mercado dos EUA produtos industrializados derivados do açaí, um produto tipicamente brasileiro e amazônico. O problema da marca inicia-se em sua dicção que a maioria dos americanos tem dificuldades de pronunciar. Contudo, por iniciativa de um empresário estadunidense californiano que juntou o nome SAMBA e AMAZON, que são bastante conhecidos como de origem brasileira, fez do fruto amazônico um verdadeiro sucesso de vendas entre os estadunidenses. Leva-se em consideração que a sede da empresa está localizada na Califórnia – EUA cuja terra não se cultiva um único pé de açaí. Toda a produção está localizada no norte brasileiro entre os estados do Pará e Amapá. Assim, em um mundo globalizado as influências culturais também estariam relacionadas com as relações de interesse comerciais?

A cultura como um sistema dinâmico não poderia ser considerada isenta de mutabilidade ao longo do tempo e modernamente deverá avaliar-se o impacto da influência de um mundo digital conectado cujas ferramentas de acesso estão sob o controle de grandes corporações estrangeiras, ou melhor dizendo, de origem nos EUA. Neste aspecto, há de se avaliar se os povos que utilizem essas ferramentas terão liberdade de acesso e difusão de conteúdo, ou se por meio de algoritmos sofisticados serão monitorados e terão cerceados e manipulados certas tendências ideológicas e culturais em detrimento de outras. Olha-se para a tela do computador como uma janela na qual a paisagem que se vê não é fruto do acaso, ou tecnicamente falando, de uma incidência aleatória e randômica. Pode-se perfeitamente determinar aquilo que pode e deve ser exibido, ou não.

A saída para a democratização de tecnologias talvez passe pela regulamentação do uso das informações pelos detentores da ferramenta sem que haja interferências ou manipulações do que deve ser visto, lido ou ouvido. A alienação de conteúdo pode ser tão radical para exterminar uma cultura como foi a varíola e o sarampo na América espanhola e portuguesa no Século XVI.

