Voltava
para casa, encerrando meu expediente em sala de aula da sexta-feira
(28/3), quando ouço pelo rádio a notícia do acidente com o micro-ônibus
825, que faz a linha bairro da Paz e Redenção. Nesse momento um frio
percorre meu corpo, pois o coletivo serve o bairro onde moro e faço uma
prece por meus amigos que costumeiramente sei que usam o transporte
público. Não obstante, sempre que vejo um rosto amigo no ponto de
ônibus, ofereço carona para compartilhar o meio de transporte mais
egoísta que existe: o carro particular. Não somente isto, nessas
ocasiões aproveito para colocar a conversa em dia, coisa que
normalmente, pela vida agitada e tempo exíguo, deixamos de fazer como os
nossos vizinhos e amigos. Como o trânsito flui lentamente, então é
possível travar longas conversas até os nossos destinos.
O
exato local do acidente, uma das principais vias de acesso à zona
centro-oeste de Manaus, faz parte de meu itinerário, mas ao ouvir a
notícia do acidente pelo rádio resolvo seguir pela via paralela, chamada
Constantino Nery, principal corredor de ônibus da cidade de Manaus, na
qual foi instalada uma faixa exclusiva para ônibus articulados (sistema
BRS). Porém, mesmo desviando o caminho, ainda assim encontro um pesado
congestionamento, incomum para aquele horário, ou seja, reflexo do
trágico acidente.
Com o trânsito parado, vejo motoristas ocupando a
faixa exclusiva dos ônibus, pois eles acreditam que em trânsito parado a
única lei vigente é a do “vale-tudo” e que otário é aquele que
permanece pacientemente no espaço que lhe é permitido. Esses beócios
importam-se consigo mesmos e fingem desconhecer que a faixa exclusiva
também é para ser utilizada pelos bombeiros, ambulância, forças
policiais e de trânsito para rapidamente chegarem a quem precisa de
ajuda. Esses mesmos pulhas são os que também fecham cruzamentos, pois se
não podem passar, então ninguém passa. Esses mesmos néscios são os que
estacionam em vagas de deficientes, idosos e gestantes com a maior
desfaçatez. Para todos esses, não existem campanhas de conscientização
que resolva porque desacreditam na capacidade do estado em punir, por
isso seus atos são justificados pela certeza da impunidade.
Com a
faixa de ônibus ocupada no lado da avenida que segue em direção ao
bairro, escuto sirenes e vejo passar pelo outro lado da rua, na
contramão e pela faixa de ônibus contrária, veículos da polícia em alta
velocidade, provavelmente indo prestar auxílio ao acidente. Continuo
escutar pelo rádio ao vivo os acontecimentos no local, que dão conta de
uma grávida sendo atendida no asfalto com parada cardiorrespiratória.
Nesses casos, ter por perto alguém que possa prestar primeiros socorros
de forma eficiente é crucial para haver sobrevida. Qualquer minuto
perdido pode significar a morte. Ainda no trânsito, poucos momentos
depois, o noticiário diz que mãe e filho faleceram e pergunto-me se a
dificuldade de acesso pelas ambulâncias por esses motoristas não os
fazem cúmplices desta tragédia. Pode ser duro pensar desta maneira, mas
os corações dessas pessoas são feitos de pedra, mesmo que na vida
cotidiana possam parecer pessoais normais, no trânsito se travestem de
selvagens.
Não podemos ficar somente na retórica e devemos apontar
o que acreditamos que possa contribuir para trazer paz no trânsito e
menos vidas ceifadas no asfalto. Assim, seria bom refletirmos na
eficácia das seguintes medidas:
- Maior monitoramento eletrônico
nas principais vias, com câmeras inteligentes, remotamente controladas,
para que condutores mal educados e irresponsáveis possam ser autuados em
suas infrações. A prefeitura de São Paulo já faz isto!
- Maior
investimento no conforto do transporte coletivo, não permitindo a
superlotação dos veículos e cronograma de climatização de todos os
ônibus, por meio de lei municipal como acontece hoje na cidade do Rio de
Janeiro.
- Diminuição do poder do Sinetram (sindicato patronal
das empresas de ônibus), no que se refere ao planejamento da frota,
adotando rastreamento por GPS de todos os coletivos em uma central de
inteligência controlada na Superintendência Municipal de Transportes
Urbanos – SMTU. Não se trata de ficção científica, hoje a tecnologia de
rastreamento e controle de frota é uma realidade que está sendo
utilizada por grandes empresas de logística no Brasil.
- Campanhas
educativas sistemáticas nas escolas, principalmente de ensino
fundamental (envolvendo noções de cidadania), que conscientizem as
crianças em tenra idade.
- Campanhas incentivando a gentileza no trânsito no rádio, na TV, nas escolas e universidades.
Nossas
ruas e avenidas não são uma selva, na qual vale a lei do mais forte.
Dar passagem absolutamente não é sinônimo de fraqueza, mas de educação e
altruísmo. O motorista do transporte egoísta deve ser conscientizado
(ou obrigado a aceitar por meio de pesadas multas), que a preferência no
trânsito deve ser do transporte coletivo. Por outro lado, o transporte
público não deve ser oferecido como alternativa de locomoção para
cidadãos de terceira categoria, mas deve ser facultado como alternativa
de alto padrão, na qual o usuário não se ressinta com o valor da
passagem em relação ao serviço que é oferecido.
Com todas essas
mortes acontecendo no trânsito, nós temos que definir o que poderá nos
conferir o título de civilizados, ou nos conformarmos de sermos
confundidos e chamados todos de selvagens, e com toda a razão.
Que Deus, em sua infinita misericórdia, possa confortar as famílias unidas nesta dor.
João Lago
Administrador, professor e morador do Conjunto Santos Dumont