
No verão de 2014, mas precisamente no dia 17 de março, foi deflagrada a Operação Lava Jato que desnudou empresários e políticos em uma rede de corrupção que hoje somam mais de duzentas condenações e mais de três séculos em anos de prisão. Neste mês de abril, o desfecho trágico de um suicídio de um político envolvido na corrupção promovida pela Odebrecht ganhou as manchetes de portais no Brasil e no mundo. Porém, antes que se creia que a vergonha de ser corrupto leve um político a tirar a vida no Brasil, não se iluda, quem se matou foi o ex-presidente do Peru Alan Garcia. No âmbito da América Latina, a construtora brasileira Odebrecht tornou-se desde 2001 uma multinacional que é sinônimo de corrupção e cuja reputação está enlameada de tal sorte que não creio que se possa lavá-la com jatos de probidade em futuro próximo. Essa construtora, enquanto houver desdobramento da Lava Jato, está a assombrar algumas almas aqui e no exterior.
Terminou o verão no hemisfério sul e uma nova classe de assombrados foram incluídos no fantasma da Odebrecht, tratam-se de ministros do Superior Tribunal Federal – STF. Uma notícia que poderia até passar despercebida, publicada em dois periódicos eletrônicos quase que desconhecidos do grande público (Antagonista e Crusoé), ganharam notoriedade ao serem censurados pelas canetas dos Ministros do STF José Antônio Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Se a intenção era abafar a notícia, o remédio apresentou um severo efeito colateral e hoje fica difícil censurar as inúmeras menções, nas mais diversas mídias, que citam quem é o dono do codinome “amigo, do amigo de meu pai”. Foram tão duras as reações nas diversas esferas institucionais da república que a censura do STF não durou trinta dias, mas ainda se espera a revogação da investigação conduzida pelo STF que pasmem, ainda há de ser o julgador, ao que alguns dizem ser perseguição inquisitória, que o STF promove na busca de fazer calar os seus críticos.
A Lava Jato é como um cemitério clandestino que a cada corpo retirado descobre-se a história que há por detrás daquele assassinato e como foram muitos os corpos sepultados, e tão longas são as autópsias, que deixam os culpados pelos delitos assombrados com a possibilidade do próximo cadáver possa ser vinculado a sua confortável vida atual. E é justamente por causa disto que alguns teimam em desacreditar a Lava Jato e desejam muito encerrá-la com a desculpa que os principais culpados já foram punidos e o que sobrou assemelha-se a uma caça as bruxas (algumas milionárias, ou em altos cargos da república). Porém, aqui não se trata de pessoas com a consciência pesada, cheias de vergonha do que fizeram e desejosas de absolvição. Muito pelo contrário, pois quando descobertas não botam uma bala na cabeça temerosas pela desonra, mas enchem o peito e usam o prestígio, ou o dinheiro acumulado no butim, para escapar da prisão.
A sociedade brasileira sabe o que vocês fizeram no verão passado, esteja no poder executivo, legislativo ou judiciário e enquanto tivermos a democracia e a imprensa livre muitos esqueletos ainda serão exumados dessa cova rasa.
João Lago