João Lago

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A República das Abotoaduras



Lembro-me do caso daquele juiz trabalhista no Paraná que em 2007 cancelou uma audiência porque Pereira, um agricultor, estava usando chinelos. No ofício, ele justificou sua atitude argumentando que considerava o modo como o trabalhador se vestia incompatível com a dignidade do Poder Judiciário. Não foi este um caso isolado. No mesmo ano, outro magistrado no fórum de Lagoa Vermelha, no Rio Grande do Sul, também suspendeu a audiência porque o trabalhador que entrou com uma ação trabalhista foi ao fórum vestindo uma bermuda. O juiz assim procedeu porque igualmente considerou o modo do trabalhador se vestir incompatível com a dignidade do Poder Judiciário.
No julgamento do impeachment de Dilma no senado, as abotoaduras douradas de Lewandowski,  presidente do Supremo Tribunal Federal - STF, chamaram a minha atenção, assim como não pude deixar de notar as lindas abotoaduras que Temer, presidente recém empossado do Brasil, ostentava na reunião do G20 na China. Mas, retornando ao ponto de nosso introito, usar abotoaduras parece conferir a importância que buscam construir para mostrar a nação que ambos são aptos para exercer com dignidade a investidura aos cargos que possuem. Ledo engano.
Renan Calheiros, outro adepto de abotoaduras, reunido com Lewandowsky, arquitetou que Dilma saísse da presidência da república com os seus direitos políticos intactos, que imediatamente criou precedente para que outras figuras obtusas da política exigissem idêntico tratamento.  Delcídio do Amaral, ex-senador do PT que foi preso pelo juiz Moro pela tentativa de obstrução da operação lava a jato, foi o primeiro que se apresentou para tentar reaver seus direitos políticos caçados pelo senado.  Outro, que está em vias de ter o seu mandato caçado, é o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) que já articula com os seus aliados a manutenção de seus direitos políticos a partir da lambança de Calheiros e Lewandowsky, pois é certo que o voto de cabresto dos evangélicos cariocas da Assembleia de deus (esse deus dele minúsculo mesmo) novamente o elegerão. Aliás, o Eduardo Cunha destaca-se com louvor como deputado ostentação que, juntamente com sua esposa, mostra-se adepto ao turismo e ao consumo de luxo.
Somos um país com desigualdades acentuadas e composto por uma sociedade que cada vez mais perigosamente lê o livro pela capa. Esse tipo de inconsciente coletivo se sobressai com a cultura da ostentação e na ideologia religiosa da prosperidade, que utilizam o desejo do ser humano em ser aceito na sociedade para vender a ideia que possuir bens materiais é o mais importante. Partem do princípio que a dignidade humana pode ser quantificada por aquilo que o indivíduo possui. Porém, seria possível o total desprezo pelos bens materiais e a construção de uma sociedade sem diferenças econômicas entre seus indivíduos?
O filme Doador de Memórias (The Giver – 2014) retrata uma civilização futurista perfeita, sem diferenças sociais, sem conflitos, sem doenças, mas com completa ausência de paixões humanas, na qual quando um adolescente chega à idade adulta, a ele é designada uma função na comunidade (médico, gari, professor etc.). Uma sociedade de racionalidade pragmática, mas para isso desde cedo seus cidadãos tomam drogas para suprimir sentimentos, sendo o amor um deles. Não sei se o diretor Phillip Noyce desejou passar uma mensagem política. Em todo o caso, não somos uma sociedade de abelhas, ideologicamente higienizada e com desígnios pessoais traçados, rígidos e imutáveis. O marxismo como filosofia pode até ser aceitável sob certos aspectos, mas economicamente falha justamente por ignorar a existência das paixões humanas e do desejo de prosperidade inerente a quem busque reconhecimento pelo esforço empreendedor. Talvez por isso que todas as nações que tentaram o marxismo, por não dispor de tais drogas mágicas, utilizaram a repressão para suprimir qualquer sentimento ou desconforto do indivíduo com o seu sistema político e econômico. Na impossibilidade do comunismo distribuir prosperidade, resolveu socializar a mediocridade e a pobreza. Um exemplo moderno disto são as filas imensas nos supermercados e o desabastecimento de produtos de primeira necessidade nas prateleiras dos supermercados Venezuelanos e Cubanos. Racionamento igual aos vividos nos áureos tempos do bloco comunista europeu indicando que nada mudou. Enquanto a Europa capitalista prosperava e distribuía oportunidades e qualidade de vida, o leste europeu era sinônimo de ineficiência política e econômica.
O Brasil um dia esteve unido na esperança que um governo de esquerda pudesse levar dignidade aos que somente tem bermudas para vestir e sandálias para calçar, mas com a falência da esquerda, simbolizada pelo populismo lulopetista, vários grupos de doutrinas marxistas nas organizações sindicais, em grupos comunitários, nos movimentos campesinos, nos diretórios acadêmicos universitários, sentiram-se órfãos e distantes em identidade e em interlocução com o novo governo que se apresenta. Talvez para esses grupos o enriquecimento ostentação de Lula, seus filhos e demais membros que estão presos ou processados pela operação lava jato, seja um mal menor. Ruim com eles, pior sem eles e a tendência é que esses grupos inconformados com o afastamento de Dilma, mesmo sendo uma minoria insignificante, ainda irão produzir muito barulho. Está foi a promessa de Lula quando esbravejava ante a possibilidade do impeachment de Dilma.
Temer fala em pacificação do país, mas ela não será construída com a ostentação portentosa de abotoaduras de ouro, porque esse tipo de adereço não é aquele que orna a ideia estética dos marxistas, ainda que eles possam ter o desejo incubado de colocar uma bem vistosa nos punhos. Porém, por mais que se possa louvar a erudição de Michel Temer, que muito distante de sua antecessora é capaz de construir frases conexas e demonstrar certo equilíbrio nas emoções, não é a figura política capaz de reunir entorno de si uma unanimidade, pois ainda pesa ao seu lado o PMBD de Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Jader Barbalho, Eduardo Braga e outras tantas figuras sinistras da república.
O maior mal que o PT fez ao Brasil foi destruir o que se chama de "esquerda" em nossa política, justamente aquela que um dia foi chamada progressista. O espólio sem dono após a morte do governo do PT faz com que esses movimentos de esquerda não saibam para onde ir, como se não houvesse mais um caminho a seguir e se agarram a esse cadáver putrefato. O discurso e o alinhamento dos senadores da REDE de Marina Silva com a ideia de golpe do PT é um exemplo da impossibilidade de uma visão de um novo caminho. É lamentável, triste, mas é essa herança maldita que Lula deixa para o Brasil.
Podemos não gostar do Michel Temer, mas se espera que nesses próximos dois anos alguma melhoria na economia possa novamente trazer esperança de que pelo menos não irá faltar emprego e, por conseguinte, comida à mesa. Contudo, não podemos jamais nos esquecer de que Temer é também uma herança que recebemos das escolhas políticas erradas do PT.
João Lago.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

O Sagrado e o Profano



Nos anos 30 do Século XX, o compositor alemão Carl Orff misturou o latim de versos eróticos medievais com os acordes e cânticos de música erudita, cujo idioma até então era exclusivo para as composições de música sacra. Logicamente essa mistura, aliada ao talento musical do autor, produziu uma das mais conhecidas peças clássicas do século passado, popularizada entre os jovens dos anos 90 por Michael Jackson que a utilizou durante a abertura de shows de sua turnê mundial intitulada Dangerous. Trata-se de Carmina Burana que um desavisado seria capaz de confundir a composição profana de Carl Orff com uma música de repertório cristão, tipicamente para ser tocada em igrejas. Acho importante definir o conceito “profano” aqui atribuído como simplesmente a utilização de simbolismos sacros para produção de obras de caráter secular (saeculāris), que na interpretação do latim eclesiástico significaria aquilo que é do mundo, ou dos homens.

Nesses ecos de festas juninas que ainda ressoam em Julho, estive prestigiando um arraial em uma comunidade na zona rural de um município vizinho de Manaus, no qual grupos de dança se apresentavam. Um deles, formados por crianças e adolescentes, estava caracterizado com uma indumentária que lembrava as veste de Michael Jackson (inclusive com o microfone labial tipo headset) e dançavam ao ritmo pop com letras repletas de mensagens religiosas. Estava ao meu lado uma amiga, que é psicóloga e atua na região, a quem sussurrei ao pé de ouvido: Se não estivessem dançando essas músicas, provavelmente estariam dançando um funk. O líder do grupo de dança ao final convidava que pais interessados que inscrevessem seus filhos nos ensaios e enfatizava o cunho cristão como proposta ideológica.

Quando adolescente estudei em colégio salesiano e sempre tive os portões abertos da escola para prática esportiva, artes e em particular o teatro. Em uma dessas oportunidades, durante a montagem da peça Otelo de Shakespeare, pela pesquisa musical necessária para compor a trilha sonora, tive contato profundo com a música clássica erudita, inclusive Carl Orff. Era um tempo que os mundos estavam bem divididos e não se misturavam o sagrado e o profano. Era um tempo que o catolicismo era a religião majoritária e não se discutia a evasão de católicos para correntes neopentencostais. Eram ainda tempos de ditadura militar. Hoje tudo mudou, e vemos grupos cristãos (incluindo católicos) surgirem com movimentos jovens que propõem “carnaval de cristo”, “hip-hop do senhor”, “rock evangélico” etc. O jovem passou a ser disputado por essas doutrinas cristãs emergentes e se antes todos os ritmos do mundo secular que os atraiam eram profanos, agora podem ser adaptados para uma temática “santa”.

Minha análise antropológica rasa desse fenômeno é que o jovem é atraído para viver experiências que os coloquem em contato com o mundo, como um ser que se evade da forma protetora de crisálida com uma avidez voraz pelo conhecimento (qualquer que seja). Porém, os valores que são construídos no seio familiar serão aqueles que inicialmente servirão de julgamento sobre aquilo que lhe convém ou aquilo que lhe seja moralmente proibido. A depender do quanto esses valores estejam internalizados no indivíduo, os conflitos íntimos de personalidade podem frear condutas sociais e eventualmente ser motivo de sofrimento silencioso que podem produzir um adulto frustrado, recalcado, revoltado e infeliz. Esse efeito colateral é atribuído por minorias da sociedade aos valores cristãos e que hoje tanto alimenta o discurso para promoção de um mundo mais secularizado. Ao mesmo tempo, os movimentos cristãos reagem e buscam introduzir na cultura secular mensagens de ideologia religiosa.

Desde que a família, por sua degradação, deixa de ser um ambiente primordial de formação de valores, os meios de comunicação (a televisão principalmente) e a escola se transformam em um canal de disseminação de ideologias que tem como alvo os jovens. Alguns pais podem ter a possibilidade de colocar seus filhos em uma escola confessional ou instalar em sua casa um canal pago de TV com conteúdo restrito, porém é justamente na maioria servida pela TV aberta e cliente do ensino público que vem a reação contra a doutrinação política e da ideologia de gênero. O expoente da vez dessa reação é movimento Escola Sem Partido, idealizado pelo advogado Miguel Nagib que inspirou o Projeto de Lei nº 867/2015, de autoria do deputado Izalci (PSDB/DF) que prega que os professores devem se comportar em sala de aula com uma “neutralidade ideológica”. Aqueles que apoiam o projeto defendem que a formação moral da criança não deve ser protagonizada pelo professor, mas restrita ao âmbito familiar, enquanto aqueles que são contra defendem a importância do ambiente escolar para ensinar valores como diversidade, igualdade e inclusão, principalmente da livre sexualidade. É justamente nesse ponto da sexualidade que reside o combate feroz entre conservadores e os ideólogos de esquerda.

Observo uma crescente polarização que não admite mais nenhum discurso morno, ou se está muito quente ou extremamente frio. O mundo secular sempre existiu e por muito tempo o acesso pleno a ele somente era permitido àqueles que entravam na idade adulta. Lembro-me de um disco de vinil de composições francesas que vi certa vez em um sebo que trazia uma tarja de “proibido para menores de dezoito anos” porque trazia a música Je t’aime, moi non plus (1976) na qual homem e mulher sussurram e gemem enquanto cantam. Hoje, qualquer “funkezinho” dos mais inocentes é muito mais moralmente perturbador que essa composição de Serge Gainsbourg. Eram tempos em que se acreditava que se devia preservar a inocência das crianças e essa censura imposta durante a ditadura militar produziu uma intelectualidade que em nome da liberdade de expressão tornou-se refratária a qualquer espécie de controle de acesso a conteúdo.

Não pretendo nesta minha reflexão apresentar uma solução de conciliação entre o sagrado e o profano, mas observo que os movimentos que misturam cultura secular com mensagens religiosas estão perdendo o foco, ou cedendo em suas convicções ideológicas justamente para uma minoria articulada e influente na sociedade. Não acredito que a solução seja o “funk de jeová”, ou qualquer outra coisa que possa soar como heresia para atrair jovens, mas simplesmente ensiná-los a reconhecer e a julgar o que pode ser melhor para si, respeitando o seu corpo, sua integridade moral, respeito às leis, respeito ao próximo, ou seja, simplesmente ensinado valores. Esta é a melhor proteção que podemos deixar para os nossos filhos.

João Lago.

sábado, 18 de junho de 2016

Conceição



Me convidaste para ver o sol
Anunciando o calor da manhã
O cheiro de café preenchendo a casa
O uniforme esticado sobre a cama.

Levanta! Já é hora de amanhecer.

Aquela correria, aquele atropelo
E quando menos se espera: Meio-dia
A mesa posta outra vez
O caderno e o lápis esperando a lição.

Vambora! Não é hora de esmorecer

E o dia quente se adianta
Entre confusões e brincadeiras
O tempo que passa amornando
Minha infância perto de ti.

Anda! Vem para casa dormir

E cobre-se a noite em manto escuro
A tua sombra que se inclina ao infinito
E eu corria para os teus braços
Para um longo e precioso abraço.

E fecha o dia, como de costume
Agora e sempre,
Sua benção mamãe.

João Lago.